Estudo avalia impacto da imigração italiana no pós-guerra

A historiadora Luciana Facchinetti é filha de Giovanna e Giuseppe, italianos que buscaram no Brasil um lugar onde pudessem trabalhar e recomeçar a vida após os horrores da Segunda Guerra. Instigada pela vida dos pais e por um trabalho no Memorial do Imigrante, em São Paulo, ela recorreu a 24 mil fichas produzidas pelo Comitê Intergovernamental para as Migrações Européias para reconstituir a história de alguns personagens e avaliar a influência desses imigrantes no desenvolvimento da indústria brasileira.Este é o objeto de sua dissertação de mestrado junto ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, defendida em fevereiro. "Eles cruzaram o Atlântico essencialmente por causa do país destruído, mas também pelo desmoronamento de um sonho. Criados no fascismo, sob a promessa de Benito Mussolini de um país unido grande e forte, foram pagos com moeda falsa. Perderam a infância e parte da adolescência, passaram por muita fome", conta Luciana.Retomada da imigraçãoO Memorial do Imigrante registra a entrada de sete italianos em 1870. Até 1913, o total exato é de 1.291.280, um mar de gente que motivou incontáveis estudos sobre sua contribuição à agricultura, comércio e indústria, principalmente no Estado de São Paulo, e sobretudo para nossa formação cultural. Nas décadas seqüentes o fluxo diminui acentuadamente e é quase nulo nos anos da guerra, havendo então a retomada de certa intensidade por volta de 1950."Queria entender como esses imigrantes do pós-guerra, apesar de terem vindo em menor quantidade, influíram na economia brasileira", explica a historiadora. O interesse se justifica, pois havia uma diferença importante em relação aos patrícios da virada do século: a especialização."Se os que chegaram antes eram analfabetos em 90%, os que vieram depois eram alfabetizados e quase todos sustentando alguma qualificação", acrescenta. A qualificação era um critério importante para aprovação do governo brasileiro, que incentivava a indústria e não se interessava em receber novas levas de mão-de-obra barata.OfíciosVieram para o Brasil ferramenteiros, pedreiros, carpinteiros, mecânicos, marceneiros, padeiros, motoristas, barbeiros. Não possuíam certificados, mas conheciam o ofício. Também vieram diplomados como engenheiros, técnicos altamente especializados e professores."Um professor com importantes publicações na área da aeronáutica, que por colaborar com o regime fascista ficou sem espaço na Universidade de Roma, foi autorizado pelo governo a trabalhar na Embraer. Vale salientar que engenheiros e especialistas italianos tiveram uma participação importante na construção do primeiro avião brasileiro, o Bandeirante", informa Luciana.Os casos de sucesso, contudo, não refletem todo o peso desses imigrantes na economia. "Meu pai aprendeu mecânica com meu avô, um técnico em teleférico, e marcenaria com um tio dele. Trabalhou na Matarazzo para garantir o sustento da família, até montar uma marcenaria. Esse pessoal não suportava a idéia de ficar sob ordens de patrões. Noventa por cento deles criaram micros, médias e grandes empresas, de padaria a indústria metalúrgica. Eles queriam realmente fazer a América. E Brasil, Venezuela e Argentina, afinal de contas, também são América.

Agencia Estado,

24 de julho de 2003 | 12h56

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