Famílias se unem e criam a própria creche

Em busca de mais participação na educação dos filhos, sem esquecer a socialização, grupos de pais de Rio e SP formam ‘escolas parentais’

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Eles discordavam da grade de atividades das creches convencionais, com horários fixos para as crianças dormirem e brincarem, e achavam insuficiente a participação das famílias apenas nas festinhas e reuniões bimestrais. Em busca de mais participação na educação dos filhos, sem deixar de lado a socialização, grupos de pais têm se reunido para formar creches parentais ou familiares.

São famílias de classe média, que já se conheciam ou se encontraram nas redes sociais, com filhos na mesma faixa etária e decidiram montar um modelo de creche que atendia às suas expectativas. Os pais se revezam para cada dia um cuidar das crianças ou contratam uma cuidadora. A creche pode funcionar na casa de uma das famílias ou em um espaço alugado.

A geógrafa Marta Franco, de 34 anos, é uma das mães que idealizou o Caminhar Coletivo, creche parental na Tijuca, no Rio. Ela conta que, quando a filha Carolina tinha 4 meses, começou a procurar por uma creche para ter aonde deixá-la quando voltasse da licença maternidade. “Visitei algumas escolas e o que vi foram espaços pequenos, sem área verde. A impressão que tinha era de que deixaria minha filha numa caixa.”

Sem ter parentes que pudessem ficar com a menina, Marta conversou com uma amiga que também não queria colocar o filho em escola convencional. Depois de pesquisarem, elas começaram em julho do ano passado a creche parental com três bebês – hoje, são quatro, com idades entre 1 ano e 1 ano e 5 meses.

As famílias alugaram uma sala comercial, contrataram uma cuidadora – que já tinha tido trabalhado antes como assistente em uma creche – e se organizaram para que cada dia ao menos um dos pais fique com as crianças. Os custos são divididos entre elas: por mês cada uma paga cerca de R$ 700 para que os filhos fiquem 5 horas no local. “São as famílias que pesquisam atividades para as crianças, nós limpamos o espaço, fazemos o trabalho administrativo. Mas todo o trabalho é compensado por estarmos perto dos nossos filhos, ver o desenvolvimento deles, como se relacionam com outras crianças”, disse Marta.

A psicóloga Patrícia Lobato, de 36 anos, decidiu entrar para o Caminhar Coletivo por achar que era a opção que permitia maior proximidade com a filha de 1 ano e 4 meses. "Ela é filha única, então queria que tivesse contato com outras crianças, mas também queria ter uma participação maior nessa etapa. Foi a melhor solução que encontramos", conta. 

Patrícia diz que a experiência também traz muitos ensinamentos para os pais por terem que conviver com diferentes visões de educação. "Cada um teve uma criação, tem uma expectativa do que quer para o filho. Como estamos juntos, temos que conciliar todas essas divergências. Aprendi muito nesse período."

Dúvida. Com o fim da licença maternidade, a gestora pública Manuela Colombo, de 33 anos, enfrentou a dúvida sobre onde deixar a filha Martina. As duas opções mais convencionais não a agradavam: na escola, a menina teria de se encaixar desde pequena em regras e horários fixos. Com a babá, ficaria sem contato com crianças de sua idade. 

Conversando com três amigas que tinham filhos da mesma idade da sua, Manuela decidiu transformar sua casa, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, em uma creche parental, que passaram a chamar de Quintal do Limoeiro. Elas contrataram duas assistentes de uma escola para ficar com as crianças das 13 às 19 horas. 

“Nós temos uma participação na educação das crianças que seria impossível em uma escola. Nós pesquisamos práticas e teorias pedagógicas, conversamos com as cuidadoras. Alguns avôs passam a tarde com as crianças. É um envolvimento muito grande da família”, diz.

Apesar da opção da creche parental nessa etapa, as famílias não têm planos de continuar a educação das crianças em casa - o homeschooling. Elas disseram que até os filhos completarem 4 anos - quando a matrícula se torna obrigatória na pré-escola - já pretendem matriculá-los em escolas regulares.

Cautela. Maria Carmem Barbosa, professora de Educação Infantil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que esse modelo de creche atraiu famílias da classe média pela ideologia e não por necessidade. "Elas querem uma educação que dizem não encontrar nas escolas. É uma possibilidade para famílias que têm disponibilidade de tempo e vontade de participar."

Ela alerta as famílias para que as creches parentais não sejam espaços que apenas reproduzam o ambiente familiar. “Ir para a escola é importante por ampliar o repertório de relações e experiências da criança. Se ela está em um ambiente que muito se assemelha à casa e à família, ela pode não ter o mesmo desenvolvimento que teria”. 

Também diz que as famílias precisam estar atentas à legislação municipal para que o espaço não se configure com uma creche formal, caso contrário elas têm também de atender às especificações da lei.

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