Valeria Gonçalvez/Estadão
Valeria Gonçalvez/Estadão

Faculdades de Administração mudam cursos e turmas se tornam startups

As mudanças são uma resposta às demandas da nova geração de estudantes e à preocupação com instabilidades no mercado de trabalho; FGV e Insper criaram centros de empreendedorismo e facilitam a aproximação entre investidores e alunos

Túlio Kruse, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 05h00

SÃO PAULO - Menos discussões em sala de aula, mais trabalho de campo e estímulo à inovação. Os cursos de Administração estão alterando metodologias de ensino, investindo em incubadoras de startups estudantis, aproximando alunos e investidores e expandindo centros de empreendedorismo. As mudanças são, em parte, resposta às demandas de uma nova geração de estudantes – e também à preocupação com instabilidades no mercado de trabalho. Há também estímulo do Ministério da Educação (MEC), que estuda como incluir a formação empreendedora como tema transversal no ensino superior. 

“O que a gente vê nos últimos anos é uma busca por carreiras menos lineares”, diz o coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Cenn), Edgard Barki. Há cerca de dois anos, a entidade criou uma aceleradora de negócios para alunos e ex-alunos, a GVentures. Em média, há quatro ou cinco startups apoiadas todo semestre. “Temos cada vez mais alunos, pessoas se formando e querendo empreender.”

O incentivo tem feito com que mais empresas nasçam dentro das universidades. Foi o que aconteceu com a Expressão Urbana, fundada pelos administradores Renan Simões e Vinicius Georges, de 22 anos.  Eles tiveram uma ideia do negócio quando estavam no 3.º ano de Administração Pública da FGV. Sua principal preocupação, além de ter uma atividade que ajudasse a pagar as contas, era que a empresa tivesse um impacto social positivo. Resolveram empreender no próprio setor da educação.

Apoiada pelo FGV Cenn há dois anos, a Expressão Urbana é um serviço que oferece aulas ao ar livre enquanto as pessoas fazem caminhadas. O conteúdo da discussão é ajustado àquilo que o público está estudando, geralmente em escolas e pré-vestibulares que contratam os serviços da empresa. “É claro que a gente vai falar de arte urbana, mas vamos usar como ponto de partida para discutir, por exemplo, globalização, liberalismo, ou o tema que ele estiver estudando naquele momento”, diz Simões. 

“A faculdade nos deu total oportunidade e condição para elaborarmos o trabalho, compraram nossa ideia. Fizemos um trabalho de disciplina sobre a Expressão Urbana para estruturar, fazer todo o trabalho da empresa”, completa Georges.

Investidor anjo. No Insper, há cerca de um ano o Centro de Empreendedorismo (Cemp) da instituição promove encontros entre alunos interessados em fundar as próprias empresas e os “investidores anjo”, dispostos a financiar uma ideia. 

A iniciativa já reúne 110 membros – todos egressos da instituição. Nos encontros, os estudantes fazem apresentações para cativar o interesse dos mais velhos. A maior parte dos candidatos tem uma orientação prévia no Cemp, que oferece serviços de mentoria grátis para estudantes e ex-alunos da escola interessados em empreender. Há uma metodologia desenvolvida no próprio centro que explica, em linhas gerais, como criar a própria empresa.

“A gente identificou que os alunos tinham certa dificuldade de mapear qual seria o ‘próximo passo’. O empreendedorismo é muito dinâmico, muda muito e com muita frequência”, explica Andressa Melo, especialista do Cemp. 

Já o coordenador da entidade, Silvio Laban, se preocupa com a banalização do tema nos cursos de Administração. Muitos conceitos complexos, diz ele, são simplificados e reduzidos a ferramentas de gestão. “Para nós, a visão vai muito além disso. Passa pela necessidade de ser capaz de identificar oportunidades efetivas no mercado, e ser capaz de entender o quanto sua proposta é relevante e como trabalhar com isso”, afirma Laban. “Há sim aumento generalizado das questões com o empreendedorismo.”

