Esporte vence a evasão escolar e a reprovação

Bater uma bola com os amigos quase toda tarde não faz de Diego de Souza um garoto menos dedicado aos estudos. Ao contrário. Foi por causa dos jogos na turma do Petelecão que ele chegou, com 16 anos, ao 2.º ano do ensino médio como um bom aluno. É claro que tem dificuldades, ?principalmente em Geografia?, mas está longe de levar as notas ?D? que pintavam seu boletim na 6.ª série, quando começou a brincar com esse pessoal. ?Agora tiro nota baixa só uma ou duas vezes no ano todo?, orgulha-se.A turma do Petelecão ajudou Diego a aprender mais e a se relacionar melhor com as pessoas, assim como as outras quatro turmas do Projeto Esporte Talento aumentaram o rendimento escolar da maioria dos estudantes carentes que se reúnem antes ou depois das aulas ? de manhã ou à tarde ? no centro poliesportivo da USP, em São Paulo. O bom resultado com estas 600 crianças e adolescentes, de 8 a 16 anos, moradores de bairros circunvizinhos da USP, é a regra nos projetos semelhantes que o Instituto Ayrton Senna semeou em 12 Estados nos últimos sete anos.A avaliação do Programa Educação pelo Esporte, que o instituto divulga nesta quinta-feira em Brasília, mostra que a reprovação e a evasão escolar caíram drasticamente entre as crianças e adolescentes atendidos. Dados de seis projetos ? o da USP mais cinco: em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará, Rio Grande do Sul e Pernambuco ? revelam que os alunos do programa simplesmente não abandonaram a escola em 2002. Na rede pública destes mesmos Estados, em 2001, as taxas de evasão foram de 4,6% (a mais baixa, em São Paulo) até 20,3% (no Pará), segundo o Inep, o instituto de pesquisas do Ministério da Educação. Na média dos seis Estados, um em cada dez alunos deixou a escola.Comparando-se os dados de reprovação, houve diferenças brutais: em Pernambuco, a taxa foi de 0,9% entre estudantes do programa (em 2002) e 15,7% na rede pública (2001). Em Minas, na mesma base de comparação, a taxa foi de 0% no programa e 7,2% na rede pública. Em São Paulo, onde o sistema de ciclos aboliu a reprovação anual, a comparação não pôde ser feita, mas a taxa de aprovação foi de 100%, contra 90,7% dos alunos da rede pública promovidos sem necessidade de recuperação. A média de aprovação nos seis Estados foi de 77,4%, segundo o Inep; no programa, foi de 93,6%.Capacidade de aprenderO desempenho na escola reflete o desenvolvimento dos estudantes em capacidades fundamentais para o aprendizado. Numa amostra de 150 crianças e adolescentes com pelo menos um ano de participação nestes Estados, 47,92% revelaram alta capacidade de resolver problemas, maior habilidade de expressão oral e gosto pela leitura e escrita. Num grupo semelhante, de crianças recém-chegadas ao programa, só 14,86% apresentaram estas capacidades bem desenvolvidas. São 33,06 pontos porcentuais de diferença.Levando-se em conta o que os pais esperam da escola ? bom aprendizado e formação para o convívio social ?, os resultados são animadores. Na mesma comparação, o grupo de ?veteranos? tem 52,78% de crianças e adolescentes com alta capacidade de cooperação e consciência sobre seus direitos e deveres; entre os ?calouros?, 19,59%, uma diferença de 33,19 pontos porcentuais. Iniciativa, criatividade e capacidade de trabalhar em grupo também se acentuaram nos participantes: são 50,69% neste grupo, contra 17,46% entre os novatos, uma distância de 33,23 pontos.Os números significam que a prática esportiva e as atividades desenvolvidas neste contexto estão ajudando os 10.130 garotos e garotas inscritos no programa em 2003 a aprender a viver melhor, como cidadãos e trabalhadores. ?Um menino que tem essas capacidades desenvolvidas acredita em si, pode ter um projeto de vida, sabe lidar com o outro, poderá ter tolerância nas relações com a família, com os colegas de trabalho?, observa Margareth Goldenberg, superintendente do instituto.Ela nota também a capacidade de liderança que os participantes desenvolvem. ?São garotos e garotas que se diferenciam na sala de aula, são líderes de turma, que fundam grêmios e participam de processos de transformação no ambiente escolar?, diz Margareth. Diego reconhece que ficou mais atuante na sua escola, além de se destacar um pouco pelas novas habilidades com a bola de basquete. Mas, para ele, o mais importante foi aprender a ?ter mais disciplina e não perder tempo na escola?.

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