FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Escolas ensinam a identificar notícias falsas

Colégios incluem atividades de checagem de informações a partir do 2º ano do fundamental

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 03h00

“Se alguém te contasse uma mentira sobre um colega, o que você faria? Iria espalhar para outras pessoas? Daria uma bronca? Contaria o que ouviu para o amigo envolvido?” Essa é a situação apresentada a alunos de 9 anos do Colégio Dante Alighieri, na região central de São Paulo, para refletir sobre o que são fake news, suas consequências e como evitá-las. A preocupação com a qualidade da informação acessada pelas crianças levou escolas a ter atividades que discutem o assunto já nos primeiros anos de ensino. 

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Em projetos que trabalham o uso responsável da internet e das redes sociais, escolas passaram a incluir atividades para que as crianças desenvolvam uma nova habilidade no processo de alfabetização: além de aprenderem a ler, escrever e interpretar textos, devem avaliar a qualidade de uma informação, a veracidade de uma fonte.  É o que chamam de ter capacidade de "ler as entrelinhas". 

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"Temos hoje tantos adultos em situação de vulnerabilidade digital, que é assustador e esse assunto se torna urgente. Quando a criança começa a sua compreensão de mundo, é importante incentivar que ela questione, que tenha o privilégio da dúvida, que duvide", explica Valdenice Minatel, coordenadora de tecnologia do Dante. A partir do 2º ano do ensino fundamental, os alunos começam a ser introduzidos a atividades de um projeto de cidadania digital, mas é no 4º ano que são estimulados a pensar e problematizar sobre a segurança das informações que acessam. 

Segundo Valdenice, já nessa série, quando estão com 9 anos, as crianças já têm a internet muito presente em suas vidas e já adquiriram um repertório grande de situações positivas e negativas desse meio. "Estimulamos que eles tragam situações para discutirmos, por exemplo o pai que teve um cartão clonado em um site, um email com informações falsas. Nós também propomos situações problemas, para que elas pensem ludicamente sobre episódios que depois podem viver, como histórias que podem ser associadas aos efeitos de uma fake news", diz.

Checagem

Na escola Móbile, na zona oeste, o trabalho de orientação para buscar fontes seguras e de checagem de informações também começa ao 4º ano dentro de um projeto para melhor convivência na internet. As atividades continuam nos próximos anos, mas sob a ótica das disciplinas regulares. "Aos nove anos, a maioria dos alunos já tem celular próprio, recebe informações em grupos de WhatsApp e nas redes sociais. Elas já são obrigadas a fazer esse exercício de checagem", conta a diretora Cleuza Vilas Boas.

Para Cleuza, fazer exercícios para que as crianças identifiquem fake news é um exemplo da "formação integral" que a escola busca. "É fazer com que o aluno amplie a capacidade de refletir sobre o que foi exposto, antecipar consequências, tenha instrumentos para fazer boas escolhas. E, com a discussão sobre como checar e compartilhar informações, envolve todas essas habilidades", diz.

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As crianças do colégio Pio XII, no Morumbi, zona sul, são introduzidos ao assunto no 2º ano porque a escola diz acreditar em uma uma alfabetização que prepara o aluno para ser um "indivíduo consumidor de informação". Eles explicam e mostram aos alunos, por exemplo, que o Wikipedia pode ser editado por qualquer usuário e por isso não é uma fonte segura. 

"Ainda que sejam nativos digitais e também muito questionadores, estes jovens ainda têm dificuldades de identificar a origem/fonte de uma notícia e até distinguir o que é um anúncio e o que é notícia", afirma a coordenadora Vanessa de Andrade. Entre os exercícios propostos pela escola estão comparar e mostrar o layout de portais de notícia, verificar a data de uma reportagem, apresentar diferentes fontes e pontos de vista de um mesmo fato histórico. 

Lição de Casa

No colégio Santa Maria, também na zona sul, o formato de ensino utilizado no 5º ano estimulou o trabalho sobre segurança das informações. Nesta série, o aluno tem três tipos de lição de casa: preparatória, em que pesquisam sobre o assunto que será abordado pelo professor; de sistematização, onde retomam os conceitos aprendidos em sala de aula; e aprofundamento, em que apresentam um trabalho com tudo o que absorveu sobre o assunto.

"Começamos a sugerir sites de pesquisa, depois fomos trabalhando a importância dele analisar a fonte, os elementos do texto, buscar textos que trazem visões diferentes sobre um mesmo assunto. Queremos um aluno pesquisador, protagonista", diz a orientadora Vanini Mesquita. 

Esse trabalho já era feito com os alunos mais velhos, mas a escola percebeu a necessidade de trabalhar essa habilidade com as crianças menores até para que o pensamento crítico  desse a eles mais segurança ao utilizar a internet. "Eles ficam muito tempo no YouTube, em jogos e estão expostos a pessoas que podem estar mal intencionadas. Quando desconfiam da informação, ficam menos suscetíveis a entrar em situações perigosas", afirma Vanini. 

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