HELVIO ROMERO
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Escolas no Brasil oferecem High School com diploma americano

Conseguir um certificado americano de ensino médio sem sair do País é uma ideia que vem atraindo um número crescente de famílias

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

29 Outubro 2017 | 03h00

Ter a oportunidade de conseguir um diploma americano de ensino médio sem sair do Brasil. Essa ideia vem atraindo um número crescente de famílias para programas de high school oferecidos por escolas particulares de São Paulo e várias outras cidades do País. Em geral, o adolescente tem algumas aulas extras no contraturno, oferecidas totalmente em inglês. As disciplinas básicas do currículo brasileiro são convalidadas por uma instituição de ensino oficial do exterior. Dessa forma, com algumas horas a mais de estudo por semana, os alunos saem com dois diplomas, um brasileiro e outro estrangeiro. 

Há mais de dez anos o Colégio Pio XII, na zona sul de São Paulo, já oferece essa possibilidade às famílias, por meio de um convênio com o ensino médio da Universidade de Missouri. Além da intenção de estudar fora do País na graduação, há outros pontos que levam as famílias a optarem pelo high school, diz Heloísa Parciasepe, coordenadora do programa. “Eles buscam um foco diferente em relação ao aprendizado de inglês, querem desenvolver outras habilidades, como a oralidade.” De acordo com Heloísa, o high school oferece a “mobilidade pela educação”. 

No modelo do Pio XII, os professores são todos estrangeiros e a aulas são 100% presenciais. Duas tardes por semana os alunos ficam na escola até as 17h30. Apesar do tempo extra, a coordenadora garante que não fica cansativo, porque são conteúdos muito diferentes. “Eles estudam saúde, debate, marketing, economia, planejamento de carreira”, cita. Para seguir com sucesso os dois programas, é preciso apenas certa organização, para manter as tarefas em dia, sem deixar nada ficar acumulado, recomenda.

 

Mais do que falar. Eva López, mãe de Javier, quis que o filho cursasse o high school do Pio XII para ter uma fluência melhor de inglês. “É a língua oficial do mundo. Achei que a carga horária do currículo brasileiro seria insuficiente”, conta ela, que veio com a família da Espanha, onde o currículo básico oferece mais hora semanais do idioma. Mas ela acredita que há ganhos para além da fluência: “É diferente do inglês da escola regular, em que se aprende muita gramática, mas você sai sem saber falar”, constata Eva.

Javier, de 15 anos, gostou da ideia de cursar o high school porque tem planos de estudar fora do Brasil. “No ano que vem, quero passar um semestre no Canadá. Para fazer faculdade, é mais fácil em uma universidade americana, minha vontade é ir para Espanha”, conta.

De qualquer forma, ele acredita que o diploma dos Estados Unidos vai ajudar. Independentemente do que fará no futuro, Javier gosta do que aprende no programa. “Não estudo gramática, mas a literatura. Tem também aula de saúde com muita conexão com Ciências. Em História, a gente está comparando os mitos gregos com os orientais”, diz.

Além do high school, que vai do 9.º ano do fundamental ao 2.º do ensino médio, a escola passou recentemente a oferecer middle school, para estudantes dos 7.º e 8.º anos. A abordagem é diferente, seguindo a lógica interdisciplinar focada em projetos STEM (sigla em inglês para ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

A oferta de middle school também é feita pelo Colégio Dante Alighieri, na zona oeste de São Paulo, que já tem tradição no high school. Rossella Beer, coordenadora dos programas, diz que havia demanda das famílias, que gostariam de iniciar antes esse estudo em inglês. “Quanto mais cedo, melhor, porque o cérebro é mais plástico”, explica ela sobre as vantagens do middle school. “A gente percebe que a família quer investir numa educação que prepara para o mundo da melhor forma possível. O programa do middle school, além do inglês, vai preparar para saber decidir, saber conversar, entender os problemas do mundo. Algo que é levado em conta no mercado de trabalho nacional e internacional.” 

