Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

PM avança sobre estudantes e dispersa protesto com bombas

Ato contra reorganização escolar de Alckmin começou em frente à Cidade Universitária, se uniu a outra manifestação e percorreu Avenida Paulista, Rua da Consolação e Praça da República

Luiz Fernando Toledo, Juliana Diógenes, Felipe Resk e Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2015 | 09h59

Atualizado às 23h30

SÃO PAULO - A polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral para dispersar os estudantes que protestaram, na manhã desta sexta-feira, 4, na Avenida Paulista e na Rua da Consolação contra a reorganização da rede estadual de ensino, promovida pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB). 

Enquanto a polícia lançava bombas e avançava sobre os estudantes, passageiros de ônibus que passavam ao lado gritavam para os policiais "que vergonha" e "joguem bombas nos filhos de vocês". A entrada da Estação Paulista, ao lado do Cine Belas Artes, ficou fechada por 5 minutos, segundo a Via Quatro, que administração a linha amarela do Metrô.

Após percorrerem um trecho da Paulista, eles desceram a Consolação e seguiram para a Praça da República, onde comerciantes baixaram as portas de suas lojas. A praça ficou interditada e os ônibus passaram a desviar o trajeto.

O servidor público Luiz Fernando Sampaio, de 43 anos, discutiu com manifestantes por considerar errado um protesto com fechamento de vias importantes da cidade. "Não é desse jeito que você vai conseguir o que quer." Ele disse ter participado das Diretas Já e do movimento de impeachment do ex-presidente Fernando Collor.

"Eram milhares e milhares de pessoas. Sem essa estratégia de gatos pingados", disse. Questionado sobre o que acha da reorganização escolar proposta pelo governo estadual, Sampaio não respondeu. "Precisa ter audiência pública e discutir." 

Já a artesã Lindaura Carvalho Teixeira, de 55 anos, que trabalha na região da República, disse que apoia o protesto. "Eles estão certos. Se não fizerem assim, não vão conseguir nada." Lindaura criticou ainda a ação policial. "É errado. Um absurdo. Estudante só quer estudar. Não faz mal a ninguém", afirmou.

Por volta das 11h45, os estudantes fizeram uma assembleia e decidiram encerrar o protesto. Poucos depois, chegou a informação de que Alckmin suspendeu a reorganização escolar e marcou coletiva para as 13 horas. Os estudantes se reuniram novamente. Emocionados, parte deles chorava.

Ação policial. Desde o início da semana, quando os estudantes decidiram levar às ruas os protestos contra a reorganização escolar, os confrontos com a Polícia Militar, que recebeu ordem para desobstruir as vias da capital, se tornaram frequentes. Apesar das críticas a um possível excesso da ação policial, tanto o governador Geraldo Alckmin quanto o secretário da Segurança, Alexandre de Moraes, têm defendido a postura da corporação. 

Grupos com cerca de 30 manifestantes passaram a fechar vias importantes da capital, usando cadeiras escolares e cartazes – e a correr na chegada da polícia, para depois se reagrupar em outro pontos. Atos na Avenida 9 de Julho, na região central, na noite da terça-feira, e na Avenida Doutor Arnaldo, na zona oeste, na manhã de quarta-feira, terminaram em confrontos. O número de detidos passou de 20 – os últimos três foram liberados na noite desta sexta. Em todas as ações, os jovens alegaram violência por parte da polícia – que negou truculência e disse invariavelmente estar impedindo dano ao patrimônio e baderna.

Mas as cenas de confronto, incluindo a de jovens recebendo socos de PMs e sendo arrastados, como o Estado registrou na quinta, começaram a repercutir entre organizações de direitos humanos. A Anistia Internacional condenou o que classificou como “crescente repressão às manifestações pacíficas” e “uso excessivo da força pela Polícia Militar”. A entidade afirmou que as “denúncias de agressões e invasões nas escolas ocupadas, imagens e relatos de violência física, uso de bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo e prisões mostram que o governo não está dialogando”.

A Conectas Direitos Humanos diz que o fato de a gestão estadual suspender o processo e anunciar que vai abrir espaço para o diálogo “não apaga o rastro de violência deixado pela sua força policial em brutais atos de repressão contra crianças e adolescentes, a quem deveria proteger”.

“A primeira coisa que nos causa repulsa é tratar um tema de política educacional com polícia. Como fica a responsabilização desses policiais? Vamos esquecer?”, questiona o coordenador do programa Justiça, Rafael Custódio.

Coordenadora técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Maria Amabile Mansutti lastimou a ação da PM, que precisou ser “brecada”, antes de ter “consequências piores”.

Reorganização. Em setembro, o secretário estadual da Educação, Herman Voorwald, divulgou uma reforma para que as escolas estaduais tenham ciclo único. A medida faz com que 754 unidades ofereçam só os anos iniciais do ensino fundamental (1.º ao 5.º ano), finais (6.º ao 9.º) ou ensino médio. Com isso, mais de 300 mil alunos serão transferidos e 93 escolas, fechadas. 

O governo tem enfrentando oposição porque não dialogou com as comunidades escolares antes do anúncio do projeto. As Faculdades de Educação da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) já repudiaram os argumentos pedagógicos da proposta. Pesquisadores ligados à Universidade Federal do ABC (UFABC) também apontaram fragilidades no estudo da secretaria que baseou a reforma. 

Nesta sexta-feira, pesquisa Datafolha, divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo, mostrou que o governo Alckmin enfrenta taxa de rejeição histórica.

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