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Estudantes da Esalq vendem manual com ofensas a calouros

Livro faz parte do ‘kit bixo’ e foi comercializado no início do ano letivo dentro da Escola Superior de Agricultura da USP

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

10 Março 2015 | 03h00

Alunos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, interior paulista, venderam um “manual de calouros” com mensagens ofensivas e de apologia do consumo de álcool durante o início do ano letivo na instituição. O material o integra o “kit bixo”, que também inclui um ingresso para a festa dos calouros da Esalq e traz hinos como: “É pinga, cerveja e chope no barril / As nossas buc... são as melhores do Brasil”.

O professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq Antonio Almeida, que estuda o trote nas universidades há 14 anos, foi quem relatou a prática. Ele deve fazer denúncia formal à unidade nesta terça-feira, 11. A Esalq afirma que tem conhecimento do manual e que abrirá sindicância para apurar quem são os autores. A escola ressalta, no entanto, que não patrocinou o material nem esteve envolvida com sua produção editorial e gráfica. 

O manual, ao qual o Estado teve acesso, faz apologia do uso de álcool e convida os novos alunos para uma “maratona”, competição de ingestão de bebidas alcoólicas semelhante àquela em que morreu Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, estudante de Engenharia Elétrica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru. 

“Isso mostra bem que as pessoas não têm o menor cuidado. Em meio à CPI e de tudo isso que está acontecendo, elas estão ignorando. O histórico de violência da Esalq é grande”, afirmou o professor. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), em dezembro de 2014, para apurar casos de violência e trotes em universidades paulistas. Na Esalq, houve denúncia de estupro e uso de veneno para pragas contra um estudante. 

O manual é assinado pelo Centro Acadêmico Luiz de Queiroz (Calq) e pela Comissão de Integração - grupo de alunos responsável pelos eventos para os calouros. De acordo com relatos de estudantes, o material foi comercializado na própria unidade, dentro do “kit bixo”, que também tem ingressos para a festa. A reportagem procurou o Calq por telefone, e-mail e pelas redes sociais, mas não obteve reposta até as 18h30 desta segunda-feira, 9.

Ofensas. Na página 99 do manual, um texto apresenta aos estudantes a torcida da atlética, conhecida como Tobalq. “Formada com o intuito de incentivar nossos atletas, beber e ofender pessoas, a bateria universitária mais antiga do Brasil, a Tobalq (Torcida Baixaria Luiz de Queiroz) tem o imenso desprazer de recebê-los em nosso ‘seleto’ grupo de vikings e comedores de c... de prostitutas (sem camisinha). Aqui, o único pré-requisito é a baixaria.”

Na página 25, um texto sugere aos novos estudantes que deixem de usar roupas de marca para “criar tipo de homem”. “A partir de agora, essa sua calça cagada com esse cinto modernoso, camisetinha da Abercrombie e tênis de namorar rapaz, nós vamos dar um jeito. Bom, caboclo, apruma a carcaça e cria tipo de homem.”

Em fevereiro, a direção da Esalq assinou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) no Ministério Público no qual se comprometeu a combater os trotes. Na CPI, houve denúncias de violência e até estupro. A instituição prometeu fazer campanhas de conscientização, além de orientar os alunos a procurar os canais de denúncia diante de qualquer abuso. 

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