27/01/2022
27/01/2022

Escolas de SP reveem regras para afastar alunos após caso de covid na turma

Secretário Rossieli e colégios particulares dizem que o protocolo agora é de isolar apenas o aluno infectado

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2022 | 05h00

Em uma tentativa de não inviabilizar a volta às aulas neste terceiro ano de pandemia, escolas públicas e particulares de São Paulo têm flexibilizado os protocolos no combate à covid-19. Nesta quarta-feira, 2, primeiro dia de aulas da rede estadual, o secretário de educação Rossieli Soares disse que a orientação é “não fechar mais turmas por conta de um ou dois casos e observar se é caso de surto”. Colégios privados de elite também mudaram suas diretrizes para ter menos interrupções.

O Colégio Santa Cruz, na zona oeste, mandou nesta quarta-feira novas orientações para os pais sobre suspensão de turmas. Diferentemente do que ocorria até então, o grupo ficará isolado só “a partir do 2º caso positivo na mesma sala, em um período de 7 dias”, diz o comunicado.

Segundo o diretor do Santa Cruz, Fabio Aidar, a mudança foi decidida pela direção depois de avaliação do comitê de saúde que tem a participação dos especialistas Caio Rosenthal e Mário Scheffer. Seguindo as novas recomendações do Ministério da Saúde, o comunicado diz ainda que "o retorno pode ser antecipado para o 6º dia mediante testagem negativa a partir do 5º dia, desde que não apresente sintomas".

“O que sabemos é que contaminação das crianças se dá em casa e atividades sociais e não na escola, se todos os cuidados forem usados, higiene, máscara, ventilação”, diz o coordenador da saúde escolar do Hospital Sírio Libanês, Ricardo Fonseca. Na consultoria que o hospital faz para escolas, há a recomendação também de não afastar uma turma após o primeiro caso de covid. “A gente acompanha, monitora, para não fechar sem motivo e prejudicar o ensino.”

Segundo Rossieli, as turmas só serão isoladas na rede estadual se houver surto. “Vai ser analisado caso a caso, vamos avaliar quais são os contactantes”, disse. “O maior risco para a criança é ficar fora da escola”.

O Colégio Vera Cruz, também na zona oeste, tem a mesma postura. “No ano passado, em todos os casos de covid, não houve transmissão interna. Ainda mais considerando o contexto diferente da pandemia, com alunos vacinados e ausência de restrições de circulação”, diz a diretora Regina Scarpa. No Colégio Itatiaia, que tem oito unidades, a turma vai para a casa quando há mais de dois casos. “Se apenas uma ou duas crianças testarem positivo, elas são afastadas e poderão fazer as atividades na plataforma, mas não vai haver a aula em tempo real”, afirma a diretora Adriana Iassuda Nogueira.

As escolas têm levado em consideração pesquisas que mostraram que a educação não é uma área em que há grande trasmissão de covid, desde que mantidos os protocolos. Diferentemente de ambientes como bares, restaurantes e festas, por exemplo.

Organismos internacionais também têm alertado para os prejuízos das crianças fora da escola ou com ensino remoto durante a pandemia no mundo todo. Pesquisa divulgada recentemente pela Unesco em 11 países mostrou que mais de 50% dos professores consideraram que os estudantes não avançaram para os níveis esperados nesse período. Há ainda alertas para graves perdas emocionais e sociais.  

 

No Colégio Bandeirantes, quando aparece um segundo caso de covid numa sala, há uma avaliação com a equipe consultora do Sírio para decidir o que fazer. No primeiro infectado, a sala permanece. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), Artur Fonseca Filho, a tendência agora é que as escolas não migrem imediamente para o online quando há um infectado. O colégio deve acompanhar o aluno, mas o restante da turma continua. "Neste começo de ano, as crianças estão ainda conhecendo o professor, uma interrupção pode ser um desastre", diz.

O epidemiologista Wanderson Oliveira, que fez parte do Ministério da Saúde e assessora escolas, acredita que o conhecimento adquirido nesses dois anos de pandemia levou à mudança de protocolos. “Não há mais sentido colocar toda a sala de aula em isolamento. Quando se identifica o primeiro caso sintomático ou contato de sintomático (pais infectados), é o melhor momento da testagem da sala. Caso não esteja disponível a testagem, se isola o caso sintomático”, diz.

Para ele, a vacinação dos profissionais, crianças e adolescentes, a manutenção do uso de máscaras e a higienização ajudaram a mudar o quadro. “A escola é um ambiente seguro.”

Em janeiro, houve explosão da demanda por testes com o espalhamento da variante Ômicron no País. Muitas prefeituras ficaram sem estoque, hospitais privados e farmácias tinham fila para a testagem.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na sexta-feira, 28, a liberação de autotestes de covid-19 no Brasil. A expectativa de entidades do setor é de que o produto chegue ao mercado só em março - é preciso ainda que cada empresa interessada peça à Anvisa registro de seus produtos.

Por causa da escassez de testes e valor alto na rede privada, alguns especialistas acreditam que é mais seguro afastar todos que tiveram contato com a pessoa infectada. Cleber de Moraes Motta, consultor médico de projetos em saúde do Hospital Albert Einstein, diz que o grupo de alunos só não precisa ser isolado se o colega ou professor que testou positivo não esteve na escola dois dias antes ou até 10 dias após o início dos sintomas.

 

Rossieli ainda afirmou nesta quarta-feira, 2, que as crianças e os professores não devem deixar de ir à escola quando tiverem apenas um sintoma relacionado à covid. “Não pode ser, estou com dor de cabeça, então eu sou sintomático de covid, não, não é. Eu tenho dois sintomas daqueles que são ditos como da covid, aí você não deve ir obviamente à escola, especialmente até fazer o teste.

O coordenador do centro de contingência ao coronavírus do governo de São Paulo, Paulo Menezes, concordou com o secretário Rossieli em coletiva. “Dois sintomas são necessários para levantar suspeitas e fazer isolamento e testagem, alguns sintomas são tão inespecíficos que as pessoas apresentam por diversas razões.”  

Os protocolos das escolas, no entanto, feitos sob orientação médica, reforçam aos pais desde o início da pandemia que deixem os filhos em casa ao primeiro sinal de sintoma. 

No exterior, muitos países deixaram de determinar o isolamento de turmas que tenham casos de covid. Segundo o protocolo do Reino Unido, crianças acima de 5 anos que tiveram contato com alguém infectado devem fazer testes diariamente durante 7 dias e “continuar a ir para a escola, a não ser que teste positivo”. Os alunos não precisam ficar em bolhas separadas nem usar máscaras. Os testes são disponibilizados gratuitamente pelo governo. Além disso, professores e estudantes mais velhos precisam fazer auto-testes em casa regularmente, com intervalos de 3 a 4 dias.

Nos Estados Unidos, os auto-testes passaram recentemente a serem altamente recomendados em caso de colegas de alunos infectados com covid. O Centers for Disease Control (CDC), órgão de controle de doenças no País, recomendou a política chamada test-to-stay (teste para ficar) nas escolas. Ela substituiu as quarentenas impostas no passado às crianças que estudavam numa mesma sala de um colega infectado. Os Estados fornecem testes gratuitamente, mas já há casos de falta de produtos. /COLABOROU RENATA OKUMURA

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