JF Doria/Estadao
Aluna da Prefeitura de São Paulo, Monique participa do programa Imprensa Jovem: ‘Posso escrever sobre tudo, até críticas à escola’ JF Doria/Estadao

Escolas propõem aulas sobre mídia e fake news

Educomunicação ensina alunos a analisarem de forma crítica os bastidores da produção de conteúdo digital

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especiais para o Estado

12 de outubro de 2019 | 06h00

Em um projeto pedagógico de educomunicação, esta reportagem seria discutida assim: a ideia do texto partiu de uma reunião de pauta, foi apurada e escrita por um repórter após conversas e pesquisas, as imagens foram registradas por fotógrafos de acordo com os contextos, um editor organizou a forma mais apropriada de encadear as informações e, por fim, o resultado pode visto em papel e na internet.

Analisar os bastidores de como se produzem informações e não apenas a mensagem em si é uma das atividades da educomunicação, também conhecida como Alfabetização Midiática e Informacional (AMI). Trata-se de uma proposta que estuda como os veículos de produção e transmissão de informações operam, para fomentar o pensamento crítico dos alunos em relação às mais diversas mídias.

Embora o termo tenha surgido em meados da década de 1970, o atual milagre da multiplicação da informação - são 3 bilhões de usuários em redes sociais - mostra como o tema é urgente nas escolas. Dados do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) alertam que fake news têm 70% mais chance de “viralizar” do que notícias verdadeiras. As mentiras mais compartilhadas são sobre política, mas também se destacam temas como terrorismo, desastres naturais, ciência e informações financeiras.

“Primeiro, precisamos conscientizar nossos estudantes sobre a existência das fake news. Depois, mostramos como são construídas e, por fim, mostramos como eles podem checar se uma informação é confiável ou não”, explica Marcelo Milani, coordenador de Tecnologias Educacionais do Colégio Humboldt, localizado na zona sul de São Paulo.

Por lá, os alunos do ensino médio participam de um projeto sobre manipulação de informações. A partir da seleção de notícias falsas que ganharam destaque na rede, os educadores mapeiam os recursos e os truques usados para a construção das fake news. Foi tema de estudo, por exemplo, a falsa notícia de que graviola cura câncer. “Ao entender como é o processo, nosso aluno consegue se proteger”, resume Marcelo.

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Mostramos como as fake news são construídas e como checar se a informação é confiável ou não
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Marcelo Milani, coordenador de Tecnologias Educacionais do Colégio Humbold

Sem amarras

Neste mundo polarizado, afirmam os educadores, ensinar a proteger-se de fake news é também estimular a busca pela informação verdadeira - mesmo que essa não endosse algum ponto de vista individual - e o respeito pela diversidade de opiniões.

Por isso, uma das estratégias pedagógicas para abordar a educomunicação é propor uma análise constante das múltiplas abordagens sobre os assuntos. “O desafio do professor que trabalha o estudo da mídia é fazer uma boa curadoria, levar vários pontos de vista para oferecer elementos para o aluno formar o próprio senso crítico”, explica Verônica Martins Cannatá, coordenadora de tecnologia educacional do Colégio Dante Alighieri.

Por lá, os alunos do ensino fundamental e médio participam de uma oficina que transformou um ônibus escolar em estúdio móvel. Com ele, os alunos vão para as ruas, encontram as pautas e depois produzem as notícias. 

“Depois que comecei nesse projeto, vejo as notícias de outra forma. Consigo entender melhor o que as reportagens falam. E, além disso, percebi que passei a ler muito mais”, conta Tiago Fares Menhem, de 11 anos, estudante do 6.º ano. Como seu principal interesse é a produção visual - ele se interessa por técnicas de fotografia e captação de vídeos -, o aluno fez a cobertura de alguns eventos da escola, como a feira de ciências e uma arrecadação de alimentos para imigrantes.

Em tempo de polarização e de descrença da imprensa, o projeto do Dante propõe um olhar mais analítico. “Ao botar o estudante como produtor de conteúdo, ele entende o processo e refina sua avaliação sobre o que merece ou não credibilidade. O professor tem a tarefa de fazer essa articulação”, afirma Verônica.

