DIVULGAÇÃO/ NAMLE
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EUA enxergam educação midiática com nitidez e complexidade

Ler, analisar e produzir comunicação de qualidade não é um tema obscuro nos Estados Unidos como tem sido tratado pelo governo brasileiro

Alexandre Le Voci Sayad, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2015 | 16h59

FILADÉLFIA - A nitidez característica do olhar norte-americano para questões políticas e sociais, em que cada ponto tem um lugar definido,  se explicitou num importante encontro na Filadélfia (EUA). Na ocasião, profissionais do National Association on Media Literacy Education (NAMLE) se integraram a um grupo internacional da UNESCO para traçar parâmetros para uma alfabetização midiática.

Ler, analisar e produzir comunicação de qualidade não é um tema obscuro nos Estados Unidos como tem sido tratado pelo governo brasileiro quando, por exemplo, o assunto são as políticas de comunicação. Pelo contrário, a NAMLE reúne de roteiristas de programas de entretenimento do tipo “blockbuster”, mas que de alguma forma trabalham com questões da comunicação, a educadores que desenvolvem trabalhos em escolas com estudantes e produção de mídia. 

O importante é que, nessa mistura de tendências e trabalhos, o tema da alfabetização da mídia se prova algo complexo e não maniqueísta.

A ligeireza da maioria dos comentários sobre a grande mídia nas redes sociais tem nos levado, quase que automaticamente, a tratar o tema de forma simplória – algo como “a Veja é do diabo, e a Carta Capital é divina”. Destruir foi sempre mais fácil que construir – provam as duas grandes guerras, que também se estenderam no campo cultural.

Nas publicações da NAMLE, e no evento na Filadélfia, pesquisas sobre o tema em países como a Finlândia, Índia e Japão se intercalaram aos cases e estudos norte-americanos no campo da educação e comunicação - estes muito avançados e ao mesmo tempo próximos da sociedade. A representação das mulheres negras nos games, por exemplo, levou uma agência a co-criar com usuários de jogos os seus heróis; assim, uma representação legítima se deu na caracterização dos games criados a partir de então.

Temo que, se a análise de comunicação (e uma educação midiática) continuar a se resumir às críticas rasteiras nas quais nos embaraçamos diariamente, vamos acabar por assumir o papel de algozes levianos e prematuros. E perder o melhor dessa prática. 

Não implica nenhum desafio complexo, por exemplo, identificar que o Jornal Nacional manipulou o debate à presidência nos anos 90. Por outro lado, o Nobel de literatura Günter Grass recebeu míseras duas linhas nos jornais no dia de sua morte - Eduardo Galeano morreu no mesmo dia, e a mídia acabou por transformar Grass num escritor menor. Há amarras culturais e políticas que devem ser pluralizadas – esse sim é um tema da educação para a mídia. 

O  tema, que abrange políticas de educação, cultural, comunicação e tecnologia, deve ser tratado com mais transparência, e menos espinhos, pelos gestores no Brasil.

* ALEXANDRE LE VOCI SAYAD É JORNALISTA E EDUCADOR. É FUNDADOR DO MEDIA EDUCATION LAB (MEL)  E MEMBRO-DIRIGENTE DA ALIANÇA GLOBAL DA UNESCO PARA A ALFABETIZAÇÃO PARA A MÍDIA. É AUTOR DO LIVRO IDADE MÍDIA: A COMUNICAÇÃO REINVENTADA NA ESCOLA, PUBLICADO PELA EDITORA ALEPH.

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