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T[ulio Kruse, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 05h00

SÃO PAULO - Quando resolveu se matricular no curso de Administração, há quatro anos, Elaine Cabrini, de 40 anos, não tinha a menor intenção de se tornar empreendedora. Com um diploma em Pedagogia, seu objetivo era terminar a segunda graduação e se dedicar à carreira acadêmica, principalmente a lecionar. Foi isso que ela respondeu aos professores que lhe perguntaram sobre suas metas de vida, na primeira semana de aula. Os planos de Elaine, porém, mudaram rapidamente.

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“Comecei a enxergar, na possibilidade de empreender, justamente uma alternativa em relação àquele emprego tradicional”, conta. Já no primeiro ano da faculdade, em meio às aulas, ela teve uma ideia de negócio e começou a pensar em como abrir a própria startup – empresa de rápido crescimento, geralmente com base em inovação e tecnologia. 

Na Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), onde estuda, é um caso comum. No lugar dos tradicionais Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), os alunos devem propor a criação de uma startup. No caso de Elaine, a ideia é usar um aplicativo de celular para melhorar os resultados de buscas em sites de compras online. 

Como o protótipo não está completamente pronto, e ajustes devem ser feitos até a apresentação final à banca avaliadora, em outubro, ela preferiu não dar mais detalhes sobre a proposta. “Partimos de um problema que enfrentávamos como consumidores”, diz Elaine. 

Estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que o Brasil tem a segunda maior porcentagem de empreendedores estudantis entre 13 países pesquisados. 

A entidade mediu a proporção de empreendedores que fundam as startups até quatro anos após começarem a graduação. Neste quesito, o País só perde para o Canadá e está entre as quatro nações do mundo que têm mais de 10% de estudantes universitários entre os fundadores de startups.

Ensino básico. O incentivo ao empreendedorismo e à criatividade já não é exclusividade das universidades. A Fiap, que também tem a própria escola de ensino básico na Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo, também aplica metodologias similares em aulas para os ensino fundamental 2 (6.º ano ao 9.º ano) e no ensino médio. Os estudantes têm de propor projetos para resolver problemas reais. 

Como na universidade, as propostas dos adolescentes do ensino médio são avaliadas por empresários e investidores. “O que tentamos fazer com isso é não matar a criatividade das crianças e introduzir questões de lógica, atualidades, a vida digital, ética”, diz o professor da Fiap Guilherme Pereira. “Quando você tem um aluno de ensino médio e consegue empoderá-lo com ferramentas, a capacidade criativa dele compensa a visão de negócio que um aluno de graduação ou pós tem. De alguma forma, a proposta de negócio muitas vezes é tão inovadora quanto a outra.” 

Alguns professores, porém, acreditam que essa tendência ainda é tímida na educação. “Isso não está acontecendo de forma homogênea. Infelizmente percebo que a maioria dos cursos está com um modelo bem tradicional”, diz o coordenador do curso de Administração da Fiap, Cláudio Carvajal.

Entrevista - Taiguara Langrafe, Assoc. dos Cursos de Graduação em Administração

Em termos de metodologia de ensino e conteúdo, como os cursos de Administração estão mudando nos últimos anos?

Nós temos tendências importantes nos cursos de graduação de Administração que são muito ligadas ao protagonismo do estudante na sala de aula. Isso é muito ligado a tendências sociais que temos observado, seja no mercado de trabalho ou na sociedade como um todo. O desafio nosso é criar o protagonismo do estudante também em sala de aula, com aprendizagem, e mediar a relação do aluno com o professor de forma que os ambientes de aprendizagem gerem uma situação de ‘ganha-ganha’ para todos os lados.

Por que é cada vez mais comum ouvir falar na ênfase em 'empreendedorismo' e competências de 'liderança'?

A discussão sobre empreendedorismo é inerente à Administração, desde a formação clássica até a contemporânea. Dada a transformação que tem ocorrido nas organizações, com mais velocidade nas mudanças, maior competitividade, o comportamento empreendedor tem sido cobrado dos funcionários de organizações, que não necessariamente são donos do próprio negócio.

