Fernanda Luz/Estadão
Renata Tozzi, que estuda na Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade Fernanda Luz/Estadão

Renata Tozzi, que estuda na Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade Fernanda Luz/Estadão

Pós-graduação para carreira com foco social e ambiental, ESG ganha força no mercado

Cursos formam profissionais que pensem estratégias para empresas implementarem políticas que deem importância a aspectos como sustentabilidade e equidade

Alex Gomes e Ocimara Balmant , especiais para o Estadão

Atualizado

Renata Tozzi, que estuda na Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade Fernanda Luz/Estadão

Todas as pessoas envolvidas com uma empresa precisam ter voz e vez. Tal síntese mostra a importância da responsabilidade social na ordem do dia das companhias e dos cursos de pós-graduação voltados a ESG, sigla para Environmental, Social and Governance – ou seja, governança e responsabilidade social e ambiental.

Isso significa ter em pauta as demandas de âmbito interno – desde acionistas até colaboradores esporádicos – e externo, que compreende clientes, prestadores de serviços e moradores da região. O mercado financeiro mostra que levará cada vez mais em conta a responsabilidade social da empresa no momento de incentivar ou desestimular investimentos.

A Bloomberg, que elabora indicadores e dados voltados para o mercado financeiro, lançou em janeiro um índice que verifica a igualdade de gênero nas empresas, o Gender Equality Index (GEI). Para uma boa colocação no estudo, as organizações precisam ter sólidas políticas de inclusão e equiparação de gênero, que mostrem o compromisso em desenvolver lideranças femininas, políticas de paridades salariais e combate ao assédio sexual, entre outras medidas.

Mas apenas a intenção não é suficiente. É preciso que as equipes gestoras estejam capacitadas para pensar uma estratégia, com plano de implementação, metas a curto e longo prazo e mensuração de resultados. Um desafio que pode ficar mais factível se os profissionais tiverem uma formação para isso. 

Na Faculdade Unyleya, a pós em Direitos Humanos e Questões Étnico-Sociais é uma opção para profissionais que buscam mais base para lidar com elementos como diversidade e promoção da dignidade das pessoas, a fim de tornar o ambiente empresarial mais democrático e representativo. A lista de disciplinas inclui Direito Constitucional e Legislação Social, Fundamentos Filosóficos e Sociológicos dos Direitos Humanos, Novas Tecnologias e Questões Étnico-Sociais.

“As disciplinas e a abordagem do curso permitem que pessoas das mais diversas áreas profissionais possam aprofundar seus estudos de forma ampla. Além da discussão de elementos de grande relevância na temática social, há diversas oportunidades para o aprofundamento de questões mais específicas, conforme as necessidades e interesses acadêmicos do aluno”, diz Luiz Henrique Hargreaves, coordenador do curso. 

No programa são discutidos temas como empreendedorismo social, filantropia, suporte ao voluntariado e ações de engajamento em iniciativas comunitárias. Todos assuntos prementes neste momento de pandemia. “Quando falamos de tragédias coletivas, os direitos humanos precisam ser ressaltados sobretudo no contexto étnico-social. Na medida em que profissionais de diferentes áreas de formação se especializam nesse campo do conhecimento, maiores são as possibilidades e oportunidades de formação de comunidades com resiliência mais robusta e de melhoria dos processos voltados para a redução de vulnerabilidades”, conclui.

Coordenador da pós-graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV), Antônio Raimundo acompanha a evolução das discussões ambientais no meio empresarial desde meados da década de 1990. Ele é um dos especialistas que reconhecem a evolução na percepção de gestores e profissionais sobre a importância de considerar questões ambientais no modelo de negócios. “Era um horror falar desses temas com empresários. A primeira pergunta que faziam era ‘O que vou ganhar com isso’. Após 20 anos, chegamos atualmente a um momento em que poucos empresários sérios não se preocupam com sustentabilidade.”

A demanda do mercado motivou a criação do curso coordenado por Raimundo. Há disciplinas como Avaliação de Impactos Ambientais, Dinâmica de Sistemas Naturais e Aspectos Econômicos, Direito Ambiental, Ética e Logística Reversa e Economia Circular, Política e Gerenciamento de Recursos Hídricos e Riscos Socioambientais. Criada em julho de 2019, a especialização abriria turmas a cada três meses. “Agora temos entradas a cada 60 dias. Já estamos com cerca de 400 alunos”, diz.

