Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Faltam psiquiatras e médicos de família

Mário Scheffer, professor de Medicina da USP, aponta desafios para a distribuição de especialistas

Entrevista com

Mário Scheffer

Gabriel Navajas, Especial para O Estado

16 Outubro 2018 | 03h00

Professor de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Mário Scheffer coordena o estudo Demografia Médica no Brasil, um raio X das 54 especialidades existentes na carreira. Enquanto Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia aparecem entre as mais procuradas, é baixa a procura por Psiquiatria e Medicina da Família e Comunidade, por exemplo. Ao Estado, Scheffer explica as razões para isso e afirma que a distribuição de especialistas entre os setores público e privado é desigual.

Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral e Ginecologia são as especialidades mais procuradas. Por quê? 

Ginecologia e Obstetrícia e Pediatria são muito necessárias e existem problemas de saúde muito frequentes para mulheres e crianças. Tem o parto também. A Cirurgia Geral e a Clínica Médica dão acesso a outras especialidades, são pré-requisito. Todas as cirurgias precisam ser feitas por um especialista em geral e algumas exigem a especialidade de Clínica Médica. 

Por que algumas especialidades têm muito mais títulos do que outras?

Algumas são muito estratégicas. Tratam situações de saúde muito prevalentes na população. O que define o número de títulos é a oferta de vagas. As que têm maior número de médicos são por problemas de saúde frequentes. Mas a distribuição é racional, bem compatível com outros países. O número de médicos é bem distribuído por especialidade, não tem nenhuma distorção.

Há alguma área com poucos títulos?

Teria de haver um aumento de especialistas de Medicina da Família e Comunidade (5.486 títulos) e Psiquiatria (10.396). Algumas deveriam ter número maior, mas não têm por que não há histórico de oferta de vagas.

E por que isso acontece com essas duas específicas?

Há vagas ociosas. A procura é menor que o número de vagas. Essas duas especialmente são muito importantes. A Medicina da Família e Comunidade na atenção primária, e os psiquiatras nos centros de atenção psicossocial (Caps). Faltam médicos em comunidades e psiquiatras nos Caps.

Alguma especialidade pode surgir?

Não se cria com frequência. A lista é a mesma durante anos. De vez em quando, uma, derivada de outra, se credencia. Acontece de uma demanda que se descola, aí cresce a área de atuação e vira especialidade, mas geralmente é resultado de prática. Não é algo que inventam. Já é uma demanda. Passa a ter uma área de atuação forte e aí você desmembra. E tem de ser assim. Passa por muito rigor, é muito criterioso.

Como se dá a distribuição de especialidades no setor público e no privado?

A questão da distribuição é algo muito interessante. Uma coisa importante para destacar é que boa parte das especialidades está no setor privado. Faltam especialistas no público. É uma distribuição desigual, que varia de acordo com a região. Na cidade de São Paulo, 60% das pessoas têm planos de saúde. Esse é um dos motivos.

Como funciona a residência?

São oferecidas vagas de residências médicas em todas as especialidades. Os médicos recém-formados se apresentam nesses programas. Após a conclusão, se tornam especialistas. Hoje, quase 70% dos médicos têm título em alguma especialidade. Os outros 30% não possuem, e nisso não há nenhuma irregularidade.

Quando o profissional pode se tornar um médico especialista?

O curso de Medicina dura seis anos. Ao final do sexto ano, o aluno já está apto, registrado no Conselho Regional de Medicina. Já é médico e pode atuar. A maioria dos médicos tenta especialização ou residência médica, mas a autorização (para ele exercer) já é dada. A gente não tem um número preciso, mas cerca de 20% dos médicos vão direto para o mercado de trabalho, que é grande. Vão para atenção básica, fazem plantões. 

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