Faz sentido dar ênfase a técnicas de liderança para alunos da graduação, que ainda não iniciaram a carreira?

Acredito que sim, uma vez que esse aluno de graduação já vai começar a criar impacto na sociedade ao sair da graduação, conforme vai entrando no mercado de trabalho. Podemos falar de diversos contextos, o Brasil tem realidades múltiplas. Um aluno de graduação em uma cidade pequena, por exemplo, já está sendo imbuído de técnicas de liderança para iniciar um negócio na região dele. Vai ter um impacto positivo no local.

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T[ulio Kruse, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 05h00

SÃO PAULO - Estimulado pelo governo federal, o foco em desenvolvimento de habilidades relacionadas ao empreendedorismo está influenciando a grade curricular de novos cursos de Administração no País. 

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Essa será a preocupação central na Escola Superior de Empreendedorismo (ESE), administrada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). As aulas na instituição começam em agosto, após um processo seletivo no mês que vem.

A escola vai apostar nas chamadas “metodologias ativas” de ensino, que estimulam exercícios práticos, apresentações, solução e simulação de situações reais, em vez de aulas expositivas com o professor no centro das atenções. A intenção é incentivar o protagonismo estudantil, segundo a gerente da Unidade de Cultura Empreendedora do Sebrae em São Paulo, que é responsável pela ESE, Juliana Schneider. 

“O empreendedorismo sempre foi tratado nos curso de Administração, sempre foi abordado, mas era algo mais pontual”, diz Juliana, para quem os cursos de Administração tradicionalmente têm o ensino voltado para a formação de “executivos”, e não profissionais que estejam à frente do negócio. “Nós vamos estimular também que ele (aluno) olhe para esse processo de formação, não necessariamente só para sair de lá e montar o próprio negócio, mas que ele possa se apropriar dessa formação e tenha esse olhar inovador onde quer que esteja.”

A ESE vai oferecer 50 vagas para o bacharelado em Administração para o próximo semestre. Há também dois cursos de MBA (Master in Business Administration) e dois de extensão, com 30 vagas cada. A maior parte dos professores da escola é consultora em empreendedorismo do Sebrae e migrou para a carreira acadêmica, segundo o órgão. Aprovado pelo Ministério da Educação (MEC) para entrar em atividade em janeiro deste ano, o curso é resultado de um planejamento pedagógico que durou cinco anos. 

Para a gerente responsável pela escola, a configuração da grade curricular é também resultado de sinalizações do governo de que o empreendedorismo deve ser incentivado no ensino superior. “O MEC tem incentivado o empreendedorismo e a inovação nas matrizes curriculares das instituições. Eles também perceberam essa mudança e, por isso que todos, de certa forma, têm buscado se ajustar. O mundo é outro”, diz Juliana.

MEC. Em entrevista ao Estado, o secretário de Educação Superior do MEC, Paulo Barone, afirma que o governo tem estudado maneiras de estimular competências ligadas ao empreendedorismo em todas as áreas de ensino. O tema pode se transformar em parte de uma “diretriz transversal” para o ensino superior.

Na semana passada, segundo ele, o MEC iniciou um diálogo com o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e com a Associação Nacional dos Parques Tecnológicos(Anprotec) para discutir políticas nesse sentido. Uma das estratégias estudadas pelo secretário é “provocar o Conselho Nacional de Educação a emitir uma recomendação, que pode dirigir-se a todas as escolas”.

“Não é a ideia exigir disciplinas nem criar programas obrigatórios, porque tudo isso transforma a questão em uma artificialidade”, afirma Barone. Para ele , ainda é necessário mobilizar segmentos acadêmicos em torno da questão. 

Barone ressalta que o tema não deve ficar restrito a cursos da área de Administração e educação executiva.“É uma característica pessoal que deve ser desenvolvida de maneira a enfrentar os desafios do mundo contemporâneo”, diz. “Tem a ver com tudo, alcança muitas outras áreas.”

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