Amanda Perobelli/REUTERS
Amanda Perobelli/REUTERS

Estudantes relatam desconforto em primeiro dia de Enem: ‘Gente tossindo ao lado, difícil concentrar’

Salas com capacidade máxima e falta de aferição estão entre queixas; na Bahia, somente na rede estadual, são 67 mil inscritos

Marcio Dolzan, Tailane Muniz e Danielle Ferreira, Especiais para o Estadão

17 de janeiro de 2021 | 21h09

Nem mesmo o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que abordou o “estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”, neste domingo, 17, concentrou tanto a atenção dos candidatos, em Salvador, como os cuidados para evitar uma eventual contaminação pela covid-19. Assim foi o primeiro dia de aplicação das provas do exame, que deve ter a segunda parte realizada no próximo domingo, 24.

O conteúdo da prova, segundo a bancária Marta Seixas, 45 anos, não chegou a preocupar. “Eu achei o tema da redação bem razoável e atual. Temos visto muito o discurso do capacitismo tomar a internet nos últimos tempos, gostei de falar sobre isso. Agora, fiquei muito desconcentrada em parte do tempo porque tinha uma pessoa que tossia em tempos espaçados e isso me causou desconforto”, explicou Marta, que tenta alcançar média para ingressar no curso de Psicologia.

Ainda segundo ela, a sala ter sido totalmente ocupada se tornou uma preocupação a mais, mesmo com todos de máscara. “É complicado porque não se sabe se é covid-19, ou é uma outra coisa. Mas eu consegui fazer uma boa prova, creio eu, me preparei muito”, avalia a bancária, que deixou o local por volta das 18h.

Álcool em gel nas mãos de 20 em 20 minutos foi a saída que a estudante Paula Brito, 19, encontrou para se sentir mais segura. Optou por não se alimentar durante as cinco horas, em que permaneceu em sala, também como estratégia de prevenção, afirma. “A prova tava fácil, difícil foi aguentar cinco horas com fome, porque preferi não comer ali dentro. Aliás, evitava até me tocar”, contou, enquanto aguardava uma amiga terminar o exame. Segundo a jovem, na sala em que fez a prova não havia alternância entre as cadeiras. “Mas até que não era muito grande, então não me incomodei muito com isso. Só estava mesmo com medo de que o ambiente estivesse contaminado e nem penso em mim, mas em minha avó que mora em minha casa e é super do grupo de risco porque é diabética e hipertensa. Seria um terror”.

Situação parecida aconteceu com o auxiliar de cartório Rodrigo Santos, 24. Ele relatou que fez a prova em uma sala completamente cheia, sem ventilação ou aferição de temperatura. “A experiência, para mim, foi terrível. Nem sei se venho de novo o próximo domingo. Um descaso, sobretudo nessa situação de pandemia. Antes, cancelassem até todos estarmos vacinados”, comentou ele, que relatou pessoas tossindo durante a prova.

Já as amigas Sara Guedes, 19, e Franciele Silva, 16, comentaram que embora o ambiente fizesse muito calor, houve muita abstenção, o que fez com que a sala não lotasse. “Eles distribuíram o material em toda sala, mas muita gente não apareceu. Tirando a máscara, o que me incomodou foi o calor, porque até a prova estava fácil”, reforçaram as amigas, que fizeram o exame pela primeira vez.

No Rio, sensação térmica de 45°C tem provas do Enem com ar-condicionado

O calor de mais de 37°C, com sensação térmica ultrapassando os 45°C em alguns pontos do Rio, foi mais forte do que todos os protocolos de segurança para se evitar a propagação do novo coronavírus. No primeiro dia de provas do Enem, candidatos que foram fazer o exame na PUC-Rio tiveram o "benefício" do sistema de ar-condicionado, inclusive com as janelas fechadas. "Quando entrei na sala o ar-condicionado estava funcionando, com as janelas abertas. Um pouco antes da prova perguntaram como a gente preferia fazer, se com o ar-condicionado ligado ou não. Chegamos a um consenso de fazer a prova com as janelas fechadas e o ar ligado", relatou o estudante Guilherme Lorenzatto, de 17 anos. 

O jovem contou ainda que sua sala não estava lotada. "Teve diversos ausentes, e talvez por isso ficaram vários lugares vagos. Em geral havia um lugar vago à frente e do lado, mas logo atrás de mim tinha outro candidato", narrou.

Maria Cristina Magalhães Pinto, de 19, deu relato semelhante. "Na minha sala fizemos a prova com o ar-condicionado ligado", contou. "Mas havia muitos espaços vazios, em média duas carteiras entre os candidatos." Teve ar-condicionado e janelas cerradas também na sala de André de Paula de Oliveira, 18 anos. Ele admitiu que isso ajudou a enfrentar o calor, mas lamentou a prova em meio à pandemia sobretudo pela necessidade de se usar máscaras.

"É muito difícil fazer prova de máscara. Fica pinicando, sua, e você não tem como tirar. Até cheguei a pensar em não vir fazer a prova, mas como tinha pago a inscrição acabei vindo", afirmou. À exceção do ar-condicionado, os estudantes contaram que os protocolos sanitários foram respeitados. "Tinha álcool em gel e todo mundo usou máscara. Só tiravam no momento em que comiam algo", pontuou Lorenzatto.

'Durante a pandemia já era de se esperar que muitos não viessem'

Em Belém, a falta de distanciamento preocupou a candidata Luziane Santos, de 32 anos. Ela chegou por volta de meio-dia na Escola Estadual Ulisses Guimarães, também no centro da capital paraense. Não havia “grupinhos” e o acesso à sala foi bastante tranquilo, mas dentro do espaço, as cadeiras estavam muito próximas umas das outras. “Acredito que muita gente faltou e as cadeiras poderiam ter ficado com um distanciamento maior”, observa.

Rafael Sousa, de 26 anos, também percebeu que muitos estudantes faltaram. Junto com ele, cerca de outros dez candidatos participaram do exame na mesma sala do Deodoro de Mendonça. Ele não viu problema nos protocolos de segurança, mas a baixa adesão ao Enem, segundo ele, foi evidente, principalmente de alunos da rede pública. “Sempre existiu um abismo entre o aluno da escola pública e da privada. Eu mesmo estudei com muita dificuldade o conteúdo. Durante a pandemia já era de se esperar que muitos não viessem. Vários amigos meus desistiram”, lamenta.

 

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