Programa premiado

Com objetivos claros e ferramentas simples, um projeto de educomunicação pode ser implementado em grande escala. Em São Paulo, a rede municipal de Educação criou em 2015 o programa Imprensa Jovem. Atualmente, 200 escolas de ensino fundamental da cidade têm uma agência de notícias.

“Produzimos matérias com assuntos de interesse dos estudantes, principalmente com temas que tenham a ver com os locais em que vivem”, explica o professor Carlos Alberto Mendes de Lima, coordenador da proposta. Cada escola tem ao menos 20 estudantes que se dedicam dez horas semanais ao projeto. Os educadores envolvidos recebem capacitação específica, como cursos de rádio, fotografia e leitura crítica da mídia. 

A proposta chamou a atenção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que convidou Lima a apresentar o projeto no Global Media Information Literacy Week 2019, evento neste mês em Gotemburgo, na Suécia. Uma das ações abordadas será a da escola Dr. Afrânio de Mello Franco, no extremo sul da capital.

Lá, os alunos desenvolveram um jornal, disponível em formato impresso e digital, organizado em várias colunas com assuntos de interesse da comunidade escolar. Os temas vão de corriqueiros, como dicas de filmes, a mais complexos, como o combate a situações de assédio. Como em uma redação comum, são feitas reuniões de pautas e definidos quem serão os repórteres para escrever as matérias, os fotógrafos e os responsáveis pela produção dos vídeos.

Todos partem para o trabalho depois de terem participado de oficinas sobre técnicas de produção jornalística. E, como se espera de um bom veículo de comunicação, a liberdade de expressão é garantida. “Posso escrever sobre tudo, até mesmo fazer críticas à escola”, conta Monique Sampaio da Silva, de 14 anos, aluna do 8.º ano do ensino fundamental. “Recentemente, por exemplo, fiz uma matéria sobre a necessidade de investir em mais acessibilidade para cadeirantes.”

O tema escolhido por Monique - um problema local - reflete uma realidade que também é global e indica que o senso crítico da estudante está afiado para dar conta do que está por perto e do que vem sabe-se lá de onde, neste mundo em que as notícias se multiplicam e se espalham, principalmente as falsas. 

3 PERGUNTAS PARA

Vitor Blotta, professor doutor do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

1. Quais são os benefícios da educomunicação?

De forma mais ampla, o próprio fortalecimento da democracia. Para que tenhamos garantida a participação, precisamos ter uma boa comunicação dos direitos em espaços sociais e canais de mídia e, ao mesmo tempo, garantir o acesso a informações produzidas pelas agências estatais, escolas e governos. Nas escolas, a educomunicação oferece a possibilidade de requalificação dos ambientes, para fomento da cidadania. Algumas graduandas do curso de Educomunicação da USP e eu atuamos em uma escola na qual havia ocorrido vazamento de fotos íntimas de uma estudante. Fizemos oficinas de cidadania digital, abordando a propagação de dados. Discutimos a questão dos direitos e produzimos um vídeo sobre cyberbullying com os alunos.

2. Quais são os próximos passos a serem dados?

Acho fundamental conhecer os modos de produção de informação e circulação das mídias mais acessadas, com transparência sobre os usos de dados. Seria um direito conhecer os algoritmos. Sem entrar no aspecto da programação, mas de entender como essa tecnologia usa nossos dados. Assim, poderíamos exigir das empresas e do poder público políticas claras que coibissem a violação de direitos e privacidade. Conhecer a forma de processamento de informações é uma forma muito efetiva para compreender a diferença entre informações com erros e as realmente enganadoras.

3. Quais são as melhores formas de explicar fake news?

Acho interessante não fazer somente atividades sobre checagem e crítica da mídia. Há questões sobre verificar as fontes, éticas e técnicas jornalísticas que precisam ser socializadas com os estudantes. Em vez de só refutar informações falsas, é importante estabelecer iniciativas de produção de novas histórias e relatos em proximidade com a pesquisa científica. Para os alunos, isso pode significar levar em conta histórias de vida, formação dos bairros, conhecimento de história e de direitos em contextos locais.

