Estudante nega ter recebido tema de redação antes do Enem

Professores e colegas reafirmam que o aluno anunciou ter obtido o dado de colega de São Raimundo Nonato (PI)

Tiago Décimo, Enviado especial a Petrolina

10 Novembro 2010 | 20h14

O estudante Eduardo Ferreira Affonso Júnior, de 21 anos, não esconde o nervosismo. Chora muito, gesticula rapidamente, diz não ter conseguido dormir desde segunda-feira. Apontado por professores e colegas como o responsável pelo vazamento do tema da redação do Enem em Petrolina (PE), onde estuda para os vestibulares de Medicina que pretende prestar, o jovem de Remanso, cidade no norte da Bahia, nega ter sido o pivô da revelação, que pode causar a suspensão do exame.

 

"Eu estava chegando ao local da prova (a Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina, Facape), por volta das 11h15, quando ouvi um grupinho conversando que o tema da redação tinha vazado em São Raimundo Nonato (PI) e que seria algo sobre trabalho e escravidão", conta o estudante.

 

"Tudo o que fiz foi ir a um professor perguntar sobre o tema, caso fosse verdade. Não tenho nada com isso. Tanto que, na hora de fazer a prova, vi que a informação era verdade, fiquei nervoso, mas desanimei.  Pensei: 'porque vou fazer essa prova se ela vazou e depois vou ter de fazer de novo?'", afirma. "No fim, demorei quase duas horas para fazer só a redação, que faria em menos de meia hora. Sempre escrevi bem. Sofri e continuo sofrendo com isso tudo. Queria fazer a prova de novo."

O relato de Affonso Júnior contrasta com os de alguns dos professores do Colégio Geo, que frequenta, e alguns colegas e amigos na cidade. "Ele contou a um de nossos professores que tinha recebido um telefonema de um amigo do Piauí (de São Raimundo Nonato) dizendo que o tema seria esse", conta a diretora da escola, Simone Cerqueira Ramos Campos. "Acho que não é coincidência, não foi um tema tão debatido este ano nas aulas. Estamos desiludidos, porque preparamos os alunos com dedicação para, no fim, haver um problema desses. O sistema é muito frágil."

 

O estudante Denis Rodrigues de Sá, de 21 anos, colega de cursinho de Affonso Júnior, afirma ter presenciado a conversa dele com os professores, antes do início da prova. "Ele falou com muita convicção, como se soubesse mesmo o tema", lembra. "Nem foi discreto, foi na frente de todo mundo. Tanto que, rapidinho, formou uma multidão ali."

 

Segundo a estudante Nara Moura, de 19 anos, que se diz amiga de Eduardo, o telefonema entre uma pessoa - seria uma mulher - em São Raimundo Nonato e ele existiu. "Não sei porque ele agora fala que não partiu dele", alega.

 

Na PF

A Polícia Federal começou, na manhã de hoje (quarta-feira), a ouvir testemunhas do possível vazamento da prova, em Juazeiro. Pela manhã, o delegado Alexandre Lucena ouviu o vice-diretor do colégio, Marcos Antonio Freire de Paula, conhecido como professor Marquinhos - o responsável pela denúncia do vazamento -, e o coordenador do curso pré-vestibular da instituição, Nivaldo Moreira.

 

O estudante apontado como pivô do caso, porém, ainda não foi ouvido. "Eu queria ir logo à Polícia Federal para esclarecer essas coisas todas", diz Eduardo. "Minha família e a família da minha namorada já estão me acusando de um monte de coisas. Minha namorada brigou comigo. Tudo por causa dessa confusão."

Segundo Marquinhos, o delegado o instruiu a evitar tocar no assunto durante as investigações. "A PF nos procurou depois de ver, pela imprensa, que poderia ter havido um vazamento das provas do Enem aqui", conta. "Não tenho certeza de absolutamente nada, mas não acredito em coincidências."

Durante o dia, estudantes protestaram contra a forma como o Enem foi realizado - com problemas no gabarito no primeiro dia de provas e possível vazamento no segundo -, em uma caminhada pelo centro de Petrolina. "Queremos pressionar a Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), que usa apenas o Enem para selecionar seus alunos, a adotar outro modo de avaliação dos estudantes", diz a proprietária do Curso Pré-Vestibular Tema, Vera Lúcia Medeiros.

Após a caminhada, o grupo, de cerca de 60 estudantes e professores, foi recebido pelo prefeito de Petrolina, Júlio Lóssio (PMDB), que garantiu que vai marcar uma reunião com a reitoria da universidade para avaliar o tema.

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