Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Fábricas de Escolas resgatam ‘Brizolões’ no Rio de Janeiro

Com investimento de R$ 1,8 bilhão, serão construídos 136 colégios; primeira escola de turno único deve ficar pronta neste semestre

Luciana Nunes Leal, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2015 | 03h00

RIO - Trinta anos após o então governador Leonel Brizola espalhar Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) pelo Estado, com prédios iguais, apelidados de Brizolões, e adotar o sistema de ensino em período integral, modelo inovador que despertou amor e ódio entre educadores e políticos, a prefeitura do Rio resgatou a construção rápida e padronizada de escolas criada pelo líder trabalhista e fixou a meta de aumentar a proporção de alunos em turno único de 20,7% para 35% até o fim de 2016.

As quatro Fábricas de Escolas do Amanhã Governador Leonel Brizola, inauguradas pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB) no ano passado, deverão construir 136 unidades – um investimento de R$ 1,8 bilhão.

A primeira escola está prevista para este semestre, no Complexo da Maré, na zona norte. A arquitetura é mais moderna, arejada e iluminada que os Brizolões, mas segue o mesmo princípio de módulos e estruturas pré-moldadas da Fábrica de Escolas de Brizola, que funcionava no centro carioca.

As novas escolas terão jornada de sete horas, das 7h30 às 14h30. O modelo, no entanto, é bem diferente dos Cieps. No formato de horário integral idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro, vice de Brizola na gestão 1983-1986, as crianças ficavam nove horas na escola, faziam cinco refeições e, como gostavam de exaltar os trabalhistas, “saíam de banho tomado”.

Para os defensores da ideia, era a grande oportunidade das crianças pobres. Para os críticos, iniciativa assistencialista que não valorizava o ensino. Encerrado o segundo governo Brizola (1991-1994), o modelo foi aos poucos abandonado.

As novas unidades são planejadas para consolidar o modelo de turno único adotado em 171 das 1.400 escolas de ensino infantil e educação fundamental do município. Além de menos tempo na escola, o turno único acabou com o modelo em que a primeira parte do dia é dedicada às aulas tradicionais, como Português, Matemática, Geografia, História e Ciências, e a segunda, o contraturno, às oficinas de esporte, artes, leitura e informática.

“O modelo de turno e contraturno põe na cabeça da criança que a parte da manhã é chata e a da tarde é boa”, disse a professora Lígia Martha Coimbra da Costa Coelho, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), coordenadora do Núcleo de Estudos Tempos, Espaços e Educação Integral.

Apoio. Lígia é entusiasta do modelo do turno único. “O programa Mais Educação, do governo federal, é indutor da educação integral, mas enfatiza o contraturno e as oficinas. A escola não tem de ser tradicional, pode ensinar de forma lúdica, mas não obrigatoriamente com oficinas. Escolas em tempo integral não são mero depósito para as crianças não fazerem besteira na rua”, afirmou.

O Ciep Oswald de Andrade, no Parque Anchieta, zona norte, é bom exemplo do modelo que será adotado nas unidades da Fábrica de Escolas. Os 800 alunos, da educação infantil ao 6.º ano, alternam aulas tradicionais com esportes, artes, informática, dança e jogos. O ponto forte é a leitura, com dez atividades diferentes e um acervo de 10 mil livros. As crianças tomam café, almoçam e lancham, mas não tomam banho.

“Tudo tem como pano de fundo o aprendizado do aluno. No tempo integral dos Cieps, aulas e oficinas não funcionavam bem. Nosso objetivo é qualificar a rede, sem a ideia de que escola pública é para pobre, mas de que é boa para todos”, disse a secretária de Educação do Rio, Helena Bomeny.

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