Expedição conta como se brinca nas tribos brasileiras

Uma equipe de pesquisadores está percorrendo tribos indígenas brasileiras com uma missão que parece divertida: conhecer seus brinquedos, jogos e brincadeiras. A expedição começou há pouco menos de um mês e já passou pela aldeia Kamaiurá no alto Xingu, e pelas tribos Bororo e Pareci, no Mato Grosso.A julgar pelos primeiros relatos, o Projeto Jogos Indígenas do Brasil começa a reunir mais do que simples curiosidades. Entre os Bororos, os pesquisadores acharam um jogo complexo, de estratégia, que tem origem provável nos Incas.?Queríamos não só conhecer e registrar coisas do universo lúdico dos índios brasileiros, mas também saber se entre eles há jogos mais sofisticados, e estamos constatando que há?, informou o chefe da expedição, Maurício Lima, num telefonema de Cuiabá, depois de deixar a aldeia Bororo. ?Percebi que há uma riqueza cultural muito maior, ligada a uma história muito maior.?Adugo é o nome do jogo que mais surpreendeu Lima e seu parceiro de pesquisa, Breno Nogueira. O ?tabuleiro? é traçado na areia e várias pedras semelhantes são colocadas em vários pontos, representando cães. Uma pedra diferente, representando uma onça, é posta num determinado ponto de partida. Um jogador movimenta a onça, com o objetivo de comer os cães (pulando casas como no jogo de Damas), enquanto o oponente movimenta os cães com o objetivo de encurralar a onça e deixá-la sem possibilidade de movimentação.Incas e chinesesJogos semelhantes ao Adugo eram praticados pelos Incas, e ainda hoje os camponeses peruanos se divertem com um puma (onça parda) contra os carneiros, segundo Lima. Também na Índia e na China há jogos assim, com ?personagens? diferentes. ?Na Índia, é tigre contra cabras, e na China, senhor feudal contra camponeses.? Até hoje, não havia registro do Adugo ou qualquer jogo com este grau de complexidade entre indígenas brasileiros.O repertório de brincadeiras e jogos e o ?acervo? de brinquedos que os pesquisadores estão catalogando incluem desde coisas conhecidas dos não-indígenas, como piões (feitos com fruta verde e vareta), jogo da velha (peixe e gente, em vez de ?xis? e ?bolinha?) e perna de pau até uma engenhosa ?arminha? de pressão feita de bambu, pelos Kamaiurás.Na tribo do Xingu, aliás, Lima e Nogueira registraram brincadeiras curiosas, como a da Mandioca ? uma pilha de homens deitados vai aumentando até que o primeiro de baixo não suporte mais e derrube todos no chão ? e a ?Onde está o fogo??, em que cada participante tem sua vez de, coberto de areia, adivinhar em que direção está o sol naquele momento.Imagens e relatosA equipe da expedição é composta pelos dois pesquisadores e mais quatro profissionais de vídeo e fotografia, que vêm registrando em imagens as informações coletadas. O Projeto Jogos Indígenas do Brasil deve ser concluído em abril, e até lá a expedição deve passar pelas aldeias Terena (MS), Kanela (MA), Guarani (SP) e Maxakali (MG). Segundo Lima, o projeto está orçado em cerca de R$ 500 mil.No fim, os organizadores pretendem criar réplicas de jogos para enviar a museus do Brasil e de outros países, produzir um documentário para TV e estimular pesquisas mais aprofundadas sobre os dados coletados. Um dos jogos será escolhido para ser reproduzido em 20 mil kits a serem distribuídos em escolas públicas, conforme Lima.Relatos dos pesquisadores e várias imagens estão sendo transmitidos via fone e internet para o Portal Estadão, que criou um site especial para acompanhar a expedição. Um hot site da própria expedição foi criado pela Bosch, que patrocina o projeto com benefícios da Lei de Incentivo à Cultura. leia também Futebol atrai as crianças, mas adultos ensinam seus jogos clique para acompanhar a expedição e conhecer detalhes dos jogos, brinquedos e brincadeiras indígenas

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