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'Escolas devem juntar idiomas com cidadania'

Para Walkyria Monte Mor, planos pedagógicos precisam rever ensino de línguas, da formação do professor ao olhar sobre o aluno na sua comunidade

Alex Gomes e Ocimara Balmant, Especiais para o Estado

12 de outubro de 2019 | 15h00

Nem a ideia de se virar em uma viagem ao exterior nem a garantia de sobreviver no mundo globalizado. Aprender um idioma na escola deve ser um convite a entender o outro e a forma como ele constrói suas comunicações, interações e culturas. A opinião é de Walkyria Monte Mor, professora livre docente da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora adjunta do Center for Globalization and Cultural Studies da Universidade de Manitoba.

“Os planos pedagógicos das escolas devem rever os objetivos dessa aprendizagem na educação básica, integrando o ensino de línguas a um projeto de formação cidadã e crítica. Isso implica, entre outros pontos, repensar a formação do professor e considerar as linguagens e culturas dos alunos em suas comunidades, ou seja, não tratá-las com uma 'hierarquia vertical'."

Leia a entrevista completa:

Que métodos são os mais indicados para o ensino de idiomas na educação básica?

A questão do método tem sido considerada central por décadas. No entanto, os atuais programas de formação de professores de línguas relativizam essa premissa. Conhecer métodos é muito importante e contribui para o ensino de línguas, mas sozinhos não são responsáveis pelo sucesso ou insucesso. Isso porque tem havido um novo olhar sobre o objetivo desse aprendizado. Antes, ao explicar aos alunos por que deveriam aprender uma língua estrangeira, o professor dizia: “porque você pode algum dia viajar para o estrangeiro”. Recentemente, a resposta frequente tem sido: “porque inglês é o idioma da globalização”. Entretanto, num escopo amplo da educação básica, essas justificativas não respondem ao percurso de vida da maioria dos alunos. Por isso, na revisita, ganha maior atenção o fato de que o aprendizado de um idioma representa uma experiência com o “outro”. Esse conhecimento pode ampliar a visão de mundo do aluno, sobre como esses outros constroem suas comunicações e interações, promovendo maior possibilidade da compreensão sobre diferenças linguísticas, culturais e sociais e uma atitude de convivência com o diferente.

Um dos desafios do ensino de idiomas nas escolas é a mescla de alunos com diferentes níveis de proficiência na mesma sala, ao contrário dos cursos de línguas. Como lidar com isso?

curioso verificar que, em algumas questões, os planos de ensino das escolas veem nos cursos de idiomas um exemplo a ser replicado. Esse nivelamento de conhecimento tem sido uma das características fortes desses cursos, cujos objetivos são diferentes da educação básica. Hoje, na formação docente, entender a heterogeneidade como fator constituinte dos grupos de alunos passa a ser imprescindível. E desenvolver procedimentos nos quais o aprendizado colaborativo incorpora as diferenças é fundamental. A heterogeneidade é o que há de mais “natural” nas relações humanas. A homogeneidade é uma “construção social”. Na prática, em uma abordagem por meio de projetos, por exemplo, é possível que os alunos aprendam tendo conhecimentos diferentes. 

Você acredita que professores nativos de outros países são um diferencial para o aprendizado?

Não necessariamente. Algumas pesquisas indicam que a familiaridade com a cultura e o idioma dos aprendizes contribui muito para a promoção do ensino. A ideia do “falante nativo” foi muito presente em outros momentos da discussão acerca do ensino de línguas no Brasil, quando se buscava que o aprendiz se aproximasse ao máximo do modelo do “falante nativo”. Esse pensamento ainda é comum entre alunos e famílias. Mas, com os estudos sobre colonialidade e descolonialidade no Brasil, essa visão tem sido reinterpretada. Espera-se que um professor saiba bem o idioma estrangeiro que ensina, sem que precise “se tornar um falante nativo”. Essa visão tem sido grandemente debatida e questionada até porque diz respeito ao sentimento de colonialidade que pode estar subjacente a essa perspectiva.

