Felipe Perazzolo
Felipe Perazzolo

‘Escolas caras investem mais em professores'

Para especialista, isso resulta em um corpo docente que faz diferença na educação, mas cabe aos pais avaliarem o custo-benefício em relação ao que consideram importante

Entrevista com

Maria Alice Carraturi, diretora de Conteúdo da Feira Bett Educar

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 17h13

Mensalidades altas não garantem qualidade, mas costumam pressupor certos diferenciais. Quem define se corresponde ao esperado é a família, explica Maria Alice Carraturi. Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), ela já trabalhou com formação de professores para o governo de São Paulo e foi presidente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp).

Agora à frente de uma feira com fornecedores de serviços educacionais de todo o País, Maria Alice conhece bem os perfis de colégios particulares e afirma que o valor da mensalidade em grande parte representa a capacidade da instituição de contratar os melhores profissionais. Embora bons professores sejam parte essencial da escola, ela diz que não há receita para definir qual é o melhor custo-benefício: essa conta é lição de casa para os pais. 

Uma mensalidade alta garante que é uma escola de qualidade?

Não. Normalmente, as escolas com mensalidades mais altas apresentam algo exclusivo. Portanto, depende do que se entende por qualidade. A mais cara do Brasil fica em São Paulo e tem como diferencial ser internacional. Para os pais que acreditam que isso é um valor, é um investimento. São famílias que querem preparar para estudo ou trabalho em outro país.

Mas colégio internacional não significa qualidade para todos.

Isso. Temos outras escolas caras, mas com outros valores, como o de ajudar no ingresso em universidades boas aqui do Brasil. Tem um nicho de colégio mais humanista. Quão pesado é o custo e quanto é o benefício são percepções pessoais. 

Posso exigir mais se pago mais pela escola?

Não existe essa correspondência. As famílias matriculam os filhos pagando mais porque veem valor na proposta. Uma das escolas internacionais mais caras de São Paulo nem aceita questionamentos dos pais. Quem não estiver satisfeito pode tirar o filho, sem espaço para reclamação. Nesse tipo de escola, quando você matricula seu filho, aceita as condições. De outro lado, temos outras mais baratas que são mais abertas à participação dos pais. 

Ao escolher um colégio caro, se escolhe os relacionamentos?

Sim, porque você está buscando uma escola que vai ser procurada por outras famílias que tenham valores como os seus. Quando ponho numa escola internacional, espero que os alunos também tenham um perfil internacional, que sejam filhos de estrangeiros ou oriundos de outros países. Quando ponho em um colégio de elite, espero que meus filhos convivam com a elite. Muitas vezes, a escola traz alguma forma de status. 

É errado buscar uma escola pelos colegas e pelo status?

Difícil dizer o que é certo e o que é errado para cada família. Depende da perspectiva, dos valores sociais, morais, religiosos. Na época dos meus filhos, escolhi uma escola que os ajudasse a passar no vestibular. Hoje talvez fizesse menos sentido. Atualmente se tem mais a perspectiva de que a boa escola deve preparar para a vida. Buscar qualidade é passar no vestibular, é ter bons amigos ou é sair fluente em outro idioma? Cada família tem sua resposta.

Dentro da mesma perspectiva de escola, entre a mais cara e a mais barata, a primeira é melhor?

Na maioria das vezes, sim. Existe uma correlação pois as mais caras têm um investimento alto no corpo docente, e repassam o valor aos pais. E o corpo docente faz muita diferença. Em qualquer faixa de preço ou nicho, o pagamento de salários representa em média 70% do custo. Há escolas de elite que só contratam professores com no mínimo mestrado e pagam salários melhores do que universidades prestigiadas. 

Há opções para famílias que não podem pagar caro?

Há famílias que não podem pagar, mas há famílias que não veem valor em uma escola de alto custo se outra mais barata já garante alguma qualidade. A gente tem visto crescerem escolas de baixo custo, com mensalidades em torno de R$ 800. Elas têm como valor agregado o uso da tecnologia para redução de custos. Tem sido um modelo difundido por grandes grupos. Em escala, conseguem dividir o custo operacional. 

Quem troca por uma escola mais barata vai necessariamente sentir diferença de qualidade?

Nem sempre. O que é preciso ver é a qualidade do professor. Ele tem de ser bem remunerado e bem formado. A escola pode oferecer tantas atividades, usar tecnologias, mas, se não tem qualidade do corpo docente, essas coisas ficam perdidas.

Como os pais podem saber se o corpo docente é bom? 

Tem de perguntar o critério de seleção. Mas também se deve procurar pais para ter outra referência além da oficial. Uma família que está com o filho há dois ou três anos na escola já conhece o corpo docente. E vale saber qual é a imagem que essa instituição tem no mercado. 

Vale a pena pagar menos na mensalidade escolar para investir em atividades fora da escola?

Na prática, os pais têm buscado uma escola com tudo. Em vez de levar no balé, no judô e no inglês, levam para um só lugar e pagam a um lugar só. A escola trouxe tudo isso para dentro dela. A criança fica o tempo todo na mesma instituição e os pais confiam que ela vai saber fazer uma triagem de bons profissionais e atividades. 

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