'Exame deve ter diálogo com o mundo real'

Para o diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, é preciso que a avaliação seja inovadora

Entrevista com

Mozart Neves Ramos

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

10 Novembro 2014 | 02h01

Qual é o papel do Enem na construção de um currículo para o ensino básico?

Na medida em que o Enem vai universalizando o processo de avaliação, ele pode ser um dos parâmetros do currículo nacional. Do ponto de vista pedagógico, a avaliação precisa ter maior atenção. Deve-se ampliar o número de questões para ter maior banco de dados, por exemplo. Acredito que será um processo natural.

Este novo modelo de prova exigirá que o ensino médio adapte as disciplinas (química, física...) a uma forma interdisciplinar?

Na prática, as disciplinas precisam continuar existindo e não vão deixar de ser importantes. Mas o conteúdo deverá ser trabalhado, sim, de maneira mais interdisciplinar. Este conteúdo, hoje, é dados muitas vezes sem diálogo maior com a realidade do jovem. Ele quer uma escola que dialogue com seu mundo. Não cabe mais a preocupação com "decoreba".

Professores têm dito que o Enem está cada vez mais parecido com o vestibular tradicional. Em que isto implica?

Não podemos correr o risco de simplesmente mudar o nome de "vestibular" para "Enem". É preciso que a avaliação seja inovadora. Deve-se ter mais de um Enem por ano, como já é feito nos EUA. É fundamental a ampliação do banco de dados, testando novas questões com a visão interdisciplinar. A própria escola deve servir como insumo para isto. Se a escola também não mudar, o processo vai ser difícil. A universidade também precisa mudar, para atender à expectativa do jovem que virá do ensino médio com esta nova mentalidade. O Enem é a ponte que deve existir entre ensino médio e universidade.

Pode haver conflitos entre os múltiplos objetivos do Enem, como certificação do ensino médio, avaliação do básico e vestibular?

Todos estes fatores devem dialogar, e não estar fragmentados. O que se coloca é que o ensino médio precisa mudar junto. Apesar de o Enem estar sinalizando para um caminho, não conseguimos mudar a escola. Pior, a formação do professor lá na universidade, que é quem vai dar as disciplinas e preparar o aluno para o Enem, não mudou.

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