O que escolas não devem fazer no ensino de outro idioma?

Acho que os planos pedagógicos das escolas devem rever os objetivos dessa aprendizagem na educação básica, integrando o ensino de línguas a um projeto de formação cidadã e crítica. Isso implica, entre outros pontos, repensar a formação do professor e considerar as linguagens e culturas dos alunos em suas comunidades, ou seja, não tratá-las com uma “hierarquia vertical”.

Sugerir intercâmbios aos alunos é uma prática comum. Realmente é eficaz?

Não os vejo como prioridade na formação educacional, quando se considera o quadro de desigualdades no Brasil. Mas podem contribuir, se bem planejados. Lembrando que os resultados não são os mesmos para todos.

Como vê o uso de tecnologias no aprendizado de um idioma?

Com otimismo e cautela. Acompanho trabalhos muito interessantes, não só na área de aprendizado de línguas, mas na área de letramento de pessoas que residem em regiões de difícil acesso à escola. Na área de línguas, há pesquisas de intercâmbio de aprendizado entre estudantes de países diferentes em que um brasileiro e um italiano, por exemplo, se propõem a aprender as respectivas línguas, via contato por softwares como Skype, acompanhados por um pesquisador. Por que cautela? Por outras pesquisas. Muitos casos que analisei tratavam do que chamo de “tecnologia pela tecnologia”. Propõem dar as mesmas aulas, porém com tecnologia. Isso soa como uma forma de ter a atenção dos alunos, que gostam de manusear e interagir com o digital. No entanto, os resultados têm sido insatisfatórios, considerando-se o potencial do letramento digital.

O que os pais devem avaliar sobre o ensino de línguas na escola? 

A avaliação deve ser qualitativa. Se os pais acompanhavam os filhos pela sequência de ‘syllabus’ que sabiam, muitas vezes estudados segundo uma sequência verbal: to be, going to, presente simples, presente contínuo, passado simples. Dentro da proposta revisitada, o conhecimento dos alunos é avaliado pelo que sabem fazer com o idioma.

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Questionada, lição de casa ganha novos formatos

Tarefa já é feita em ambiente virtual em algumas escolas. Professores têm proposto temas para estimular os alunos

Alex Gomes, especial para o Estado

15 de outubro de 2019 | 07h30

SÃO PAULO - Por muito tempo, lição de casa foi assunto polêmico apenas dentro da sala de aula, com a molecada torcendo para só daquela vez o professor se esquecer de avisar sobre o dever a ser entregue no dia seguinte. Já há alguns anos, no entanto, a discussão mudou de rumo. Estudiosos se debruçaram sobre o assunto e avaliaram questões como as novas configurações familiares - com todos os membros no mercado de trabalho e menor tempo de convívio diário - , a permanência estendida na escola e a função pedagógica dessa prática.

O que tem se mostrado como tendência é o caminho do meio: nem a abolição da lição de casa nem a manutenção de atividades nos moldes antigos. Para atrair os estudantes e se mostrar eficaz no processo de aprendizagem, a atividade precisa falar na linguagem que o aluno gosta (e ele gosta de ferramentas digitais) e tratar de temas que o instiguem.

“Não enxergamos quantidade de lições como uma meta ou como qualidade de trabalho, e sim como ela compõe o processo de formação e autonomia”, comenta Rafael Martins, coordenador-geral da Escola Bakhita, na zona oeste de São Paulo.

A forma que a escola encontrou de fazer isso foi aplicar as “trilhas educativas”, atividades em que é definido um eixo de pesquisa com formas livres de execução, de forma a valorizar o protagonismo do estudante.

“Eles podem realizar entrevistas no espaço público ou com familiares, visitar instituições que contribuam com o tema investigado ou pesquisar algum material para alimentar a discussão”, explica Martins. “Em todo o tempo, têm papel ativo no percurso. Sem qualquer resquício do que a gente entendia de lição de casa.”

