'Eu me sinto excluído', diz aluno judeu que não fará o Enem

STF negou pedido de estudantes para fazer prova em outro dia que não o sábado, dedicado ao descanso e a rezas

Carolina Stanisci, Especial para O Estado de S. Paulo

24 Novembro 2009 | 20h57

 O Supremo Tribunal Federal (STF) deu a palavra final: estudantes do ensino médio judeus não poderão fazer a prova do Enem em data diferente da estipulada pelo Ministério da Educação. A decisão, tomada na segunda-feira, frustrou 22 alunos do Iavne, escola judaica dos Jardins, São Paulo. "Eu me sinto excluído", diz Alex Kignel, de 17 anos, que não fará a prova. Kignel e sua família respeitam os preceitos religiosos relativos ao shabat, dia de descanso e reza. Isso os impede, por exemplo, de andar de carro, escrever ou andar de elevador aos sábados."É legal, você caminha com sua família e vê a cidade toda se mexendo e pensa: ‘Esse dia é para Deus."O MEC havia permitido aos alunos judeus fazer o primeiro exame do Enem no sábado, 5 de dezembro, depois do pôr-do-sol, quando acaba o shabat. Para os demais candidatos, a prova será feita das 13 horas às 18h30. No domingo, o exame começa às 13 horas e vai até as 18h30. Para o diretor da Iavne, Osvaldo Piffer, a proposta do MEC não foi suficiente. "Todas os vestibulares no Brasil acontecem no domingo. Se eles fizerem a prova no sábado, terão que ficar confinados por seis, sete horas. Vão chegar a pé e só começarão o exame às 20 horas, por causa do horário de verão. Os estudantes ficarão lá até quase meia-noite, para voltar no dia seguinte às 13 horas. Consideramos isso discriminatório."Os alunos recorrem à Justiça, com o apoio da Confederação Israelita do Brasil e da Federação Israelita do Estado de São Paulo. Na primeira instância, o pedido não foi acatado. O Iavne recorreu, e o Tribunal Regional Federal concordou com os argumentos de que os alunos judeus teriam de fazer a prova em outro dia. "Agora, perdemos. Mas não é definitivo. Considero que é mais uma batalha em defesa da democracia", afirma o diretor institucional da Federação Israelita, Alberto Milkewitz. Responsável por todas as escolas judaicas do Estado, Milkewitz repudia a ideia de que se trata de reivindicar um privilégio. "O Estado laico é evolutivo, e a democracia não é impor a todos as mesmas coisas. A minoria não tem que se dobrar à maioria. Democracia não significa homogeneizar."Simone Janovich, de 17 anos, estudante no 3.º ano do ensino médio da escola Renascença, em Higienópolis, também não fará a prova. "Nada é por acaso. Se for para eu entrar na faculdade, entro sem o Enem", conta. Simone é raridade em sua escola – a maioria dos colegas vai prestar o exame.

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