Para Raimundo, o caráter abrangente é um dos elementos que motiva o grande interesse. A proposta é pôr os profissionais em contato com tópicos indispensáveis sobre meio ambiente e sustentabilidade, importantes em qualquer área e um diferencial no currículo. “Imagine uma empresa que vai contratar alguém para o setor jurídico. Se o candidato tem conhecimentos sobre assuntos como logística reversa, por exemplo, dá outra cara para a corporação.”

Economista, com especialização em administração de empresas, Renata Tozzi aproveitou para investir em formação quando teve de suspender suas atividades com a pandemia. “Sempre trabalhei com finanças em grandes empresas nacionais e multinacionais. Há quatro anos decidi empreender em um projeto ligado a moda e sustentabilidade”, conta a aluna de pós-graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade da FGV. “Entrei no curso em setembro de 2020. Até então, meus conhecimentos nesse campo eram intuitivos. Como vi que a agenda sustentável bombou, decidi me aprimorar.”

Na turma do curso, segundo ela, há advogados, profissionais de turismo e até biólogos. “Creio que qualquer profissional tem de fazer um curso como esse, entender por exemplo o carbono e seus impactos, algo crucial na economia atual. Até porque projetos que geram um impacto negativo ambiental não são mais economicamente viáveis”, acredita. “E tem tudo a ver com o meu interesse em moda. Porque não há economia que funcione em um mundo doente, e a indústria da moda é uma das mais poluentes.”

A economista diz que gosta de ver questões ambientais aplicadas a negócios no curso. “Ao mesmo tempo, ele é generalista e promove a percepção das diversidades de contextos ambientais. A cada encerramento de módulo, temos de avaliar uma empresa e propor ações de sustentabilidade.” Para o futuro, Renata pensa em várias hipóteses. “Desde recolocação em empresas na área de moda e finanças ou mesmo montar um comitê de sustentabilidade, que possa ajudar na jornada de transformação das empresas em direção à sustentabilidade.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Programa que se baseia na sustentabilidade investe no novo profissional

ESG veio para ficar: curso de pós trata de otimização dos processos com atenção ao social, ambiental e financeiro

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especiais para o Estadão

08 de abril de 2021 | 05h00

Salve a natureza e pense nas pessoas. Tais imperativos, típicos de ativistas ou adeptos da contracultura, como hippies, já se tornaram metas de quem dificilmente será visto abraçando árvores ou cultuando o festival de Woodstock: CEOs e gestores de multinacionais. Eles estão focados em ESG, sigla que corresponde a Environmental, Social and Governance em inglês. O conceito é apontado como uma das principais tendências de gestão e os desdobramentos dele já se tornaram temas de cursos de pós-graduação.

Estudos mostram que o tema veio para ficar. A pesquisa Global Network of Director Institutes 2020-2021 Survey Report, feita pela organização Global Network of Directors Institutes (GNDI), ouviu 1.964 conselheiros de 17 institutos de governança pelo mundo, sendo 94 brasileiros. Entre vários questionamentos sobre governança empresarial em tempos de pandemia, os entrevistados foram indagados sobre as tendências em que apostam para o futuro. 

Para 67% dos entrevistados, o foco em questões ESG será determinante nos negócios. Entre os participantes brasileiros, essa é a opinião de 85% dos participantes. A pesquisa foi realizada entre agosto e setembro de 2020, com diretores, CEOs, conselheiros independentes e outros gestores. Pelo menos 11% dos entrevistados atuam em organizações com mais de 10 mil colaboradores.

“Vivemos um momento de transição. Há uma jornada a ser feita por todos, tanto empresas quanto consumidores, nas questões de sustentabilidade. É um caminho longo e uma mudança cultural”, explica Luiz Martha, gerente de Pesquisa e Conteúdo do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que representa a GNDI no Brasil. Para ele, a pesquisa mostrar o protagonismo das questões sociais e ambientais na agenda dos líderes é um forte indicativo de grandes ações a serem tomadas. “A sociedade entendeu que as empresas não podem ser meras espectadoras dos problemas. Vendo o impacto que elas têm e seus poderes econômicos, uma nova geração de consumidores e investidores demanda uma nova atitude empresarial”, afirma.