No extremo leste da capital paulista, o professor Anderson Reis Félix segue a mesma receita na Escola Municipal Virgílio de Mello Franco, onde leciona Geografia. Na rede pública que tem a tarefa de casa como atividade obrigatória, o desafio dele foi fazer desse momento um dos favoritos dos adolescentes. Ele criou um roteiro de estudos, sugeriu um tema e propôs aos alunos que desenvolvessem o assunto da maneira que considerassem, sem seguir o padrão de responder um questionário dado. A cada encontro, os alunos retornam com as dúvidas e, a partir delas, as tarefas são organizadas.

“São novos tempos que exigem novas propostas. Ao fazer a lição de casa, o aluno deve ser posto como pesquisador. Esse deveria ser o nosso objetivo”, afirma o professor, fundamentado em dados.

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São novos tempos que exigem novas propostas. O aluno deve ser pesquisador
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Anderson Reis Félix, professor da Geografia da rede pública na capital

Recentemente, questionados em assembleia sobre que práticas mais ajudaram na aprendizagem, os alunos citaram o roteiro de estudos como a melhor forma de aprender os conteúdos trabalhados em sala de aula. 

No computador

Se o tempo que os estudantes passam fora da escola é gasto boa parte dele em bate-papos virtuais, por que não tirar proveito desse cenário para trabalhar a lição de casa? A proposta privilegia os meios de comunicação favoritos dos alunos, e ainda é possível usar a tecnologia para o desenvolvimento de habilidades importantes, como o trabalho em equipe e a colaboração.

Na Escola da Vila, por meio de fóruns virtuais com a plataforma moodle, as lições definidas pelos professores ganharam um caráter colaborativo.

“O fórum motiva a interação, leva os alunos a trocarem ideias enquanto executam as tarefas, explicando os assuntos uns aos outros”, afirma Celina Martins, coordenadora do Fundamental 2 das unidades Butantã e Morumbi, na zona sul de São Paulo.

Não à toa estar em contato com os amigos é a parte favorita da atividade para muitos, como afirmam Dora Sardenberg, Isabela Abrahão e Sofia Ludovico, todas do 6.º ano.

“Ao vermos o que os outros publicam, construímos melhor nossos argumentos”, diz Dora.

“As atividades ficam mais organizadas, com a possibilidade de sermos notificados quando alguém acrescenta algo aos fóruns”, afirma Isabela.

“E tudo sem gastar papel, valorizando a sustentabilidade”, lembra Sofia.

Já os estudantes um poucos mais velhos, como Ana Luiza Almeida, João Moraes e Andrea Garcia, no 9.º ano, ressaltam outros trunfos do ambiente virtual.

“O que desenvolvemos fica registrado de uma forma facilmente acessível, na nuvem. É mais fácil de recorrer e lembrarmos”, comenta Ana.

Para Andrea, a agilidade é o maior benefício da plataforma.

“Temos as respostas instantâneas para algumas tarefas, o que ajuda a perceber na hora como está o desempenho.”

Já João ressalta a possibilidade de as tarefas serem ampliadas, ultrapassando os limites físicos da escola.

“Podemos interagir com alunos de outras unidades da Escola da Vila, o que cria trabalhos com múltiplos pontos de vista.”

Entrevista

3 perguntas para Silviane Irulegui Bueno, pedagoga e autora da dissertação Deveres de Casa: Para Quê, Para Quem?, defendida na Universidade Federal de Santa Catarina

1. Nos últimos anos, o tema lição de casa tem despertado muita polêmica. Enquanto algumas escola aboliram a atividade, a maioria das redes públicas ainda prevê a obrigatoriedade. Qual é o modelo ideal?

Não concordo com a eliminação, concordo com a função pedagógica da tarefa de casa. Não pode ser só para cumprir um protocolo ou preencher o tempo. É importante ressaltar que ela complementa o aprendizado. O estudante recebe as informações em sala de aula e, em casa, sozinho, vai se defrontar com o que sabe, com o que precisa buscar. Assim precisa pesquisar, é um momento complementar para construção de estudo. Daí que se faça com diversos recursos, seja com apostilas e livros até aplicativos.

