Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Escolas em SP usam aulas de idiomas e esportes como atalho para reabrir parcialmente

Impulsionadas pela demanda de retomada da rotina, atividades extracurriculares, com turmas de crianças, ganham espaço em colégios particulares e unidades para contraturno

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 12h00
Atualizado 27 de agosto de 2020 | 18h33

Enquanto os colégios de São Paulo continuam proibidos de oferecer classes presenciais, aulas de idiomas e esportes viram atalhos para reabrir a escola. Atividades extracurriculares, com turmas de crianças, ganham espaço dentro de colégios particulares e de unidades voltadas para o contraturno na capital paulista, impulsionadas pela demanda de retomada da rotina escolar pelas famílias.

Como são cursos livres, ou seja, não fazem parte da educação regulamentar, essas atividades estão permitidas pelo plano de reabertura econômica do governo paulista e por regras municipais. Em julho, decreto da gestão João Doria (PSDB) autorizou a retomada de cursos livres, como de idiomas, música e dança, em cidades há mais de 14 dias na fase amarela (em que há queda nas infecções pelo novo coronavírus) do plano de flexibilização. 

Especialistas afirmam que o risco de infecção nessas atividades é mais baixo pelo menor número de alunos e tempo de permanência no local, mas destacam que ainda há dúvidas sobre a capacidade de transmissão do vírus pelas crianças. O governo estadual afirma que essa oferta pelas escolas é regular, desde que não sejam atividades curriculares. "Cursos livres já foram liberados, então há uma permissão. Se as escolas estiverem voltando a dar aulas com o formato de curso livre, não é permitido e precisa ser fiscalizado", afirmou Patrícia Ellen, secretária de Desenvolvimento Econômico, durante coletiva de imprensa na tarde desta quarta-feira, 26.    

No início do mês, o Colégio Magno/Mágico de Oz, na zona sul, passou a abrir as portas para cursos extras que já oferecia antes da pandemia. As atividades incluem berçário e pré-vestibular. Segundo o colégio, a decisão foi tomada após ouvir a comunidade escolar. O arranjo é possível, de acordo com a direção, porque cursos livres no colégio são realizados por outra empresa, ligada ao Magno. 

“São abertos porque é um centro integrado de estudos que funciona dentro (da escola)”, explica Cláudia Tricate, diretora pedagógica do Magno. No berçário, o tempo de permanência é de 45 minutos para atividades como musicalização e educação psicomotora. Já a sala de Inglês recebe até três crianças. Segundo a diretora, havia demanda de pais e de famílias não matriculadas na escola. 

A oferta de cursos livres atende a uma dupla necessidade: por um lado, das famílias que veem crianças ansiosas pela retomada da rotina e estressadas após longa temporada em casa. Por outro, das próprias escolas particulares, que tiveram queda de receita e podem reduzir prejuízos com a cessão da infraestrutura do prédio a empresas responsáveis por essas atividades. Estima-se que 30% das escolas de educação infantil não sobrevivam à pandemia - em São Paulo, algumas relatam perda de até 80% da receita. 

O Magno adotou uma série de protocolos, que vão desde tapete químico para desinfectar sapatos à nebulização por ozônio, cuja eficácia não é consenso entre especialistas. Em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, as aulas de Inglês oferecidas por uma empresa de idiomas também foram retomadas dentro do Colégio Braga Mello, em turmas com no máximo sete alunos, de 5 a 15 anos. 

“Houve demanda dos pais e dos próprios alunos. Eles estão na escola 100% online e o Inglês era uma carga a mais, que alguns não estavam dando conta”, explica Toni Mello, gerente de comunicação do colégio. No caso de Presidente Prudente, o retorno é amparado por uma regra municipal que autorizou o funcionamento dos cursos de idiomas. “Vimos no decreto uma oportunidade de começar a trazer o aluno de volta para a escola.”

Donos de colégios particulares de São Paulo já avaliam juridicamente a possibilidade de abertura nesses moldes. “Minha escolha é por retomar as atividades”, disse a mantenedora de uma escola de educação infantil na zona sul de São Paulo, que já perdeu 40% das receitas e pretende abrir em setembro para cursos livres. “Se o município entende que o prédio escolar não pode funcionar com curso livre, então nenhum curso livre pode funcionar. O coronavírus não escolhe endereço.” 

O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp) oferece consultoria jurídica para esse modelo de abertura na capital. Segundo Ademar Batista, da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), essa oferta tem crescido em todo o País. Com receio de fiscalização, diz, “as empresas estão fazendo sem muito alarde”. 

A Fenep entende que mesmo cursos livres oferecidos pelas próprias escolas (e não por uma terceirizada) podem funcionar nos Estados que já permitiram as atividades extracurriculares. Já para Benjamin Ribeiro, presidente do Sieeesp, as escolas precisam ter cadastro específico para a oferta desses cursos.