Para fomentar gestões ESG no País, o IBGC lançou a versão brasileira da iniciativa internacional Chapter Zero, rede de organizações secretariada pela Universidade de Cambridge, que visa a abordar os desafios das mudanças climáticas em conselhos de administração. “Dizemos que a empresa é um cidadão da sociedade. Ela tem de exercer um papel de cidadão, ter responsabilidades para que consiga viver em uma sociedade melhor”, resume Martha.

Influenciado pelos critérios dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), ESG envolve unir as preocupações sociais e ambientais a boas práticas de gestão. Assim, além de medidas que mantenham a máquina empresarial funcionando, com a garantia de finanças em dia e o seguimento de normas jurídicas e técnicas, os modelos de negócio devem incluir fatores sociais (como a qualidade da relação com colaboradores e clientes, a diversidade no momento de compor equipe e as ações de impacto na comunidade do entorno) e compromissos ambientais (consumo sustentável de recursos naturais, preservação da biodiversidade e gestão de resíduos, entre outros aspectos).

Para que isso se torne uma realidade nos negócios, instituições de ensino vêm montando cursos de pós-graduação dedicados a esse tema, capacitando profissionais para desenvolverem estratégias ESG. 

Na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a especialização em Sustentabilidade Empresarial: Estratégias ESG nas Operações é uma possibilidade tanto para gestores que ainda se perdem no significado do ESG como para aqueles que já dominam a sigla, mas pretendem aprimorar a gestão de seus negócios. No currículo, há disciplinas como Gestão Ambiental, Gestão Social, Cadeia de Suprimentos Sustentável e Economia Circular. “Vimos uma forte demanda da sociedade por esse tema cada vez mais importante nas empresas. Na elaboração do curso, utilizamos também currículos internacionais, já que o tema é pauta mundial”, explica Pablo Carpejani, coordenador da pós-graduação.

Previsto para começar em maio – via modalidade remota ao vivo, ou seja, em formato de live –, o curso reúne um corpo docente que mescla teoria e prática, com professores com experiência acadêmica internacional sobre o tema e outros dedicados ao mercado de trabalho em cargos estratégicos, como gestores de organizações. A formação é conduzida na Lean Academy, segmento da Escola Politécnica da PUC-PR na qual são realizados cursos de pós-graduação que seguem a metodologia de gestão Lean Six Sigma.

Tal conceito, muito utilizado por multinacionais, é aplicado com práticas de gerenciamento sustentáveis. Lida com formas de otimizar os processos de trabalho com estratégias de gestão e sustentabilidade para obter soluções mais eficientes em problemas de negócio. Entre os conceitos abordados estão: a elaboração de estratégias ESG no contexto empresarial; o gerenciamento dos pilares social, ambiental e econômico; o combate a desperdícios; a organização de atividades para criação de cadeia de suprimentos sustentável; a manufatura enxuta; e a eliminação de desperdício em prol da performance empresarial.

LISTA DA ONU PARA SUSTENTABILIDADE

  1. Erradicação da pobreza
  2. Fome zero e agricultura sustentável
  3. Saúde e bem-estar
  4. Educação de qualidade
  5. Igualdade de gênero
  6. Água potável e saneamento
  7. Energia limpa e acessível
  8. Trabalho decente e crescimento econômico 
  9. Indústria, inovação e infraestrutura
  10. Redução das desigualdades
  11. Cidades e comunidades sustentáveis
  12. Consumo e produção responsáveis
  13. Ação contra a mudança global do clima
  14. Vida na água
  15. Vida terrestre
  16. Paz, justiça e instituições eficazes
  17. Parcerias e meios de implementação

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

ENTREVISTA - Monica Kruglianskas: ‘Questões como diversidade afetam competitividade’

Participação de mulheres e de outras minorias na administração é requisito básico para empresa sobreviver, diz expert