2. Muitas famílias mostram desconforto ou por não terem tempo de participar da atividade ou por julgarem a lição de casa muito complexa. O que fazer em relação a isso?

A tarefa de casa diária é do aluno, se envolver a família deve ser com um tempo maior. Agora, se ele não entendeu ou não soube o que é para fazer, a falha foi da escola. A tarefa pode estar bem construída, mas talvez não tenha sido explicada como deveria. Aliás, parto do princípio que a tarefa de casa não pode ser passada no fim da aula, tem de ter tempo para ser explicada. Para incrementar, há escolas trazendo a tarefa de casa para suas atividades cotidianas, ou seja, para serem feitas na escola, no contraturno ou após a aula. Tem de se discutir a maneira de proporcionar o melhor para a atividade.

3. As atividades extracurriculares podem representar um desestímulo a execução de lições de casa?

Uma atividade extracurricular como dança, judô, inglês, dependendo da abordagem, pode ser mais prazerosa do que a lição de casa. Além disso, é preciso não sobrecarregar a criança com atividades. Alunos dizem: ‘Não fiz a tarefa porque não deu tempo’. A escola e a família têm de conversar um pouco mais sobre o tempo da criança.

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Inteligência artificial nos colégios

Tecnologia é usada para prevenção e resolução de problemas da comunidade escolar

Alex Gomes e Ocimara Balmant, Especiais para o Estado

13 de outubro de 2019 | 08h00

SÃO PAULO - No começo, trocou-se o quadro negro e o giz pela lousa digital. Depois, a caderneta de presença e notas virou planilha de Excel. Agora, quando chega à escola a geração que já nasceu deslizando o dedo nos smartphones, é a vez da inteligência artificial. Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou em 2018 que parte significativa da produção científica na área está relacionada ao tema da Educação.

Na Escola Bosque, na zona sul de São Paulo, a inteligência artificial foi a solução para lidar com um problema que ganhou amplitude no cotidiano digital: o cyberbullying. Com o auxílio da empresa Big Brain, a escola fez um chatbot em que alunos e professores ajudaram a definir o que deveria ser abordado. Criou-se uma base à qual o robô recorre para responder questões feitas por toda a escola, para esclarecer o que caracteriza um assédio virtual.

“Quando não encontra uma resposta adequada, o chatbot envia a dúvida ao coordenador, que alimenta a base de conhecimento”, diz Ronei Pasquetto, diretor de Serviços da Big Brain. A ferramenta consegue captar reações que demandem atenção e possam não estar explícitas nas perguntas. “Se percebe que o aluno se sente amedrontado ou inseguro, por exemplo, o bot consegue encaminhar para um aconselhamento ou uma tutoria.”

No colégio Perfil, no município de Lauro de Freitas, a 40 quilômetros de Salvador, a ferramenta digital Geekie One é usada para desenvolver roteiros individualizados de aprendizagem no ensino médio. Os dados são gerados por learning analytics, que medem o aprendizado. “O professor tem o trabalho facilitado, com a clareza do que deve ser abordado para cada aluno, de que forma e quando. E o aluno se torna mais autônomo, com a praticidade de ter todo material adequado às necessidades em um só dispositivo, já familiar para a juventude digital”, diz Zélia Fonseca, coordenadora pedagógica do colégio.

Em Fortaleza, o Colégio Ari de Sá Cavalcante adotou desde 2016 o game Tarefa On-line, da plataforma SAS Educação, para avaliação do 4º ao 9º ano do fundamental e no 3º ano do ensino médio. O jogo aplica exercícios selecionados pelo sistema conforme “percebe” o nível do aluno. “O estudante exercita seu conhecimento de forma divertida”, diz Luciana Colaço, diretora de Ensino. “Ao mesmo tempo, o sistema envia para os professores relatórios de desempenho individual e coletivo, o que o possibilita criar estratégias de desenvolvimento mais precisas.” Os alunos se engajaram mais: as notas de quem usa o game são 18% maiores do que as dos que fazem provas tradicionais.

