Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Especialistas debatem desafios educacionais e profissionais impostos pela transformação digital

Durante o último dia do Summit Educação 2020, palestrantes falaram ainda sobre a importância da democratização do acesso digital

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 16h49

SÃO PAULO - Ao mesmo tempo em que afetou financeiramente diversos setores da economia, a pandemia do novo coronavírus acelerou a tão propagada transformação digital no mundo acadêmico e no mercado de trabalho. Na tarde desta segunda-feira, 31, durante o último dia do Summit Educação 2020, especialistas defenderam a integração entre empresas, sociedade civil e educadores para garantir formação de qualidade para a população brasileira.

"Esboço de uma rede envolvendo o setor privado, sociedade civil e sistema educacional como um todo para criar melhores condições de vida e empregabilidade para os jovens. Quebrar paradigmas é isso, como se organizar para dar soluções que o Brasil precisa", afirmou Vera Cabral, diretora de educação da Microsoft Brasil.

"A pandemia explicitou mudanças de paradigmas com relação às competências digitais. Identificação das necessidades digitais na formação da educação básica e do ensino superior. Teremos mais adaptações mais para a frente, mas não tem como voltar ao que era antigamente. O grande ponto é usar tecnologias para romper com legado do mundo desigual. É a responsabilidade social das empresas e da sociedade como um todo. Valores humanos precisam ser cada vez mais considerados", afirmou Vera.

O reitor do Centro Universitário FEI, Gustavo Donato, concorda que, de um ponto de vista de tendência, a transformação digital já vinha ocorrendo intensamente, mas o processo foi acelerado fortemente pela pandemia. "A velocidade de transformação foi muito acentuada e não acredito que vamos voltar ao que éramos antes. Muda completamente nossa relação com a tecnologia, pessoas que antes não eram forçadas a esse ambiente de maior virtualidade foram forçadas (principalmente com home office) e as relações de trabalho estão sendo levadas a novas configurações que antes poderiam levar tempos muitos mais dilatados. O próprio avanço do home office e o ganho de eficiência, que em alguns casos nos surpreende positivamente, quebraram paradigmas."

"Foi observado crescimento na demanda de profissionais conectados à inteligência artificial, software e telecomunicação logo nos primeiros meses da pandemia. Se uma instituição ou empresa não tiver profissionais na parte de transformação digital e inovação deve se preparar para tê-lo", destacou Donato. 

Diante dos desafios impostos pelo fechamento de escolas, os professores foram muito impactados pela transformação digital. "Com plano de contingência planejado foi possível mudar rapidamente para o virtual dentro da FEI. Os professores se desenvolveram muito neste período", avaliou o reitor do Centro Universitário FEI. Donato reforça que um terço dos alunos da FEI são bolsistas e as decisões para a transição virtual levaram em conta a realidade acadêmica. 

O 'legado da digitalização no mercado e os efeitos no currículo acadêmico' foi o tema do último dia do Summit Educação 2020, evento online e gratuito, realizado pelo Estadão, que começou na segunda-feira, 24, e terminou nesta segunda-feira, 31. 

"Esse momento (de pandemia) acirrou um ponto muito importante de uma formação de uso da tecnologia digital, de ambientes online, de entender todo o contexto desse mundo digital", disse Priscila Gonsales, diretora-executiva do Educadigital.

Ela afirma ainda que a democratização do acesso digital é hoje um dos grandes desafios para inclusão social no Brasil. "Existem ainda 47 milhões de pessoas no Brasil que não têm acesso à internet. Estamos acirrando questões que não conseguimos ver antes da pandemia que implica em políticas públicas, formações de docentes e de pensar em conexão para os alunos."

Priscila defende que transformar é importante, mas é preciso criar um conceito de colaboração com universidades, autoridades e sociedade. "A transformação digital é um caminho sem volta, que teremos que ir atrás de nossas formações, melhorando os processos de ensino e aprendizagem. É preciso também ampliar os horizontes das universidades", disse. 

Ana Carnaúba, diretora D-Influencers Mercado da Deloitte, acrescenta que a transformação digital traz desafios ao mercado de trabalho. "A transformação digital acontece para todos, mas no sentido de que não é para qualquer um. É preciso observar cada indivíduo. Tão difícil dentro das organizações, a transformação digital passa pela necessidade de transformação pessoal."

De acordo com Ana Carnaúba, cresce o interesse de empresas em criarem universidades corporativas. "Na Deloitte é um movimento cada vez mais crescente porque, de fato, a gente recebe do mercado uma pessoa com gaps (lacunas) de formação. Ou porque a gente recebe formação acadêmica de excelente qualidade, mas não comportamental no mesmo nível ou, por vezes, não dá experiência e vivência profissional. Em uma universidade corporativa, por exemplo, a gente tem o objetivo de criar um profissional que tenha um padrão de excelência que a gente gosta de garantir na prestação dos nossos serviços."        

Lucas Mendes, cofundador da Revelo, plataforma de recrutamento, avalia que o interesse por profissionais que tenham experiência na área digital aumentou muito, ainda mais com a pandemia do novo coronavírus.

"O interesse por profissionais que têm certas habilidades, que têm certas experiências na área de tecnologia, não somente programadores, mas que têm exposição digital, tem aumentado de maneira exponencial, a ponto de o certificado de ensino superior clássico ter seu valor quase que equiparado ao de outras certificações de curto prazo que conseguem dar essas habilidades para os profissionais", ressaltou.

Em meio a dúvidas sobre a volta às aulas e a necessidade de estratégias para o retorno seguro, principais nomes da área de educação debateram os impactos da pandemia do novo coronavírus durante uma semana no Summit Educação Brasil 2020, evento gratuito e online realizado pelo Estadão. Para mais informações acesse o site.

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