Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Escolas fazem parceria com hospitais e laboratórios para o retorno às aulas presenciais

Sírio-Libanês, Albert Einstein e Grupo Fleury apostam no detalhamento e na comunicação para levar mais segurança aos espaços

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 11h00

SÃO PAULO - Colégios particulares de São Paulo que estão se organizando para o retorno às aulas presenciais, ainda sem data definida na capital, contrataram a consultoria de importantes hospitais e laboratórios para a elaboração de protocolos personalizados. O serviço inclui adaptação das salas de aula, testagem para funcionários e colaboradores, telemedicina e disponibilidade de médicos. Além de seguir as recomendações de entidades de saúde do Brasil e do mundo, casos de sucesso em outros países também servem de inspiração.

Os hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, por exemplo, possuem um trabalho de consultoria há quase dez anos, mas era voltado ao auxílio de redes de saúde. Com a pandemia do novo coronavírus, o serviço expandiu para outros setores e as escolas são parte dessa novidade. “A demanda foi muito grande, próximo de 50 escolas entraram em contato. Agora, devemos estar com 20 a 30”, diz Anarita Buffe, diretora de Desenvolvimento de Projetos e Consultoria do Einstein.

Diversos fatores influenciam no preço da consultoria, como área da escola, número de unidades, professores, alunos, espaços internos e prazo. O valor inclui todo o trabalho prestado pela equipe médica que oferece o serviço, que se desloca até a escola e capacita profissionais. No Albert Einstein, por exemplo, os preços variam entre R$ 80 mil e R$ 250 mil, mas Anarita afirma que a maioria das escolas ficam em menos de R$ 150 mil.

Embora os colégios tenham estruturas muito parecidas, ela comenta que a forma como os estudantes circulam pelos espaços e acessam os ambientes são peculiares. Esse é o desafio de todas as consultorias: adequar as recomendações dos órgãos de saúde com a realidade de cada escola. E a preparação não se limita a medir o distanciamento social adequado e instalar dispensers de álcool em gel.

“Quando a gente começou a se aprofundar na preparação do colégio, viu que era complexo e era melhor ter um parceiro forte, então entrou o Einstein. Eles têm alguns escopos e um deles é avaliar toda a infraestrutura do colégio, o fluxo das pessoas, os protocolos que tem de ser desenhados, o controle de acesso à sala de aula e restaurante”, relata Caio Thomas, diretor-geral executivo do Colégio Visconde de Porto Seguro, localizado no Morumbi, zona sul da capital. A proximidade com o hospital também foi um fator importante para a escolha da consultoria.

Thomas afirma que o colégio já está pronto para receber os estudantes assim que houver uma definição sobre a data de retorno às aulas presenciais. A escola investiu em “pistolas” de medição de temperatura para serem usadas nas entradas com menor circulação de pessoas e câmeras térmicas para as de maior fluxo. Os bebedouros agora são ativados com um sensor de aproximação e há mais de 900 pontos de álcool em gel espalhados. Salas de aula também foram equipadas com câmeras, microfones e tripés para transmitir aulas ao vivo para os estudantes que permanecerão em casa.

Já na Escola Morumbi de Alphaville, zona oeste da região metropolitana de São Paulo, o mantenedor Diamantino dos Santos Jr. afirma que as alterações, em termos de infraestrutura, serão mínimas. “Nossa escola tem capacidade de mais 1,8 mil alunos e no período da manhã tem aproximadamente 700, mas não chega a 35% da capacidade. De qualquer forma, vamos atender todas as exigências”, diz. A instituição, que está em fase de compra de equipamentos para medição de temperatura e colocar sinalizações nos espaços, é a mais recente cliente da consultoria do Grupo Fleury.

Segurança e comunicação

A principal demanda das escolas é ter um ambiente o mais seguro possível para que estudantes, professores, funcionários e colaboradores possam voltar às atividades com o menor risco de contágio. De acordo com as necessidades específicas de cada uma, os serviços contratados podem variar. “O cuidado integrado envolve avaliação ambiental de todos os espaços físicos, orientação sobre como deve ser o protocolo de segurança, tem consultoria médica, serviço de telemedicina, suporte aos colaboradores, elaboração de relatórios e parte de laboratório para exames”, explica Jeane Tsutsui, diretora executiva de Negócios do Grupo Fleury.