Criação

Enquanto a inteligência artificial vem mudando o cotidiano das escolas, a robótica repaginou os antigos laboratórios de informática. Ganharam até novo nome: espaços makers. Neles, os alunos desenvolvem projetos que vão de protótipos que se movem sozinhos a estruturas que podem virar modelos de negócios. 

Na zona leste de São Paulo, os alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Visconde de Cairu criaram uma miniatura de parque de diversões, com brinquedos como roda gigante e carrossel controlados por computador. A iniciativa surgiu após uma visita do grupo, com turmas do fundamental 1 e 2, a um parque na região. “Eles ficaram impressionados. Quiseram entender a lógica de funcionamento das atrações montando réplicas”, diz Josiana Lima, professora que acompanhou o projeto. Para dar vida ao parque dos alunos, foi usada a plataforma Arduíno, conjunto de ferramentas de prototipagem que se tornou popular pelo modo simplificado que permite criar aparelhos eletrônicos.

Para Josiana, os ganhos com o espaço maker da escola vão além do aprendizado em disciplinas como Ciências e Matemática, necessárias para desenvolver as ideias: “O mais interessante é unirmos crianças de diversas faixas etárias e vê-las produzir conhecimento e compartilhar suas visões de mundo. É uma forma de vencer o estigma de atraso que muitos atribuem à escola pública”. 

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Com exemplos do dia a dia, escolas ensinam alunos a lidar com o dinheiro

Iniciativas inovam nas aulas de educação financeira e, de quebra, aproveitar para instigar o interesse pela Matemática

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especiais para o Estado

14 de outubro de 2019 | 07h00

SÃO PAULO - Um passeio pelo setor de achados e perdidos da escola. Foi essa a forma que os educadores do Colégio Guilherme Dumont Villares encontraram para incentivar os alunos do 6.º ano do ensino fundamental a refletir sobre o custo de seus pertences. Lá, listaram os tipos de objetos acumulados, como uniformes e materiais. Em seguida, foram levados para a lojinha do colégio e conferiram os valores de cada item. Assim, conseguiram mensurar os prejuízos.

“Os alunos estabeleceram uma relação do valor dos itens perdidos e de quanto isso representava na mensalidade. Daí tabularam e fizeram gráficos, podendo ver de forma clara o quanto quem não tomava cuidado com os objetos perdia em dinheiro”, explica Angela Fonseca, diretora do colégio. 

Iniciativas como essa mostram formas de inovar nas aulas de educação financeira e, de quebra, aproveitar para instigar o interesse dos alunos pela Matemática. No caso do Guilherme Dumont Villares, a escola desenvolve ainda um projeto de empreendedorismo que engloba da educação infantil ao ensino médio. 

A ideia da proposta é que os alunos criem produtos tendo de considerar questões como otimização de recursos e sustentabilidade. Os resultados são levados à Feira do Pequeno Empreendedor, evento da escola no qual as famílias conferem os materiais produzidos e comercializados pelos alunos.

“Eles constroem objetos como brinquedos educativos com materiais recicláveis, aprendem a definir preços e vendem na feira. Isso vale também para alimentos. São motivados a cultivarem mini-hortas e planejarem a melhor forma de comercializar a produção no evento”, completa. 

Por trás das duas atividades – tanto a aula no achados e perdidos como a Feira do Pequeno Empreendedor – está o conceito de que usar as aspectos do dia a dia é a melhor forma de introduzir conceitos econômicos no currículo. 

Realidade

É a mesma linha de atuação da Escola Lourenço Castanho, cujo conteúdo visa a mostrar o que está por trás de fatores econômicos que influenciam o consumo das famílias e estão sempre nos noticiários.

“Aplicamos conceitos matemáticos de forma progressiva, desde o fundamental até o médio. Por exemplo, mostramos aos mais novos a lógica das promoções do tipo pague 2 e leve 3. Já para os maiores explicamos os elementos que podem provocar a alta do dólar”, comenta Maria Daltyra de Magalhães, coordenadora de Matemática.