Esses estabelecimentos não ficam sujeitos à punição, uma vez que atividades desse tipo estão autorizadas, desde que sigam os protocolos sanitários. Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou apenas que cursos livres estão liberados, conforme portaria de 17 de julho. Indagado sobre a regularidade desse tipo de oferta pelas escolas, o subsecretário de Articulação da Secretaria Estadual da Educação, Henrique Pimentel, diz que "dentro das escolas particulares, se já existe esse tipo de atividade extracurricular, isso se enquadraria na oferta de cursos livres". 

"Desde que o curso obedeça critérios sobre formato e metodologia, independe de quem está dando (se a escola em si ou uma empresa terceirizada dentro do colégio). O que não pode acontecer é retornar as aulas curriculares", diz Pimentel. 

Cursos dão vazão a estresse das famílias e desejo de retomar rotina

Pais que optam por matricular os filhos nessas atividades relatam exaustão e prejuízos ao desenvolvimento pela longa quarentena com as crianças. “Estava há 150 dias trancada em casa e não dava mais para suportar essa situação. Precisava colocar alguma coisa na rotina para sentirem que a vida estava voltando, estavam ficando muito ansiosos”, diz Millena Onesti, mãe de Caio, de 6 anos, e Maia, de 4. 

As crianças continuam matriculadas na escola, mas não se adaptaram bem às classes online e a mãe procurou aulas particulares e espaços que atendessem presencialmente. “Descobri uma escola presencial de Kumon para ter outra atividade de raciocínio”, diz Millena. Cerca de 60% das unidades do Kumon da capital, voltado para a resolução de questões de Matemática, Inglês e Português, já têm aulas presenciais. 

A busca pelo Kumon presencial é, em geral, maior para crianças mais novas, que acompanham com mais dificuldade as aulas online. “Aqui tem procura por pessoas de outros bairros. Os pais sentem falta da rotina”, diz Zilda Celidonio, orientadora de uma unidade em Pinheiros, na zona oeste, que abriu as portas para turmas de crianças. Todos que entram têm a temperatura aferida, as salas não recebem mais do que cinco crianças e o contato dos alunos com os orientadores foi reduzido.

Caio e Maia também voltaram a participar de esportes e atividades extras para crianças, como habilidades motoras, oferecidas no clube A Hebraica, nos Jardins, para os sócios. As escolas onde estudam, dentro do clube, permanecem fechadas. E as turmas dos esportes são pequenas. “Não é todo mundo que está voltando e, por isso, consigo colocar praticamente um aluno para cada professor”, explica Daniel Leon Bialski, presidente da Hebraica.

Em uma dessas atividades, Maia até reencontrou uma amiga da turma do colégio, que não via há tempos, mas tentou manter a etiqueta sanitária. “Elas foram se abraçar e recuaram”, lembra a mãe. A Hebraica avalia, agora, reabrir as atividades do Afterschool, de contraturno, com aulas de inglês. 

Contraturno tem até aula para socialização

Unidades voltadas para o contraturno escolar, que originalmente recebiam crianças antes ou após o período no colégio, também estão abrindo turmas na capital. O motivo é o mesmo: segundo os proprietários, com a abertura de outras atividades econômicas, cresce o apelo das famílias por um lugar para deixar o filho. Em alguns casos, também há demanda por um espaço de socialização para crianças. 

O Espaço Lúdico Recrear, que se identifica como unidade de educação complementar no Jardim Anália Franco, zona leste, recebe até oito crianças por período - elas têm atividades como música, jogos e até oficinas para saúde emocional. “A procura está grande, temos até lista de espera”, diz a proprietária, Danielle Morelli. “As mães chegam aqui desesperadas porque as crianças estão confinadas, muitas com comprometimento na parte cognitiva. Algumas precisam retornar ao trabalho.”

A Afterschool, na Vila Madalena, zona oeste paulistana, já recebe até 20 crianças de 4 a 11 anos. A unidade, cadastrada para ensino de idiomas, música e arte funciona como um contraturno escolar bilíngue, com atividades em inglês e pertence aos mesmos donos de uma escola de educação infantil a 2 quilômetros, que está fechada. Agora, passou a oferecer turmas em Português “para as famílias que buscam retomar a socialização dos seus pequenos”. 

Segundo a unidade, crianças com atividades escolares podem levar o computador e serão supervisionadas para realizar tarefas. “Há famílias que estão com anseio de voltar ou precisam voltar porque os pais são médicos ou trabalham full-time”, diz Bruno Campos, diretor e fundador da Afterschool. Segundo ele, o retorno do contraturno ajuda na preparação dos protocolos para a volta da escola. 

