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Escolas brasileiras são bem avaliadas por estrangeiros

Alunos que vieram morar no País estranham mais questões culturais do que sistema de ensino

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

29 Outubro 2017 | 03h00

A mudança de escola foi o menor dos problemas para peruana Fabianna Rios, de 13 anos, quando ela se mudou com a família para o Brasil. Ela chegou em maio, sem saber nada de português, mas apesar do pouco tempo já está aprendendo a usar uma palavra muito querida dos brasileiros: saudades. “Estou feliz morando no Brasil, só sinto mesmo é saudades dos meus amigos”, conta. A distância, contudo, é amenizada pelo contato que mantém com eles via redes sociais. 

A adaptação à escola foi abrandada por ela ter trocado um colégio internacional no Peru por outro também internacional no Brasil – aqui, estuda na Escola Internacional de Alphaville, na Grande São Paulo. Como ambos seguem o programa americano, Fabianna sentiu pouca diferença, seja na rotina de estudos, horários e regras, seja na forma que os professores trabalham dentro sala de aula. “Aqui as aulas de Ciências são mais complexas e também têm muita tecnologia. Mas já me acostumei e estou gostando desse jeito. O restante é bem parecido.” 

Por ser uma escola internacional, nem o idioma foi um empecilho para entender as aulas ou fazer novas amizades. “As pessoas foram bem abertas, todo mundo interage. No começo, eu conversava com meus colegas em inglês, o que me ajudou muito. Mas agora falamos em português, para eu poder aprender melhor”, diz a estudante, que já fala português com desenvoltura. 

Tampouco para o espanhol Tomás Ruiz, de 15 anos, a nova escola tem sido o grande desafio de adaptação. Vindo de Barcelona, o aluno estranha mesmo é o caos da vida paulista, o que o faz sentir saudades. “A cidade de São Paulo em si é difícil. As ruas têm muita gente, muito carros, os edifícios são muito altos”, enumera o espanhol. A troca de país fez ainda com que perdesse certa liberdade: em Barcelona podia ficar até de madrugada na rua com os amigos; em São Paulo, por causa da segurança, a mãe não permite que fique fora depois das 20 horas.

As questões urbanas, porém, influenciam na rotina de estudos. “Em Barcelona, eu levava 10 minutos a pé para a escola. Ia e voltava sozinho e ainda saía com os amigos para almoçar fora da escola. Aqui, vou de perua e fico uma hora no trânsito. Nos dias em que as aulas começam às 7 horas, preciso acordar às 5 horas”, reclama ele. Segundo Tomás, depois de perder muito tempo no trânsito, também é mais difícil ter ânimo para estudar e fazer a lição em casa. 

Mas, quando se trata das questões acadêmicas, Tomás, que estuda no bilíngue Colégio Miguel de Cervantes, na zona sul de São Paulo, só tem elogios. “Em Barcelona, eu estudava numa escola religiosa, com um ensino muito tradicional. Os professores daqui, na maioria, são melhores e mais amigáveis. Eles passam muitas atividades diferentes, as aulas têm mais variação”, relata. 

Apesar de gostar da metodologia, Tomás diz que o modelo é bem exigente e não tem sido fácil conseguir boas notas em algumas disciplinas. Língua portuguesa e produção de texto, obviamente, são tidas por ele como as mais difíceis. A surpresa, porém, é ele considerar que o ensino de espanhol daqui é mais difícil do que em sua escola catalã. “Todo mundo pensa que eu, por ter nascido na Espanha, teria de tirar 10. Mas minha média está por volta do 6. Estava acostumado a falar o espanhol de Barcelona, que tem algumas formas diferentes do espanhol cobrado na escola agora.”


DENTRO DO PAÍS MAS COMO SE ESTIVESSE NO EXTERIOR

Escola tem ano letivo começando no meio do ano e atividades extras como modelo americano

Aluno do colégio Chapel School, Arthur Silveira, de 16 anos, cursa o 12.º ano, mas logo que alguém lhe pergunta sobre o assunto, já emenda a explicação: “Seria o equivalente ao 3.º ao do ensino médio (no sistema brasileiro)”. A necessidade de explicar sua vida escolar não para por aí. Apesar de estar na última série da educação básica, Arthur só vai se formar no ano que vem. “O ano letivo começou agora em agosto. Então, só termino em junho de 2018”, diz. 

Situada em São Paulo, a Chapel é uma escola internacional que segue o programa acadêmico dos Estados Unidos. Lá dentro, a língua oficial é o inglês. Apenas as disciplinas de História e Geografia do Brasil, além de Língua Portuguesa, são ministradas no idioma oficial do nosso País. Seguindo o modelo americano de ensino, depois das aulas do currículo obrigatório, que são cumpridas no período das 8 horas às 15h10, os alunos podem escolher entre uma série de atividades, que vão dos esportes às artes, de acordo com os interesses pessoais e cada estudante.

Dia a dia. De tão corriqueiro, o inglês acaba sendo o idioma de comunicação até entre alunos brasileiros. “Dependendo do momento, do assunto, a gente conversa em inglês mesmo”, relata o estudante. E às vezes fica difícil pensar em uma tradução correta para certas atividades extras, como no caso da Model United Nations, uma das preferidas de Arthur.

De novo, o melhor caminho é explicar. “É um grupo que se prepara para debates seguindo o modelo que ocorre na ONU (Organização das Nações Unidas), sobre assuntos de pertinência global”, diz estudante, que está se preparando para viajar à Holanda em janeiro, para debater com alunos de vários países.



 

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