No Colégio Brasil Canadá, a intenção é aliar as somas e subtrações a decisões coletivas que exijam flexibilidade. Uma das tarefas dos estudantes do 1.º ano do fundamental, crianças de 6 e 7 anos, é organizar um lanche coletivo. Para isso, o primeiro passo é estabelecer quais serão os pratos e decidir os ingredientes necessários.

“São decisões tomadas de forma coletiva, discutidas em assembleias, nas quais todos votam”, explica a diretora pedagógica, Bruna Elias.

Cardápio montado, são feitas pesquisas e definidas as melhores estratégias para serem obtidos todos os elementos necessários com o máximo de economia possível. Os pequenos também são levados a refletir sobre as variáveis que devem ser consideradas.

“Qualquer bom planejamento não é engessado. Por isso, eles precisam pensar em cardápios flexíveis, no sentido de um ingrediente não depender intrinsecamente de um outro para que a receita tenha êxito.”

Aproximação

O desafio de Káthia Maciel, professora de Educação Financeira da Escola Estadual São Paulo, era criar uma disciplina eletiva que instigasse o interesse dos estudantes do ensino médio pela própria Matemática. Não teve dúvidas sobre o caminho a seguir.

“Pensar em educação financeira foi a forma que encontrei para deixar a Matemática mais próxima da vida dos alunos”, conta.

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Todos estão mais atentos a questões como tarifas bancárias e juros do cartão
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Káthia Maciel, professora de Educação Financeira da Escola Estadual São Paulo

Nas aulas, realizadas em todas as terças-feiras, eles aplicam conceitos matemáticos para lidar com questões que afetam suas economias domésticas. Dessa forma, todos fizeram levantamento dos orçamentos, com gráficos que mostram de forma clara as rendas e as despesas familiares. 

Como resultado, a escola fez da Matemática uma forma de os alunos pensarem em novas perspectivas de vida.

“Todos estão mais atentos a questões como tarifas bancárias e juros do cartão de crédito. E alguns aproveitam as lições para ter mais renda, como uma aluna que revende produtos e agora tem mais controle do seu pequeno negócio.”

Aplicativos propõem desafios e bônus para tarefas cumpridas

Não é só na escola que o ensino sobre finanças ganhou nova roupagem. Já há também aplicativos e plataformas digitais que propõem esse aprendizado de forma lúdica.

Com o Tindin, por exemplo, os pais podem definir recompensas para as ações dos filhos. Tarefas como arrumar a cama ou fazer as lições escolares rendem pontos no aplicativo. Ao atingir determinada somatória, o uso do dinheiro é liberado e a cobrança é feita no cartão de débito ou crédito do responsável. O crédito pode ser utilizado na loja virtual do aplicativo ou em estabelecimentos conveniados. 

Vínculo afetivo

Para evitar a tentação de as crianças enganarem os pais – como marcar uma tarefa que não foi feita –, um dos recursos do app possibilita que os responsáveis solicitem a foto da atividade cumprida.

“Mas sugerimos que os responsáveis participem e estimulem o cumprimento das tarefas pessoalmente, tornando as atividades ainda mais assertivas e fortalecendo o relacionamento”, diz Eduardo Schroeder, CEO da empresa.

Já para atrair o interesse de quem não desgruda dos games, há soluções como o jogo Tá o$$o, desenvolvido pela Associação de Educação Financeira do Brasil – AEF Brasil. Nele, o jogador controla um simpático cãozinho em uma cidade virtual, na qual ele precisa executar desde ações mais elementares, como pesquisar o skate mais barato, até tocar um negócio próprio.

“O jogo é sempre focado nas tomadas de decisão. O jogador começa decidindo questões do cotidiano, como compras simples, até o momento que é colocado em um mercado de trabalho e tem de escolher o que vai fazer, com decisões de negócio para empreender”, explica Claudia Forte, superintendente da AEF Brasil.

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