Etec seleciona aluno por meio de vestibulinho

Carlos Lordelo, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2010 | 00h50

Mérito. Henrique elogia Etec, mas destaca falta de estrutura

 

Na escola onde estuda Henrique Bueno Alvarenga Barbosa, de 16 anos, os alunos podem "matar" aula - "mas eles são conscientes do quanto isso pesa no futuro". É essa autonomia que o jovem destaca como a característica mais importante da Escola Técnica Estadual (Etec) São Paulo, no centro da capital. Pelas notas do Enem, a unidade é uma das melhores da rede pública de ensino no País.

 

"Aqui não toca sinal, mas os professores fazem chamada. Você precisa ter a consciência de ir para a sala", explica Henrique, do 3º ano "Delta" do ensino médio - ao todo, são cinco turmas, com 40 alunos, em média. "Os alunos são selecionados. A maioria vem de escolas particulares e, aqui, crescem muito." Para estudar nas Etecs, os estudantes precisam ser aprovados em processos seletivos anuais.

 

Henrique passou no "vestibulinho" da unidade São Paulo para entrar no 1º ano - a unidade só oferece ensino médio. Antes, ele morava e estudava em Barueri, na região metropolitana, e hoje vive na zona norte da capital. Como a maioria de seus colegas, chega à escola de transporte público. "São raros os alunos que vêm de carro com os pais." Segundo ele, trata-se de mais uma "paradigma" quebrado pela Etec.

 

Vestibulando de Direito, Henrique fala com facilidade sobre as características positivas de estudar na Etec, mas sempre destacando o papel do aluno na escola. "A relação com os professores é muito boa. Eles se formaram nas melhores faculdades, mas os alunos é que são os responsáveis pelo aprendizado", repete. "O aluno desenvolve espírito de liderança, habilidade no discurso e raciocínio lógico. Aqui não tem essa de decorar: o aluno encontra seu próprio caminho."

 

Embora considere a escola "muito boa", o estudante defende a ideia de que os aprovados nos vestibulares não tiveram necessariamente a melhor formação. "Passa quem está mais bem treinado", comenta. Para atacar o "problema", Henrique planeja fazer cursinho no segundo semestre.

 

Além disso, ele considera baixa a carga horária nas Etecs, para quem quer ser aprovado nos vestibulares mais concorridos - as aulas vão das 7h30 ao meio-dia. "Deveríamos ter a sexta aula, mas essa é uma regra do Centro Paula Souza (autarquia ligada ao governo estadual que administra as 186 Etecs de São Paulo)."

 

Esta não é a única queixa de Henrique em relação à escola. "Aqui foi abandonado pelo Estado", diz. "O laboratório de informática é deficitário, o de eletrônica, muito antigo. Falta luz e água com frequência e a biblioteca tem muitos livros, mas pouco espaço físico", afirma.

 

Segundo ele, as aulas de educação física são "complicadas". "Meninas jogam handebol. Meninos, futebol. Essas seriam as nossas atividades extracurriculares", conta. "E eu gosto de me exercitar. Faço musculação e só não vou para a academia em véspera de provas."

 

Henrique fazia inglês até o ano passado, mas deu uma pausa no curso para se preparar melhor para os vestibulares da Fuvest e do Mackenzie. Em suas horas livres, vai ao cinema, teatro e gosta de ler. Às sextas-feiras, costuma sair com os colegas da escola logo depois da aula para passear no centro ou pela região da Avenida Paulista. "Não somos de ficar em casa jogando videogame."

 

FALA, MÃE!

Iris Bueno de Almeida, de 47 anos, gerente administrativa

 

"O Henrique foi para a Etec de São Paulo porque mudamos de Barueri para a capital quando ele ia começar o ensino médio. Ele já tinha decidido prestar vestibular para Direito e, por isso, teria de estudar em cursinhos como Anglo ou Etapa - onde ele tentou bolsa de estudos, mas não conseguiu - ou numa escola como a Etec. Henrique foi bem no vestibulinho e foi aprovado.

 

Sei que as escolas técnicas enfatizam as matérias de exatas, já que a maioria dos alunos presta vestibular nas próprias Fatecs (Faculdades de Tecnologia). Mas o corpo docente das matérias de humanas também é muito bom. Eu já conhecia a qualidade do ensino das Etecs e tinha a referência da filha de uma colega de trabalho, que estudava lá na São Paulo.

 

Acho positiva essa conduta de dar autonomia ao aluno, porque acaba criando condições para ele trilhar seu caminho com mais responsabilidade. Essa visão de ensino me surpreendeu. Por outro lado, os cursinhos ensinam o vestibulando a estudar. Sinto que a Etec é deficiente nesse aspecto porque não cobra muito do aluno e, às vezes, ele fica meio perdido sobre como estudar.

 

Por causa disso, faço questão de acompanhar o Henrique de perto e todo bimestre vou até a escola pegar seu boletim e conversar com os professores."

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