Estudar no meio da floresta

Com a maior biodiversidade do planeta e um potencial para pesquisa inexplorado, a Amazônia é um campo magnético para jovens pesquisadores

Carolina Stanisci, Especial para o Estadão.edu

25 Janeiro 2010 | 23h30

Passar longas horas em barcos, levar incontáveis picadas de insetos e correr o risco de encontrar uma onça no meio do caminho são rotina para os pesquisadores na Amazônia. Na região com a maior biodiversidade do planeta, o potencial inexplorado para estudos serve de estímulo para jovens de todo o País.   Espalhados por poucas instituições, os estudantes, em especial da área de Biológicas, se fascinam com o ambiente. "Desde que cheguei tive certeza de que não iria voltar ao Sudeste", conta João Victor Rodrigues, de 25 anos. Nascido em Itaperuna, interior do Rio, ele queria migrar para o Norte desde a graduação. Em agosto de 2006, mês seguinte à sua formatura em Biologia na Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos (RJ), mudou para Manaus.   "Não tinha nem vaga para mestrado. Fiquei fazendo um estágio com meu futuro orientador no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia). Abriu a vaga, passei", lembra.   Veja mais: A língua dos Arara   Hoje, Rodrigues cursa doutorado em Ciências de Florestas Tropicais. Parece incrível, mas há apenas uma outra pós-graduação em botânica reconhecida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) na região Norte, que é uma parceira da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) com o Museu Paraense Emilio Goeldi, em Belém.   A carência de programas e cursos de pós no Norte é gritante. Apenas 174 cursos de 13 instituições são recomendados pela Capes. O número é quase 15 vezes menor que no Sudeste, onde 2.285 cursos são tidos como de qualidade satisfatória pela agência de fomento à pesquisa.   "O governo tem implantado políticas específicas para diminuir desigualdades regionais, mas o processo é lento", justifica José Oswaldo Siqueira, diretor de programas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).   Uma dessas iniciativas governamentais foi a criação da Universidade Federal da Integração Amazônica (Uniam), a partir da fusão dos câmpus da Federal do Pará e da Ufra, em Santarém (PA). Além de absorver cursos já existentes, como o de Direito, a Uniam terá novidades na graduação, como Ciências da Terra, e na pós, como Botânica Econômica, espalhados por cinco institutos temáticos.   "A ideia da Uniam é promover uma forte integração amazônica", diz o reitor em exercício da universidade, José Seixas Lourenço. Enquanto isso não acontece, a falta de um ambiente acadêmico estruturado na região não é obstáculo para pesquisadores como Rodrigues, que estuda no doutorado a vegetação de campina, típica da região. "Investigo a capacidade dessa vegetação diante das mudanças climáticas", explica o biólogo, que já foi à Serra do Cachimbo, no Pará, e prepara visitas a dois parques, o Nacional do Viruá (RR), e o Estadual da Serra do Aracá (AM).   Nas viagens, Rodrigues carrega equipamentos pesados, como um medidor de trocas gasosas e outro de fluorescência da clorofila, que avalia se as plantas estão estressadas por excesso de luminosidade. "Sabemos que a logística aqui é complicada. É caro fazer excursões. Mas para quem está começando os estudos é interessante. Podemos desenvolver linhas de pesquisa ainda incipientes", diz o biólogo, que no mestrado contou com uma bolsa da Capes e, no doutorado, do CNPq.   A boa notícia é que as agências de fomento à pesquisa registraram um aumento do número de bolsas na região Norte. Entre 2004 e 2008, o número de bolsas do CNPq para mestrado e doutorado subiu de 249 para 591. Na Capes, no mesmo período e modalidades, o número quase dobrou: de 865 para 1.694.   Da região "Chegamos à conclusão de que a maior chance de (o pesquisador) ficar lá é já sendo da região", diz Jorge Guimarães, presidente da Capes. Lorena Loureiro Coelho, de 27 anos, nascida em Santarém (PA), é um bom exemplo da tese de Guimarães. Ela estuda no mestrado do Inpa o Anopheles, gênero do mosquito transmissor da malária, no entorno da hidrelétrica de Curuá-Una, em sua cidade.   "A região é propícia para grandes endemias. Somente conhecendo as várias espécies é que podemos estabelecer estratégias", diz ela, que já encontrou mais de 15 espécies do mosquito. "Não dá para falar em erradicação, mas dá para controlar a doença."   A bióloga Osvanda Silva de Moura, de 29 anos, também é da região. Ela nasceu em Guajará-Mirim, em Rondônia, e hoje faz mestrado no programa de Botânica Tropical do Goeldi estudando musgos – plantas que ajudam na manutenção do microclima da floresta.   Com bolsa do CNPq, a bióloga visitou a ilha do Combu, distante meia hora da capital paraense. "Lá não havia sido coletado esse tipo de planta." Sua orientadora, Anna Luiza Ilkiu-Borges, de 37 anos, paranaense que chegou criança a Belém, resume as dificuldades de estudar na região: "A área é enorme, faltam profissionais e é difícil abrir vaga em concursos."   Voadeira no Xingu Com uma vida acadêmica intensa em diversas cidades do mundo – formou-se em Biologia na Universidade Radford (EUA), tornou-se mestre pela Universidade Federal do Rio Grande e doutor pela Universidade de Plymouth (Grã Bretanha) – James Lee, de 38, há dois anos trocou o pós-doutorado no câmpus da Unesp em São Vicente, no litoral de São Paulo, pela Amazônia.   "Em outras regiões as pesquisas básicas já foram feitas. Aqui, estão começando", conta. Seu projeto mais importante como professor visitante da Federal do Pará é catalogar peixes ornamentais no rio Xingu. "Muitas espécies que só existem aqui estão sem descrição." Lee vai de avião até Altamira (PA), de onde embarca numa voadeira rumo ao rio.   O trajeto leva três, quatro horas. Ao chegar ao local de coleta, Lee e sua equipe passam o dia em busca de espécies como o acari-zebra. À noite, o grupo dorme em redes armadas em barracas, e o biólogo volta a Belém do Pará cheio de picadas de mosquitos. "Eles não ligam para o repelente", brinca. "Para quem é sério e quer a nova fronteira da pesquisa, o futuro é aqui."   O oceanógrafo paraense Aderson Gregório, de 27 anos, também enfrenta desafios para desenvolver suas pesquisas na Amazônia. Doutorando pela Federal do Rio Grande do Sul, seu trabalho de campo é em Belém, onde investiga a formação geológica da baía do Guajará. Ele conta com a boa vontade de barqueiros, que passam horas com ele no mar.   "Eu deveria ficar 25 horas, que é o tempo do ciclo completo da maré. Mas é perigoso, tem ataque de ladrões de madrugada", diz o oceanógrafo. "Todo o trabalho de base é complicado. Tem que arriscar, ir a um lugar onde ninguém pesquisou. Apesar disso, tudo aqui é romântico e muito promissor."

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