Entrevista com

Monica Kruglianskas, head of Sustainability and Partnerships na FIA

Alex Gomes, especial para o Estadão

08 de abril de 2021 | 05h00

A exigência por transparência em relação a aspectos ambientais, sociais ou de governança será cada vez mais alta, afirma Monica Kruglianskas, head of Sustainability and Partnerships do Programa de Gestão Estratégica para a Sustentabilidade da Fundação Instituto de Administração (FIA). “As questões de diversidade, bem como as de sustentabilidade, afetam diretamente a competitividade”, diz. “Para atrair investimentos, as empresas precisam reconhecer e incorporar esses conceitos no nível mais profundo: sua razão de existir.” Leia a entrevista: 

Que erros os gestores cometem ao lidar com questões ESG?

Um dos mais comuns nas empresas é não definir bem o foco. Sustentabilidade é um tema muito abrangente, envolve praticamente toda a vida na Terra. É um equívoco para uma organização achar que pode resolver tudo. Ela deve, a partir do seu nicho, estipular qual será a sua contribuição e trabalhar para influenciar positivamente naquilo em que é única e especial. Fica mais fácil avaliar o que chamamos de “materialidade”. Ou seja, os aspectos que realmente importam para aquela empresa. Essa é a chave para relatórios ESG significativos e concisos, pois permitem que os analistas entendam melhor a gestão das questões ESG de uma empresa. Veja, aqui, existe muita oportunidade profissional. O fundo de investimentos global UBS estima que a demanda por inteligência e dados relacionados à sustentabilidade deve atingir US$ 5 bilhões nos próximos cinco anos. Se a organização não tem uma definição clara do que é realmente significativo, em que deve investir e quais são seus objetivos, é gerada uma frustração por não ver os resultados esperados e uma percepção negativa em investidores, credores e consumidores. Fica a falsa aparência de sustentabilidade, o greenwashing.

Na parte executiva, quais são os desafios para adotar ESG?

O primeiro é o aumento da regulamentação, voluntária ou não. Nas bolsas de valores internacionais, por exemplo, já se observam requisitos de divulgação ESG mais rigorosos para empresas listadas. O segundo é a falta de consenso com relação a ferramentas e indicadores que cada empresa deve usar. Há muitas estruturas para medir, relatar e comparar performance. Mas isso tende a mudar porque há um esforço global de convergência para facilitar a comunicação das empresas e a interpretação dos índices para investidores, bancos e seguradoras. Dados de sustentabilidade mais materiais e mais comparáveis estão por vir, o que ajudará a informar as decisões de investimento.

O que motivou a mudança entre os atores econômicos?

Sem dúvida os impactos econômicos influenciaram. Casos como o de Mariana e Brumadinho, por exemplo, causaram perdas para a BHP Billiton, que é dona da Samarco com a Vale, de cerca de US$ 6,4 bilhões em 2016. Mas existem exemplos de prejuízos que podem chegar a US$ 30 bilhões, como aconteceu com a British Petroleum, envolvida no desastre ecológico no Golfo do México em 2010. Isso sem contar as perdas no valor das ações. Investidores de longo prazo não estão de brincadeira. Os que lidam com fundos de pensões não podem investir em ativos que não vão conseguir pagar a aposentadoria de milhões de pessoas. 

Sobre o aspecto social, a desigualdade na participação das mulheres no mercado de trabalho é um dos principais problemas que as empresas precisam resolver para essa gestão?

As questões de diversidade, bem como as de sustentabilidade, afetam diretamente a competitividade das empresas. A participação das mulheres e outras minorias nos conselhos de administração e gestão organizacional é pré-requisito para a sobrevivência da instituição a médio e longo prazo. Do ponto de vista da oportunidade, a diversidade de perspectivas permite aos negócios atenderem a mercados diversificados e clientes com necessidades distintas, ampliando o alcance e a riqueza do empreendimento. Com o alto nível de interesse na agenda internacional, em breve teremos mais e melhores requisitos sobre esse tema. O mais importante é aceitar que os níveis de transparência exigidos, seja para os aspectos ambientais, sociais ou de governança corporativa, serão cada vez mais altos. Para atrair qualquer investimento, as empresas precisam reconhecer e incorporar esses conceitos no nível mais profundo: sua razão de existir.

Tudo o que sabemos sobre:
educação

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.