No Colégio Braga Mello, em Presidente Prudente, a volta apenas do curso extracurricular de inglês também tem funcionado como prévia. “Achamos interessante começar para ver como seria, em uma situação de complexidade menor”, diz Toni Mello, gerente de comunicação. No Magno, os profissionais que conduzem as atividades esportivas passaram por treinamento do Hospital Albert Einstein. 

“A turma que era de 20, está com dois alunos”, conta Jonas Alfredo da Silva, professor de escalada no colégio, que voltou a dar aulas em agosto. “Quando o aluno desce, higienizamos a parede de escalada. E, mesmo assim, o outro aluno não usa a mesma parte”, explica. “Nossa preocupação é evitar que um entre em contato com o outro.”

Demanda é compreensível, mas contraditória, diz especialista

Para Silvia Colello, educadora da Universidade de São Paulo (USP), a tensão criada nas famílias ajuda a explicar a opção pelos cursos livres. “Há demanda por essas atividades, tanto pelo pais, que precisam trabalhar, quanto pela exaustão que se criou entre as crianças.” Embora veja o fenômeno como compreensível, Silvia acredita ser contraditório em relação ao momento da epidemia no País. 

“A criança que sai para fazer atividade física tem a possibilidade de descarregar energias, relaxar, ficar menos angustiada pelo aprisionamento doméstico, mas temos de assumir que é uma exposição e tem um risco - atenuado pelo número menor de alunos, mas estranho pelo fato de não ser atividade essencial”, argumenta. 

A especialista também destaca o abismo que se cria em relação a estudantes pobres, cujas famílias estão distantes da oferta de atividades extracurriculares. “As crianças da rede pública estão duplamente penalizadas, por não terem acesso à escola nem a possibilidade dessas alternativas que os pais de escolas particulares dão.”

Indagado sobre a impossibilidade de que crianças pobres participem dessas atividades, o subsecretário de Articulação da Secretaria Estadual da Educação, Henrique Pimentel, diz que o retorno opcional às escolas para reforço em setembro, avalizado pelo governo estadual, era pensado justamente para essas crianças. 

"O retorno é centrado nisso porque precisamos dar algum tipo de oportunidade para esses jovens, que não têm culpa de não terem recursos financeiros para pagar cursos livres, rodas de conversa e curso de Inglês." A Prefeitura já descartou abrir em setembro as escolas públicas e privadas.   

Para Domingos Alves, professor da Faculdade Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, a abertura dessas atividades com crianças pode aumentar as infecções, em cenário que ainda é de alta taxa de contaminados. "Todas as evidências das experiências praticadas em nível internacional mostram que o retorno a essas atividades com o número de casos ainda aumentando é um desastre para a saúde pública."

Ele argumenta que as crianças, em geral, são assintomáticas e, por isso, medidas como aferir temperatura não são eficazes para identificar a infecção. Por outro lado, apesar de manifestarem poucos ou nenhum sintoma, as crianças são capazes de contaminar outras pessoas. "Os assintomáticos são o fogo dessa epidemia", diz Alves. "Essas crianças vão estourar a bolha e infectar os pais, os avós e, principalmente, os professores." Estudo da Universidade Harvard (EUA) aponta que crianças têm alta carga viral do novo coronavírus.

Segundo o infectologista Carlos Magno Fortaleza, do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, do governo estadual, chegou-se à conclusão de que os cursos livres oferecem menos riscos e permitem que se faça preparação para a abertura das escolas, por reunirem menos pessoas e por período menor de tempo, . “Uma coisa é uma escola abrir em momentos isolados para aula de Inglês. E bem diferente de lotar de alunos o tempo inteiro. Pode haver contradições em termos educacionais, mas não em termos epidemiológicos.”

Já o plano de abrir escolas para reforço escolar em setembro, apresentado pela gestão Doria, “não se diferencia muito dos cursos livres” do ponto de vista epidemiológico, segundo Fortaleza. “Inclusive, (o reforço escolar) fala de começo com só 20% da ocupação das classes e revezamento de horários. É uma proposta muito sutil e pensada no sentido de não prejudicar demais as crianças ainda mais no momento em que os pais voltam a trabalhar.” 

Para Evaldo Stanislau, infectologista do Hospital das Clínicas da USP e membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia, a abertura de cursos livres enquanto os colégios continuam fechados é “só mais uma das tantas contradições” criadas pela pandemia. “Se um adolescente pode ir ao shopping comprar roupa, ficar lá por um período, não é uma contradição ele mesmo não ir à escola?”

Para ele, cursos livres, com alunos mais velhos e turmas pequenas, oferecem risco menor de contágio, uma vez que o público já consegue compreender as medidas de prevenção. “Temos de acompanhar o momento epidemiológico e usar todas as ferramentas de proteção, que são distanciamento, uso correto das máscaras e higiene das mãos. Onde a gente puder fazer isso, seja em curso regular ou livre, é importante, porque estamos falando de educação.”

 

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