Estudantes da USP podem pegar 3 anos e meio de prisão

Polícia indiciou grupo por 2 delitos, desodiência a ordem judicial e depredação de patrimônio

Carlos Lordelo, Estadão.edu

08 Novembro 2011 | 13h38

 A equipe do 91º Distrito Policial liberou 3 dos 75 alunos detidos da USP e tomou depoimentos dos demais, que só falarão em juízo. Os detidos estão sendo indiciados por dois delitos: desodiência de ordem judicial e dano ao patrimônio público. Somada, a pena por eles é de 3 anos e meio.

Os três estudantes soltos não precisaram pagar a fiança de 1 salário mínimo (R$ 545) fixada para os demais. O trio faz parte do grupo de sete estudantes que estava fora do prédio da reitoria, invadido no dia 2 e desocupado esta manhã pela Tropa de Choque da Polícia Militar, detido quando gritava palavras de ordem contra a PM. Os outros quatro permanecem na delegacia pela suspeita de terem apedrejado dois carros policiais.

A polícia tinha informado inicialmente que os 72 estudantes também seriam indiciados por crime ambiental e estudava até a possibilidade de eles responderem por formação de quadrilha, mas ambos os delitos foram descartados. Segundo a delegada da central de flagrantes do DP Maria Letícia Carvalho, como a pena somada supera o limite de 2 anos nos quais é permitido assinar um termo circunstanciado, os indiciados só serão liberados mediante o pagamento de fiança.   

Os deputados estaduais Carlos Giannazi (PSOL) e federais Adriano Diogo e João Paulo Rillo (PT) tentaram no 91.º DP negociar a redução do valor da fiança. Inicialmente fixada em R$ 1.050, ela teve o valor reduzido para 1 mínimo. Segundo o delegado do 91.º Distrito, Dejair Rodrigues, uma nova redução esbarraria em obstáculos legais.

A polícia submeteu os estudantes a um questionário padrão, com 12 perguntas. "Depois dos interrogatórios, todos eles passarão por exame de corpo de delito", disse Rodrigues.

O delegado afirmou que os alunos permaneceram confinados durante o dia em dois ônibus (um com homens e outro com mulheres) porque quiseram. Segundo o policial, foi oferecida aos estudantes a possibilidade de aguardarem sua vez de serem interrogados no prédio do distrito, mas eles a rejeitaram.

Rodrigues negou denúncias de que os alunos tenham ficado sem comida ou sem acesso ao banheiro. "Todos estão se alimentando com água e frutas."

Do lado de fora do DP, cerca de 150 alunos e funcionários que marcharam a pé do câmpus da USP protestaram contra a polícia à tarde, aos gritos de "libertem nossos presos". A PM fez um cordão de isolamento em volta do prédio da delegacia, com policiais protegidos por escudos. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) bloqueou uma faixa e meia de trânsito da Avenida Doutor Gastão Vidigal, em frente do DP.

Apesar disso, os ânimos permaneciam acirrados. A mãe de um estudante foi detida por desacato a um homem da Tropa de Choque. A polícia informou que ela seria liberada após assinar um termo circunstanciado. No início da tarde, quando jornalistas de TV entravam no ar ou começam gravações, manifestantes berravam "Mentira, mentira!" ou "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo."

Palestina

Pela manhã, os estudantes já tinham realizado uma assembleia-protesto contra a ação da PM, com cerca de 200 participantes. O ato ocorreu nas imediações da reitoria, que estava protegida ainda por cerca de 50 PMs que participaram da reintegração de posse. "A USP foi transformada numa Palestina e deu mais um passo na escalada da violência", afirmou o professor da ECA Luiz Renato Martins, que foi ao local prestar solidariedade aos alunos.

O diretor do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) Marcelo Pablito aproveitou a presença da imprensa no ato para criticar a suposta má-fé da reitoria no processo de desocupação do prédio. "Nenhum membro da comissão de negociação foi chamado para acompanhar a vistoria da Polícia Científica, o que demonstra a intenção da reitoria de punir os estudantes."

*Texto atualizado às 21h14

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