Estudantes, crimes e urubus

Dois alunos de Artes Plásticas visitam Bienal, comentam polêmicas e a mostra ‘do vazio’, de 2008

Felipe Mortara, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2010 | 00h15

 

Depois do fracasso da Bienal “do vazio” em 2008, a mostra mais importante de artes plásticas do Brasil voltou a causar barulho. Com o mote de falar de arte e política, a Bienal ousou: teve de desenhos retratando execuções de personalidades da política a uma instalação com urubus vivos. A convite do Estadão.edu, dois alunos de Artes Plásticas foram ao Parque do Ibirapuera conferir essas obras polêmicas, em exposição até 12 de dezembro.

 

Pablo Vieira, da Belas Artes, e Daniel de Paula, da Faap, elogiaram Bandeira Branca, de Nuno Ramos. A obra na qual três urubus sobrevoavam estruturas de mármore negro despertou o rancor de ambientalistas – por ordem do Ibama, os animais foram retirados uma semana depois da visita dos universitários.

“Acho que a arte deve vir antes da ideia dos bons tratos aos animais”, disse Pablo, de 21 anos. Daniel, de 23, estranhou a polêmica sobre a intervenção. “Foi o bode expiatório das últimas edições. Já vi uma exposição do Hélio Oiticica em que tinha um papagaio vivo e ninguém foi lá protestar. E ninguém falou sobre a plástica, a relação arquitetônica, ou o fato de o urubu ser um animal que vive da morte.”

 

Outra parada obrigatória da dupla foi a série Inimigos. Os desenhos de carvão sobre papel do pernambucano Gil Vicente mostravam o próprio artista prestes a assassinar personalidades do poder, como Lula, Fernando Henrique Cardoso, a rainha Elizabeth e George Bush.

 

“É super irônico, aponta um problema, mas propõe uma solução inviável. Acho que ele está no plano dos devaneios”, disse Daniel.

 

“Os desenhos do Gil Vicente são tecnicamente perfeitos”, afirmou Pablo. “Só que, para mim, a instalação Ninhos, do Helio Oiticica, fala muito mais de política que esta série.”

 

O trabalho de Oiticica, dos anos 70, consiste numa grande instalação de vários níveis, com divisórias estreitas onde as pessoas esbarram umas nas outras.

 

Para o estudante da Belas Artes, a obra trata a política de um jeito “pouco óbvio, falando das relações interpessoais e de convivência”.

 

Bienal pra quê?. Os dois alunos expressaram opiniões diferentes sobre o papel de uma exposição como a Bienal. “Ela deve mostrar qual é o conjunto de discussões artísticas de um momento. E esta até consegue fazer isso bem”, afirmou Pablo.

 

Daniel foi mais crítico. Para ele, o público tem dificuldade de entender as obras. “Acho romântica a ideia de que arte contemporânea é para todos”, diz. “A partir do momento em que cria reflexões, a Bienal está cumprindo seu papel. Mas só descobriremos se esta cumpriu o seu na próxima edição.”

 

Os universitários também compararam a atual edição e a “Bienal do vazio”. “Acho estranho há dois anos terem prendido pichadores (aponta imagens em telão que mostram a ação em 2008 do grupo que invadiu e pintou paredes do prédio, como protesto contra o tal “vazio”) e agora pagarem para eles fazerem um vídeo”, afirmou Pablo.

 

Daniel diz que achou abominável a criticada Bienal de 2008 quando a visitou, mas mudou de opinião com o tempo. “Olhando à distância, hoje vejo que houve um debate entre público, artistas e curadores.”

 

Abajour, de Cildo Meireles

"Até para a gente que faz arte é um trabalho tenso, me deixa meio mal"

Daniel de Paula (à dir.), aluno da Belas Artes

 

Inimigos, de Gil Vicente

"Tecnicamente, são perfeitos, mas não propõem muitas coisas. A instalação do Oiticica fala mais de política"

Pablo Pereira, (à dir.), aluno da Faap

 

To Crawl Into, de Gustav Metzeger

"Gostei da forma como está exposto. O ato mínimo de você ficar de joelhos já causa um certo constrangimento"

Daniel de Paula

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