Valéria Gonçalvez/AE
Valéria Gonçalvez/AE

Estudantes demonstram desconfiança em relação ao Enem

Alguns deixaram de prestar vestibular em outras faculdades por causa da mudança de data do exame

Mariana Mandelli e Paulo Saldanha, de O Estado de S. Paulo,

05 Dezembro 2009 | 13h36

Candidatos que estão prestando o Enem, Exame Nacional do Ensino Médio, neste fim de semana acham que o exame perdeu a credibilidade após o vazamento, revelado pelo jornal Estado.

 

Na faculdade Estácio UniRadial, na zona sul de São Paulo, por exemplo, a estudante Fabiana Camilo, 21 anos, diz que "perdeu por ser um projeto do governo envolvendo as federais. A gente confiava, mas depois do vazamento o exame parece que perdeu a importância".

 

"Muitas faculdades desistiram de usar", afirma Emília Freitas, 17 anos. Ela tenta uma bolsa para o curso de Enfermagem pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) - um dos principais motivos pelos quais os candidatos não desistiram da prova. É obrigatória a realização do Enem para pleitear a bolsa. "Minha expectativa é conseguir uma bolsa para o curso de psicologia", afirma Elaine Souza, 20 anos.

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Já Rafael Régis, 22 anos, que almeja uma bolsa do ProUni para fazer Jornalismo ou Rádio e TV, está confiante na prova: "Tem que acreditar. Se ficar pensando no problema que teve, não faz direito. Régis é aluno do Cursinho da Poli e deixou de fazer vestibular na Cásper Líbero para fazer o Enem.

 

"Achei a prova que vazou muito fácil. O nível de dificuldade dever se o mesmo. A realização ficou comprometida, muita gente deixou de fazer e está tentando uma bolsa", diz a estudante Beatriz Lemos, 18 anos.

 

Já Pedro Rogério Moreira, 19 anos, acha que "não vai ser muito difícil, mas mais do que no ano passado", porque desta vez a prova "é a primeira fase de algumas federais".

 

Rio

 

No Rio, 310 mil estudantes fazem o Enem. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Erick Alves de Freitas, 18 anos, que quer cursar economia na UFRJ, criticou a inclusão da prova já este ano para a seleção em faculdades como a Federal do Rio, a Uni-Rio e a Federal Fluminense. "Para os alunos, este Enem já não tinha muita credibilidade antes. A mudança veio do nada e pegou todo mundo de surpresa. Estava na cara que ia dar problema", afirma Erick. "E acho que pode ter vazado de novo, só que desta vez ninguém descobriu."

 

Ainda na UERJ, Andréa Santos da Silva, 42 anos, e Bruna Santos Silva de Magalhães, 17 anos, mãe e filha que tentam cursar Enfermagem numa universidade pública, também criticaram a prova. Bruna disse que o vazamento abalou muito quem estava se preparando para o exame. O único aspecto positivo foi o tempo que teve a mais para estudar, disse ela. "Foi um descaso muito grande com os estudantes. E o pior é que algumas universidades acabaram desistindo de aproveitar o Enem como processo de seleção. Perdeu muita credibilidade", criticou Andréa, que, brincando, disse que ia tirar a vaga da filha.

 

Ana Ilsa Ramiro, 20 anos, que vai tentar Letras, contou que, depois do vazamento, tinha desistido de prestar exame este ano. "Foi um balde de água fria muito grande pra quem estava se preparando o ano todo." Ana só fez a prova por causa da pressão do namorado, Oldair dos Santos, 18 anos, que também está fazendo o Enem. "Ele acha que é decisivo para o nosso futuro. Mas eu não acredito no Enem deste ano."

 

Ribeirão Preto

 

Em Ribeirão Preto, a vestibulanda de Medicina Mylene Anelli, 19 anos, disse que o vazamento de informações do primeiro Enem afetou muito a credibilidade do exame. "O Estado passa a não ter muito crédito. Mas vou fazer o exame porque quero prestar vestibular em duas universidades federais, UFScar e Unifesp", afirmou.

