SERGIO CASTRO/ESTADÃO.
SERGIO CASTRO/ESTADÃO.

Estado de SP quer iniciar adoção de novo currículo pela periferia

Reforma no ensino médio deve começar no ano que vem em um número pequeno de unidades - e, na sequência, avançar na rede

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 03h00

SÃO PAULO - A Secretaria da Educação do Estado (SEE) pretende iniciar a adoção do novo currículo do ensino médio em escolas da periferia. A reforma deve ser gradual - começará em 2016 em um número pequeno de unidades, para depois avançar na rede. A ideia é transformar grande parte do curso em disciplinas optativas, de forma que o aluno monte sua própria grade, como revelou o Estado neste mês

Antes de ser posta em prática, a proposta será enviada em agosto para o Conselho Estadual de Educação. Depois que regiões prioritárias forem definidas, escolas interessadas poderão aderir. A reforma atingirá principalmente os 2.º e 3.º anos do ensino médio. No currículo flexível, o aluno escolherá matérias optativas, como Teatro ou idiomas. 

“Estamos optando por aquelas (escolas) que têm maiores dificuldades. Se as outras estão indo bem, dentro do contexto proposto, vamos deixar que elas caminhem. Se tivermos um ganho (com o novo currículo), apresentamos às demais”, disse ao Estado a secretária adjunta da Educação, Cleide Bochixio. 

Segundo ela, começar em unidades da periferia da capital e da Grande São Paulo não ameaça a continuidade da reforma no futuro. Na escolha, a SEE vai priorizar escolas com baixos resultados do Idesp, indicador de qualidade de ensino da rede. 

Pesquisas mostram que o nível socioeconômico das famílias ou das regiões onde ficam as escolas são determinantes para o desempenho dos estudantes e as taxas de abandono. 

Haverá seminários com diretores, professores, alunos e famílias para explicar e ajustar o novo modelo. Disciplinas básicas - como Matemática e Português - serão mantidas para todos, segundo Cleide. 

Milena Santos, de 17 anos, gosta da mudança. “Ajuda a aumentar o interesse dos alunos”, diz ela, do 3.º ano de uma escola estadual do Jardim Peri, na zona norte. Para a jovem, o desafio é dar estrutura para que o modelo funcione. “Nem sempre essas escolas (de periferia) têm as melhores condições.”

Desafios. Para Francisco Poli, presidente do Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo (Udemo), a decisão de iniciar por bairros mais pobres é acertada. "Se começa pelas melhores escolas, não se sabe se o bom resultado, por exemplo, é fruto da alteração ou porque a escola já era boa", argumenta. 

Uma das principais tarefas da secretaria, de acordo com Poli, será convencer e engajar os profissionais da rede - principalmente após uma greve de 89 dias no primeiro semestre. "Se for de cima para baixo, há rejeição dos professores", destaca.

Paulo Carrano, pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), diz que uma reforma curricular desse tipo exige ajustes estruturais para melhorar as escolas. "É preciso não ter salas tão lotadas e tempo para trabalhar com esses jovens", aponta. Outro desafio é conseguir dar escala aos projetos. "Por vezes, o experimentalismo em uma ou outra escola nunca consegue atingir a totalidade da rede."

Carrano afirma que a escolha de trabalhar com alunos mais pobres também demanda acompanhamento mais próximo. "São jovens que, muitas vezes, são os primeiros da família a chegar ao nível médio e têm trajetória escolar mais difícil. Eles terão dificuldades de fazer escolhas alternativas", diz. "É necessário que haja um programa de suporte e de supervisão", defende. 

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