Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Escolas buscam equilíbrio entre ensinar alunos para a vida e para o vestibular

Pela Base Curricular, socioemocional dos alunos deve ser trabalhado, mas seleção de faculdades cobra conteúdo

Alex Gomes, especial para o Estadão

16 de novembro de 2021 | 05h00

Gabaritar o vestibular ou desenvolver habilidades socioemocionais? Para as escolas, a formação dos estudantes do ensino médio pode ser comparada à experiência de um motorista de aplicativo que deve levar o passageiro a dois destinos diferentes, só que ao mesmo tempo. A implementação do novo ensino médio a partir de 2022 cria um impasse: como desenvolver um aprendizado mais aberto, alinhado à nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), juntamente com uma abordagem obrigatória que insira os estudantes nas salas de aula das principais universidades do País?

Na comparação com as viagens por aplicativos, seguir um currículo estritamente conteudista, que visa a primeiras colocações nos vestibulares, é seguir por um beco sem saída. “O ensino de música é um exemplo de aprendizado importante para a formação humana que provavelmente seria mais trabalhado nas escolas, caso os vestibulares cobrassem. Temos uma situação em que os grandes exames servem de eixo ao que é valorizado ou negligenciado no ensino médio”, reflete Ocimar Munhoz Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP.

No Colégio Pentágono, a rota tem sido calculada no equilíbrio entre o percurso flexível e o conteudista. “Já implementamos o novo ensino médio em 2021 e temos buscado contemplar igualmente as demandas exigidas pela BNCC e os diferentes vestibulares do País”, afirma Bruno Alvarez, coordenador pedagógico do ensino médio na instituição.

A estratégia adotada para dar conta de chegar aos dois destinos ao mesmo tempo é a adoção de uma carga horária expandida, com 40 horas semanais para os estudantes dos dois primeiros anos do ensino médio, e 42 horas, para o último ano dessa etapa.

O foco nos temas obrigatórios dos vestibulares ocorre no grupo de aulas obrigatórias, com aplicação periódica de simulados e, no terceiro ano, uma etapa específica de revisão dos conteúdos. Já a adoção de propostas mais flexíveis de ensino se dá com os itinerários formativos, com eixos transversais planejados para estimular competências como o empreendedorismo, a investigação científica e a mediação sociocultural.

Um dos programas de destaque é o Projete-se, cujo objetivo é ajudar os alunos a conhecerem melhor o que norteia suas escolhas, tanto acadêmicas quanto profissionais, e projetar o futuro que almejam. Os encontros ajudam os estudantes a mapearem as próprias potencialidades e aptidões, para mobilizar competências cognitivas e socioemocionais.

Preparo dos alunos é desafio

Enquanto tomam contato com as novidades do ensino médio, milhares de estudantes utilizam a mais antiga estratégia para conseguir estudar nas instituições mais concorridas do país: inscrever-se na maior quantidade possível de vestibulares ao longo do ensino médio para entender as dinâmicas das provas e aprimorar o equilíbrio emocional para o momento em que forem disputar vagas para valer.

Estudante do 3.º ano, Luísa Freire Tanaka, de 17 anos, pode ser considerada habitué das salas de exames. Ela é treineira desde o primeiro ano do ensino médio e, assim, está familiarizada com a seleção da Universidade de São Paulo (USP), a cargo da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest); o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem); e o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Luísa se prepara para cursar Medicina, tendo como opções os cursos da Unicamp, da USP e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “A experiência como treineira me ajudou a organizar o tempo de prova e a controlar a tensão, além de estar atenta a detalhes práticos, mas que podem dar dor de cabeça, como a relação de documentos e as cores das canetas”, afirma.

Bruna Alves, de 18 anos, cursa o 3.º ano do ensino médio na Fundação Bradesco. Não chegou a prestar vestibular como treineira, mas fez simulados do Enem e da Fuvest e fará os dois exames com o objetivo de conseguir uma vaga no curso de História. “Na escola, as disciplinas são focadas no conteúdo listado pelos processos seletivos. Já o trabalho com habilidades socioemocionais é feito com palestras, em aulas chamadas projetos de vida, uma vez por semana. Falamos sobre empatia, hábitos, procrastinação e temas afins, bem como trabalhamos a pressão que estamos passando por causa do vestibular.”

Função do vestibular

Com mais de um século de existência, os vestibulares no Brasil respondem a duas funções, explica Alavarse. A primeira é a de processo seletivo, uma vez que há mais pessoas querendo alcançar a educação superior do que vagas disponíveis. O segundo objetivo, e que foi perdendo ênfase no decorrer do tempo, é o de servir como avaliação, isto é, verificar os candidatos com os conhecimentos necessários para a continuidade dos estudos. Quem tinha pontuação mínima entrava na lista de selecionados.

O especialista ressalta que um dos elementos que aparece como pano de fundo e que merece atenção na análise da função dos vestibulares é a discussão sobre justiça. “Temos de pensar essa questão, principalmente quando falamos de instituições públicas ou com financiamento público. Para quem as vagas são entregues? Historicamente, para quem estudou mais, uma ideia meritocrática de que o resultado vem da dedicação e esforço, mas que desconsidera que há fatores socioeconômicos que interferem na justa seleção.” Por isso, alerta Alavarse, quem organiza os processos tem de zelar para fazer com que certos fatores, como renda familiar, raça e gênero, não se transformem em obstáculos adicionais.

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