A empresa de diagnósticos lançou uma consultoria para apoiar empresas de diversos setores, como bancos e shoppings, na retomada das atividades presenciais. “A gente precisa avaliar quais são, eventualmente, as pessoas que teriam risco maior ou se alunos têm na família alguém de maior risco. Olhamos a questão do distanciamento, álcool em gel, avalia espaços dos refeitórios para fazer as adaptações necessárias”, completa Jeane. Por enquanto, o grupo atua com duas escolas.

Personalização é a palavra-chave das consultorias. Além das avaliações de espaço, pessoal, oferta de testes e médicos para consulta, a gerente de Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Sírio-Libanês, Maura Salaroli de Oliveira, menciona as visitas técnicas, avaliação de fluxos e reestruturação das salas de aula. Atualmente, a consultoria do hospital tem projetos em 24 escolas. “Quando a gente começa a implementar as medidas, surgem mais dúvidas e tem a possibilidade de checar se a proposta atendeu e forneceu a segurança necessária”, afirma. Anarita Buffe, do Einstein, detalha que a equipe também leva em consideração a forma como as pessoas interagem com os equipamentos do colégio, quais brinquedos podem ser usados na educação infantil e de que material, como é o espaço de alimentação.


Os protocolos têm como base o plano de retomada proposto pelos governos, as recomendações de distanciamento, higiene e etiqueta do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS), além das experiências de outros países que tiveram sucesso. O Sírio-Libanês, por exemplo, se inspirou nos modelos inglês, francês e se pautou nas recomendações do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

Outra aposta das consultorias é na comunicação. As empresas realizam transmissões ao vivo com especialistas e disponibilizam seminários online de saúde para que professores, funcionários e colaboradores das escolas possam entender quais medidas estão sendo adotadas e por que elas são importantes. Estudantes, pais e responsáveis também farão parte desse planejamento mais explicativo e serão consultados sobre o retorno às aulas presenciais por meio de pesquisas elaboradas pelas equipes de saúde.

Parcerias de longo prazo

O Colégio Bandeirantes, na zona sul paulista, foi o primeiro a fechar contrato com o serviço de saúde escolar do Hospital Sírio-Libanês. O acordo já vinha sendo discutido desde o ano passado, mas com propósitos de repensar questões do ambulatório da escola. A pandemia acelerou os negócios. “Nesse momento atual, a visão é muito de prevenção, evitar que aluno, professor, colaborador venha para o ambiente se tiver com sintomas. Vamos fazer um conjunto de capacitação, em duas frentes, do ponto de vista de saúde e de acolhimento, para dar apoio a esse retorno”, diz Eduardo Tambor, diretor de operações da escola.

Ele explica que a parceria com o hospital vai além da pandemia e não se restringe às questões de biossegurança do momento. A ideia é que o serviço continue sendo prestado após o retorno das aulas para que seja avaliada a implantação dos protocolos, além de a equipe médica seguir com a gestão do laboratório e serviços de telemedicina. O mesmo será visto no Porto Seguro, que prevê ficar com o suporte do Einstein até dezembro, com visitas técnicas e auditoria dos protocolos. A proposta do Grupo Fleury segue na mesma linha, com disponibilidade de médicos para tirar dúvidas dos pais ao longo do tempo e permanência de suporte até quando for necessário.

Saúde como requisito para o futuro

A pandemia do novo coronavírus trouxe um olhar mais abrangente para a saúde, cujos cuidados com higiene e vigilância sanitária passaram a ser uma preocupação de todos os setores sociais. Os serviços oferecidos agora pelas consultorias estão sendo encarados pelas escolas como uma lição para o futuro e um requisito a mais para gerar credibilidade do ensino.

“Logo que começou a pandemia, uma das primeiras atitudes foi no sentido de colocar câmeras na sala de aula, porque pode não ser só nos próximos meses, mas podemos ter novas pandemias. É uma nova necessidade que as escolas talvez não tenham visto antes”, diz Santos Jr., da Escola Morumbi. O mantenedor avalia candidatar a instituição de ensino para uma certificação da Fundação Vanzolini, com a qual o Grupo Fleury fez cooperação técnica, que por meio de uma auditoria em termos de segurança, saúde e aspectos ambientais concede o documento às instituições. “Com isso, a gente atua em outro patamar de qualidade.”

Eduardo Tambor, do Colégio Bandeirantes, reforça que o serviço prestado pelo Sírio-Libanês traz segurança técnica e um bom conceito de prevenção. “Como a nossa visão não era de curto prazo, a possibilidade de ter hospital mais próximo, equipe mais próxima com questões de telemedicina é muito positiva”, afirma.

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