Escolas infantis trocam o estudo pela brincadeira

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 21h47

Na maior parte do tempo que passam na escola, elas ficam no parquinho, no pátio, na biblioteca e na quadra. Em vez de assistir às aulas sentadas em carteiras, formam rodas no chão e aprendem correndo e passeando pelo ambiente escolar. Em algumas escolas de educação infantil de São Paulo, a brincadeira está presente em todas as atividades.

Esse tipo de proposta pedagógica segue a recomendação de especialistas em educação e saúde que defendem a brincadeira como fundamental e principal forma de desenvolvimento na infância. O modelo pedagógico também já adianta o que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – documento que definirá o que as escolas devem ensinar em cada série – coloca como “eixo estruturante” para as aulas na educação infantil (crianças de 0 aos 6 anos): o brincar e as interações.

“A brincadeira ensina o tempo todo. O brincar é a forma como a criança se comunica, explora e conhece o mundo”, diz Tatiana Duarte, gestora pedagógica da Escola Eduque, na zona sul da capital. Na unidade, os professores mudam os recursos do parquinho toda semana para estimular a criatividade das crianças e dão preferência para brincadeiras tradicionais, como pega-pega e amarelinha.

“Essa é a fase de maior curiosidade e temos de aproveitar. Quando a criança brinca no parque, está em contato com conteúdos de Ciências, Matemática, Geografia. O professor aproveita esse momento para instigar o aprendizado formal e estimular habilidades sociais, emocionais e motoras”, afirma.

Apesar da importância da brincadeira ser um consenso entre especialistas, esse reconhecimento ainda não existe entre a maioria dos pais. Uma pesquisa encomendada pela marca OMO mostrou que 51% dos pais brasileiros consideram os trabalhos escolares mais importantes do que o brincar para o sucesso das crianças. O levantamento foi feito com 12 mil pessoas em dez países, entre 2016 e 2017.

Por isso, Maria Veima de Almeida, diretora da escola Tarsila do Amaral, no Tucuruvi, zona norte da capital, diz começar as reuniões de pais sempre com brincadeiras ao ar livre. “Aqui, deixamos bem claro para os pais que o brincar é essencial na educação. As crianças não sentam para fazer pontilhado de números, repetição das letras ou decorar cores. Elas vão para o parque e lá contam as folhas da árvore que caíram no chão, aprendem que as flores têm tonalidades diferentes.”

Estímulo. Para especialistas, escolas com proposta pedagógica mais tradicional também precisam ter aulas com abordagem lúdica e espaço para brincadeiras. Apesar de definir o brincar como um dos eixos dessa etapa, a BNCC prevê que o processo de alfabetização se inicie já na educação infantil. Segundo a base, até 5 anos e 11 meses, os alunos devem, por exemplo, ser capazes de fazer “registros de palavras e textos, por meio da escrita espontânea”.

Segundo o psicólogo e membro do Núcleo da Ciência pela Infância (NCPI) Lino de Macedo, o brincar ao ar livre e com outras pessoas é fundamental e precisa ser estimulado na escola, já que as crianças têm cada vez menos essa possibilidade em casa. “Antes era natural a brincadeira na rua, com vizinhos, irmãos, primos. Hoje, não é. Por isso, a escola precisa preencher essa lacuna para um bom desenvolvimento dos alunos.”

 E não é o que ocorre na maioria das escolas brasileiras. Segundo o Censo Escolar 2016, 41,3% das creches brasileiras não têm parquinho. O porcentual é ainda maior (58,4%) nas unidades com pré-escola (alunos de 4 e 5 anos). “É preocupante que isso ocorra, já que as crianças têm de passar mais tempo na escola (desde 2016, a matrícula a partir dos 4 anos é obrigatória), então ela (a escola) deveria ser mais lúdica, mais convidativa”, disse o psicólogo Mauro Luís Vieira, da UFSC.

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Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 21h45

Dono de duas lojas de brinquedo na zona norte de São Paulo, André Teles da Silva, de 34 anos, ficou surpreso quando a filha completou 3 anos. De aniversário, ela ganhou da avó uma boneca, mas preferiu a caixa de papelão que embalava o presente. Maria Valentina vê nas lojas do pai uma infinidade de jogos, ursinhos e brinquedos e, no entanto, sua escolha é sempre por correr, brincar com o cachorro da família e andar de bicicleta. 

“Eu vivo e respiro brinquedo todos os dias e pensava que ela teria uma coleção de Barbies e bonecas. Ela tem tudo isso à disposição, mas dá muito mais atenção para interagir com outras pessoas do que com os brinquedos”, contou Silva. 

Desde 1 ano, Maria Valentina vai para a escola Tarsila do Amaral, onde, segundo o pai, aprendeu a dar valor para as interações. Foi a proposta pedagógica com valorização no brincar que atraiu a família. “Eu estudei a vida toda em escola tradicional, fiz uma faculdade que detestei por cinco anos, tudo conforme manda a educação formal. Para os meus filhos, eu queria algo diferente. Vimos muitas escolas que prometem explorar todo o potencial do bebê já pensando no vestibular, eu não queria isso”, disse Silva. 

Na escola, a menina tem como espaços preferidos a quadra de esportes e um pomar com pés de jabuticabeira, onde brinca com os colegas e aprendeu a subir em árvores. O desenvolvimento da filha mais velha foi tão satisfatório para a família que eles decidiram antecipar a entrada do caçula, Davi, na escola, já aos 7 meses.