 

Outros modelos. No Colégio Marista Arquidiocesano, na zona sul de São Paulo, a oferta de high school começou em 2017, como parte de um projeto amplo de internacionalização, que incluiu mais aulas de inglês dentro do currículo regular, optativas de inglês e viagens de imersão. Uma parte das aulas é feita online. Assim, o aluno tem mais flexibilidade e pode terminar os créditos do high school mais rapidamente, ou com mais tempo.

“A gente recomenda fazer em dois anos e meio. Assim, tem quem comece no 9.º ano, mas dá para fazer também a partir do 1.º ano do ensino médio e terminar um semestre antes do vestibular”, explica Alan Dantas, coordenador de idiomas. O modelo de ensino é o chamado PBL, sigla para Problem Based Learning (aprendizado com base em problemas). “Há uma pergunta-guia e os alunos desenvolvem projetos interdisciplinares.”

No Colégio Fecap, na zona central de São Paulo, o convênio para o high school foi firmado com uma instituição canadense. Enquanto está no Brasil, o aluno vai cumprindo créditos obrigatórios e eletivos numa plataforma online. No fim, ele passa um semestre estudando presencialmente na escola canadense em Victoria, na província de Columbia Britânica. “As famílias todas se interessam, porque entendem a importância da internacionalização. O impeditivo principal de não termos mais adesão é o preço do programa”, diz Marcelo Krokoscz, diretor do colégio. 

“Eu já pensava em sair do País antes. Quando a escola apresentou a proposta, minha família achou interessante, porque abre mais possibilidades para mim”, diz João Pedro Passani, de 17 anos, que pretende fazer Administração no exterior. João Pedro viaja no próximo semestre para cursar a parte do currículo no Canadá. “A questão da adaptação me deixa um pouco apreensivo, mas tenho amigos que já foram e só falaram coisas boas.” 


DEPOIMENTO - Eduardo Rubini, economista

"É MAIS FÁCIL SER ACEITO EM FACULDADE DOS ESTADOS UNIDOS"

“Eu terminei o ensino médio em 2012, no Colégio Dante Alighieri, e fiz ao mesmo tempo o high school. A decisão de fazer o programa foi conjunta, dos meus pais e minha. Eu já estudava inglês fora da escola quando ofereceram o convênio. Achamos interessante porque iria além do conhecimento do idioma, seria cursar um currículo americano. Apostamos que teria mais valor. Exigiu um tempo a mais de dedicação aos estudos, mas não tão diferente do que eu já dedicava ao inglês. 

No começo, uma experiência nova no colégio, pouca gente entendia direito o que significaria. Com o passar dos anos, atraiu mais o interesse das famílias. Minhas duas irmãs mais novas também fizeram o high school. É um instrumento para você sair com conhecimentos e habilidades que no currículo brasileiro não teria. A aula de discurso é uma das coisas que mais me apoiou na vida e na carreira. São conhecimentos que aproveito até hoje. Além disso, (o high school) me deu bases em temas como política, economia, assuntos que não se veem nem na escola nem na faculdade e são importantes para a vida toda.

No 9.º ano eu já sabia o que queria fazer: estudar Economia fora do País. Como as faculdades americanas olham as notas de todo o ensino médio, me dediquei para ter uma boa performance. Consegui ser aprovado onde queria, na Universidade de Chicago. Sair do ensino médio com o diploma de high school obviamente ajudou muito. Eles sabem que não sou americano, mas que já passei por um sistema de ensino deles, aprendi sobre a cultura acadêmica do país. Acaba com possíveis dúvidas sobre a adaptação. 

Depois de terminar a faculdade voltei para o Brasil e consegui uma boa colocação. Fico feliz de ter voltado. Fico feliz também de ver que o País oferece boas oportunidades para quem desejar voltar.”


 

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