 

Marcos Santos Sobrinho, 19 anos, disse que a credibilidade é a mesma, mas a mudança de data atrapalhou a vida dos estudantes. "Eu tinha outras provas na mesma data e não conseguirei fazer". Ele ainda vai prestar o ProUni e tentar o curso de Produção Sucroalcooleira em uma faculdade particular.

 

Com a intenção de cursar Administração de Empresas, Marcos Vinicius Esbrana, 29 anos, não acredita muito no Enem, mas decidiu fazer o exame que pode ajuda-lo a chegar à universidade. "Vou ainda prestar o ProUni para ver se consigo uma bolsa", afirmou.

 

Minas

 

Uma chuva fina e constante obrigou milhares de candidatos a saírem mais cedo de casa para o primeiro dia da prova em Belo Horizonte. Na capital mineira, 83.285 candidatos estão inscritos no Enem 2009. Na esperança de conseguir uma bolsa do ProUni, Leidiane Alice dos Anjos, de 28 anos, precisou cancelar alguns clientes no salão onde trabalha como manicure para chegar a tempo de realizar a prova.

 

Leidiane sonha cursar Pedagogia e ficou desapontada com o vazamento do exame e o consequente adiamento das provas, marcadas inicialmente para outubro. "Me desanimou, pois a gente sempre espera que seja uma coisa mais séria", disse. "Mas eu dependo do resultado da prova para tentar uma bolsa do ProUni".

 

O programa de bolsas também é o objetivo de Éder de Oliveira, de 20 anos. "Minha renda é baixa e é o modo mais fácil de eu conseguir ingressar numa faculdade", disse o jovem, que deixou a zona norte da cidade e uma hora antes do início das provas já aguardava na porta de um pré-vestibular da região central. "Com a chuva fiquei com receio de chegar a atrasado", disse.

 

Ao contrário de Leidiane, ele não ficou frustrado com o adiamento do exame. "Pelo contrário, deu até uma ajuda, porque eu não estava muito preparado na época. Deu tempo para estudar mais". A expectativa de Oliveira era por um exame cansativo. Ontem (05), o exame teria 90 questões de múltipla escolha, sendo 45 de ciências da natureza e 45 de ciências humanas. "Antes era um dia só, agora são dois. Mas espero que não seja muito difícil".

 

Pelo terceiro ano consecutivo, Edson Eziel Ferrreira Scotini, de 21 anos, se preparava para o exame. Pretendendo cursar medicina, Scotini espera usar o resultado da prova para tentar uma oportunidade em universidades federais e particulares do interior de Minas e no Rio de Janeiro que utilizam os resultados do Enem como complementação de seus processos seletivos.

 

"E tem algumas universidades que aceitam só a nota do Enem", ressaltou. "Espero ir muito bem para passar logo no vestibular. Não estou aguento cursinho mais".

 

Em Minas um total de 497 mil candidatos se inscreveram para a avaliação. As provas serão realizadas em 174 municípios.

 

Paraná

 

As provas do Enem em Curitiba (PR) iniciaram sem incidentes, segundo as autoridades. Mesmo com os recente problema de vazamento das questões ocorrido antes da primeira prova , os estudantes demonstravam confiança na lisura dos testes que iniciam hoje.

 

No Paraná 219.854 estudantes - em Curitiba são 58.996 - se inscreveram para o concurso que poderá substituir o vestibular de dezenas de universidades federais. No estado, apenas a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) fez esta opção.

 

No caso da Universidade Federal do Paraná (UFPR), 10% da nota será originada do resultado da prova do final de semana.

 

Para o estudante Jhonathan Thiago, 18 anos, que iria prestar o concurso no Colégio Estadual do Paraná, os problemas acontecidos anteriormente não interferem em nada. "Estudei bastante e o que aconteceu não tem nada a ver. De qualquer forma precisávamos nos preparar", disse. Sobre o futuro, Thiago ainda está indeciso. "Não defini o que irei cursar, mas pode ser Engenharia".

 

Jeslien Vaz tem 25 anos e deve usar as notas para pleitear uma vaga no curso de Enfermagem. "A gente nunca está preparada 100%, mas estudei bastante e há uma boa expectativa", afirmou.

 

(com Julio Cesar Lima, Eduardo Kattah, Alfredo Junqueira e Guto Silveira, de O Estado de S. Paulo)

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