“Ele é muito apegado à mãe, então achamos que seria importante ir para escola. Em três semanas de aula, foi impressionante ver como ele está mais atento, ativo, independente.”

As brincadeiras não são valorizadas só na escola, mas também em casa, segundo Silva. Apesar da rotina corrida da família, todos os dias os pais reservam ao menos uma parte do tempo para brincar com as crianças. “É assim que criamos uma relação. Todo dia brincamos, nem que seja cantando no carro na ida para a escola.”

Aprendizado. Mauro Luís Vireira, professor de Psicologia e criador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Desenvolvimento Infantil (NEPeDI), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), disse que desde os primeiros meses de vida as crianças já brincam e desenvolvem habilidades dessa forma. “Educar e cuidar são conceitos interligados quando falamos de crianças. Ao trocar uma fralda, os pais podem brincar com a criança, seja falando, tocando, fazendo caretas. E, nesse processo, a criança está aprendendo.”

Para Vieira, a brincadeira estreita os laços entre o adulto e a criança. “Hoje, as famílias dão muito valor à inteligência formal, mas quem ensina os aspectos sociais? A brincadeira ensina tudo isso e estimula o cérebro a fazer conexões que favorecem o aprendizado imediato e futuro.” 

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Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2017 | 17h20

Há uma valorização do brincar na educação brasileira?

Trouxe otimismo a BNCC trazer a brincadeira como eixo estruturante. É um sintoma do valor que os educadores estão dando para a temática da ludicidade, mas ainda não há garantias de que a valorização vá transcender o discurso. Porque o que vimos nos últimos anos foi o adiantamento da escolarização, com a obrigatoriedade da matrícula aos 4 anos e 5 anos. Essas turmas de crianças ingressam nas escolas de ensino fundamental e acabam tendo de se submeter à lógica dos espaços físicos pouco atraentes, com poucos recursos lúdicos. E o que é mais triste é que há uma ênfase muito grande na aprendizagem acadêmica. O importante é que a valorização do brincar não fique apenas no documento, mas seja colocada em prática. 

Com certeza haverá a resistência de alguns pais para uma educação infantil voltada para brincar, mas não podemos perder de vista a potência que ela tem para o desenvolvimento da criança. Não se trata de concessão [de tempo para o brincar], mas de reconhecer a necessidade da brincadeira para o ser humano. 

Porque o brincar é importante para o desenvolvimento infantil?

A brincadeira funda o humano em nós. Tudo o que diz respeito ao ser – linguagem, criatividade, sociabilidade, cognição, inteligência – passa pelo brincar. O brincar tem importância para o presente e o futuro. A criança compreende o mundo brincando, colocando as coisas na boca, jogando objetos no chão. É com essas brincadeiras que ela se orienta geograficamente, tem noções de Matemática e Física rudimentares e práticas. É como conhece o mundo naquele momento e leva aprendizados para a vida adulta. 

O campo de estudo do brincar ainda é um mistério, mas a sua importância para o desenvolvimento já foi confirmada. Outras espécies de mamíferos também brincam, porquê algumas são mais brincalhonas que outras? Porquê encontramos crianças que mesmo em situações adversas, que passam fome, estão doentes ou foram violentadas, encontram nas frestas do seu sofrimento um espaço para brincar? Não sabemos ainda explicar, mas já sabemos que manter a capacidade de brincar se traduz em uma maior possibilidade de vencer as adversidades. A brincadeira ensina resiliência.

Como a brincadeira deve ser abordada na escola?

É preciso cuidado para não didatizar a brincadeira, porque se asfixia o brincar. Não há problema em colocar conteúdos de matemática ou inglês em jogos, desde que não haja peso demais no didático ou se torne aula. É um grande desafio para os educadores, mas é também muito importante, porque estudos já mostram que as crianças que mais brincam têm um rendimento escolar futuro superior ao daquelas que foram estimuladas de forma acadêmica precocemente. 

Crianças que brincam pouco em ambientes externos podem ter o desenvolvimento prejudicado? 

O impacto é muito danoso sob vários impactos. O mais evidente deles é a obesidade infantil por causa da vida urbana e a alimentação. As crianças estão sendo induzidas para a obesidade e uma forma de combate é a atividade física, por isso, a importância dos parques e áreas verdes nas escolas ou ao menos passeios até esses locais. 

Outra questão pouco conecida é a de que as crianças de até 6 anos se beneficiam da brincadeira para o desenvolvimento das sinapses e conexões nervosas. É como o que o adulto sente quando faz exercícios físicos, mas, com as crianças, ocorre de forma definitiva. O exercício físico desenvolve na infância a motricidade ampla (controle corporal, como postura, equilíbrio, deslocamentos e balanços) e as conexões neurológicas. Ou seja, sem espaço adequado para brincar, as crianças não correm apenas o risco de se tornarem gordas, mas também menos inteligentes por conta da precariedade de experiências. 

As crianças que têm experiência de interação com a natureza também desenvolvem outro padrão de responsabilidade com o mundo, moralidade, empatia com outros seres vivos. É uma lástima que algumas escolas só vejam seus alunos como cabeças e não como seres de corpo inteiro. 

* Tânia Fortuna é professora de Psicologia da Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora geral do programa de extensão universitária "Quem quer Brincar?"

 

 

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