Evitar gravidez na adolescência é 'projeto para o Brasil'

A professora Narcisa Mendes Silveira acredita que outros estados além de SP precisam do projeto Vale Sonhar

José Maria Tomazela, da Agência Estado,

21 de julho de 2008 | 21h30

Educadora da rede estadual de ensino há 20 anos e uma das principais gestoras do projeto Vale Sonhar no Vale do Ribeira, a professora Narcisa Mendes Silveira, ficou "felicíssima" com a decisão da Secretaria Estadual de Educação, de estender o programa para todo o Estado de São Paulo. "Acho até mais, que esse é um projeto para todo o Brasil", disse. "Os outros Estados também precisam."  Veja também: Contra a gravidez precoce, sonhos e planos Escolas de SP terão oficinas contra gravidez na adolescência Narcisa coordena o projeto desde 2004 na Escola Estadual Antonio Duarte de Castro, em Jacupiranga, no Vale do Ribeira, a 205 km de São Paulo. A escola conseguiu uma redução de mais de 90% no número de adolescentes grávidas. "No ano passado e neste, não tivemos nenhum caso", disse. Ela conta que, antes, quando uma aluna abandonava as aulas, havia grande chance de que estivesse grávida. "Íamos investigar e a adolescente dizia que não podia mais ir à escola por causa da gravidez."  Quando o projeto foi anunciado, Narcisa ficou um pouco desconfiada. "Pensei que era só mais um projeto, mas arregaçamos as mangas e iniciamos o trabalho." Logo ela se convenceu de que a proposta tinha tudo para dar certo. "Até hoje não trabalhei em projeto com adolescente que tivesse atraído tanta participação." A região é pobre e enfrenta problemas com preconceitos religiosos. Ela conta que, no início, alguns pais ficaram desconfiados. O projeto envolvia orientação sobre formas de evitar a gravidez, inclusive sobre o uso de contraceptivos. "Nós os convidamos para participar das oficinas e acabou a resistência."  O projeto foi encampado pelo programa Escola de Pais, e levado para a comunidade. "Chegamos a ter 1.100 crianças envolvidas, inclusive na zona rural." As oficinas passaram a ser concorridas. Nelas, meninos e meninas, de 13 e 14 anos, eram convidados a projetar seus sonhos, o trabalho, a família, a faculdade. "Numa região de poucas perspectivas, só isso já os ajudava a melhorar a auto-estima." Depois, eles tinham de simular a gravidez e apresentar as conseqüências disso para a vida deles. "Eles elaboravam desenhos e cartazes, nos quais mostravam que teriam de abrir mão de muita coisa em razão da chegada do bebê", conta Narcisa. Um dos garotos desenhou objetos de consumo, como tênis de marca e garrafa de coca-cola, e assinalou com um grande xis para mostrar que, se fosse pai adolescente, até disso teria de abrir mão. Em outra oficina, os alunos eram levados a conhecer o próprio corpo. "Impressionante como havia desconhecimento do sexo e de como ocorre a gravidez", lembra a professora.  As questões de saúde e higiene também foram abordadas. O envolvimento foi tão grande que até o índice de freqüência nas aulas melhorou. Os casos de indisciplina também caíram. "Interessante como, motivado, o jovem reage de forma positiva e até o comportamento melhora."  A dirigente regional de Ensino de Registro, Regina Alice Nakao, disse que o projeto, agora, faz parte do currículo de matérias como ciências e biologia das escolas da região. "Foi uma experiência tão boa que não podíamos parar com esse trabalho", justificou. O envolvimento dos alunos, auxiliado pelo uso do psicodrama nas oficinas, resultou em benefício para o aproveitamento escolar. "É verdade que tínhamos índices alarmantes de gravidez na adolescência, mas os benefícios são mais amplos e contribuíram até para diminuir a evasão escolar." O estudante Hugo Diego Giotto, de 15 anos, aluno da 1ª série do ensino médio da Escola Estadual Antonio Duarte de Castro, de Jacupiranga, disse que sua vida mudou depois de participar do projeto. Ele disse que agora se sente à vontade para falar sobre a sexualidade com os pais e colegas. "Antes, eu morria de vergonha." Giotto mora perto da escola e, quando foi convidado a participar do programa, no ano passado, já tinha observado as oficinas. "Eu olhava assustado, não achava que teria coragem de participar." Ele entrou e gostou.  Quando viajou com um grupo de alunos para mostrar o projeto numa escola de Itariri, cidade próxima, conta que nem se reconheceu. "Sempre fui muito tímido, mas estava lá com os outros." Hugo foi um dos "não-grávidos", alunos que simularam sua vida sem a gravidez precoce. "De repente, sexo e gravidez era um assunto que estava entre nós e eu passei a falar abertamente com minhas colegas." A relação com os pais também mudou. Ele sabia que era filho adotivo, mas não tinha coragem de tocar no assunto com ninguém. "O projeto me ajudou a considerar isso como uma coisa importante da minha vida."  Mais importante, ainda, foi ter definido que vai lutar pela realização de um sonho. De família humilde - o pai adotivo trabalha com sucata e reciclagem - ele sempre quis ser médico. "Desde pequeno eu sonhava com isso, mas morria de vergonha de tocar no assunto com alguém. Hoje, sei que se me esforçar, eu posso realizar meu sonho."

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