Escravos do plantão

Disputa por vagas e dura jornada de trabalho marcam a residência médica

Bruna Tiussu, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2009 | 05h00

Cortar o cabelo, pagar contas ou, ironicamente, ir ao médico são tarefas bem complicadas para Thiago Moraes, de 27 anos, que está no 3º ano de residência em Reumatologia da Faculdade de Medicina da USP. Etapa mais puxada da formação médica, a residência tem carga horária de 60 horas semanais além dos plantões obrigatórios, que variam de um hospital para outro. "Tem gente que não aguenta o ritmo, precisa de café, Coca-Cola, energético", diz Moraes, que praticamente "mora" no Hospital das Clínicas.   A residência é a especialização da Medicina. Não é obrigatória, mas é raro o recém-formado não fazê-la. Dura de 2 a 4 anos e as vagas são disputadas em concurso público. A relação candidato/vaga é, em média, 10 e pode chegar a 30 em especialidades mais lucrativas, como Radiologia. "É pior que vestibular. A pressão é tanta que, 20 dias antes da prova, me isolei no interior", diz Gustavo de Barros, de 26, residente do 1º ano na Otorrinolaringologia da USP.   Os residentes dão consultas, fazem instrumentação em cirurgias e plantões – de 12 horas em dias úteis e de 24 h nos fins de semana. "Servia na Aeronáutica como tenente, trabalhava um quinto do que faço agora no hospital para ganhar o triplo. O que mais quero é que a residência acabe logo", afirma Barros.   Segundo Moraes, no HC não se trabalha mais do que as 60 h semanais – o desrespeito à jornada já provocou cobranças do Sindicato dos Residentes a faculdades. Mas o baixo valor da bolsa, de R$ 1.704, leva residentes a buscarem meios de ganhar um extra, o que deixa a rotina mais pesada. "Damos plantão noutros hospitais." Apesar de tudo, ele diz que a residência é muito gratificante. "É incrível: com um bom papo e dois comprimidos você já ajuda uma pessoa."   Rotina de residente   Gustavo de Barros, residente do 1º ano na Otorrino   5h15: Acordo, me arrumo e vou para o HC de carro – no meu caso sai mais barato que de metrô. Paro na rua para economizar 6h30: Visito os pacientes internados na enfermaria, tenho só meia hora para isso 7 h: Já no ambulatório, começa a primeira reunião da equipe da Otorrino, para discutirmos os casos. O bom é que temos muita liberdade para falar com os superiores 9 h: O resto da manhã é para resolver coisas, fazer prontuários. O residente do 1º ano, R1, é quem toca o serviço, tudo cai em cima de você 11 h: Outra breve reunião para falar dos casos 12 h: Tenho uma hora de almoço, daquele jeito virtual. Eu como no restaurante daqui, que, apesar de ruim, é de graça e consigo almoçar em 15 minutos. Desde o começo da residência já emagreci 6 quilos 13 h:Volto para o ambulatório para começar as consultas do dia 14 h: Atendo uns dez pacientes. São casos de rinite alérgica, ronco, apnéia do sono, pessoas com tontura e zumbido e muitos casos de infecção 16 h: Vira e mexe aparecem casos raros, tumores complexos. Todos querem se tratar aqui porque é onde estão os melhores do País. Vemos coisas aqui que nunca mais veremos no consultório 18 h: Hora de apresentar seminário para os demais residentes. Fazemos dois por semana 19 h: Corro para o PS, é a hora em que meu plantão começa. Fico no ‘muquifo’, quartinho da Otorrino que tem um beliche 21 h: Não passo uma noite sem ser chamado para atender alguém. Muitas vezes é por alguma bobagem, desço pê da vida 1 h: Chega gente de mala e cuia, sem ter para onde ir, e às vezes arrumamos um canto no corredor. Não é um tratamento humano, mas o SUS faz o que dá 7 h: Fim do plantão. São 36 horas trabalhando direto. Acaba com o ânimo de qualquer pessoa.   Thiago Moraes, residente do 3º ano na Reumato   6 h: Este é o horário em que eu acordaria, caso dormisse. Com tantos plantões, normalmente não durmo 7 h: Visito meus pacientes internados, são quatro sob minha responsabilidade. Não é muito, na residência de Clínica Médica chega a ser 20 por pessoa 8h30: Sigo as visitas nos leitos acompanhado de três médicos assistentes, que me ajudam a decidir as condutas do dia. Nós, residentes, não tomamos decisões sozinhos 9h30: Até o almoço é o tempo que tenho para resolver coisas, pedir exames e fazer biópsias. A gente entra na residência ainda muito cru e é impressionante como aprendemos muita coisa em tão pouco tempo 12 h: Hoje em dia consigo almoçar, a R3 é mais tranquila, na residência de Clínica isso quase nunca acontecia. Me viro na lanchonete daqui porque o restaurante é horrível, não dá 13 h: Começo a atender no ambulatório, são uns dez pacientes por tarde. Atendo em uma salinha de uns 5 por 3 m², que tem o básico: uma maca, pia, mesa com computador e todos os papéis de formulário.Hoje, terça, é dia do tratamento de lúpus, um dos mais lotados 15 h: Veio a Helena, uma paciente que tem lúpus com atividade no sangue e estava com manchas na perna e a gengiva sangrava. Caso assim é de internação 17h30: Saio do HC e vou para São Bernardo 19 h: Dou plantão remunerado no Hospital de São Bernardo, afinal tenho que pagar as contas e juntar uma grana. Cada plantão de 12 horas vale cerca de R$ 550,00. Esta semana tenho seis, mas a média é de três e um final de semana livre por mês 22 h: Fico responsável por 40 pacientes da enfermaria. O plantão obrigatório da residência do HC também é na enfermaria, mas lá cubro a Reumato, Geriatria, Gastro, Endocrino e Imunologia. Ao menos temos um quartinho com cama, ar-condicionado, tv e frigobar. A Reumato é top no HC 2 h: Não durmo, vou ficar aqui até as 7 h mas já me acostumei. Não sofro muito com o sono, mas tem gente aqui que não aguenta.

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