Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Escolas ajustam currículos à nova Base Nacional Comum Curricular

Pela BNCC aprovada, colégios devem repensar práticas e promover competências nos alunos

Guilherme Guerra, especial para o Estado

18 Setembro 2018 | 06h30

SÃO PAULO - Desde que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do ensino infantil e fundamental foi aprovada em dezembro de 2017, Estados e municípios brasileiros promovem debates com a comunidade escolar para definir o currículo a ser aplicado. O desafio é transformar as competências e os campos de experiência do documento em projetos curriculares que estejam de acordo com a realidade das escolas de todo o País. Ao mesmo tempo, os colégios, em especial os particulares, acompanham o movimento e analisam se seus currículos estão dentro das exigências do documento.

A escola Lumiar, na região central de São Paulo, elaborou há 15 anos um currículo de competências que antecipou diversos elementos da atual BNCC, como a promoção do autoconhecimento e da argumentação. Hoje, a base prevê que todas as escolas do Brasil, particulares e públicas, abordem esses e outros itens. “A diferença do currículo da BNCC para o nosso é como organizamos e nomeamos esses itens”, explica a diretora da unidade de São Paulo, Fábia Apolinária. Enquanto o documento do governo tem apenas um eixo, a escola tem duas matrizes para definir o aprendizado dos seus estudantes.

Conversa

O objetivo da metodologia Lumiar, criada pelo empresário Ricardo Semler em 2003, é integrar o aluno ao processo educacional, estimulando o questionamento e a colaboração com professores e colegas. Cada um pode dar pitaco. Tanto que, às terças-feiras, alunos, professores e funcionários do colégio, como o pessoal da faxina e port

aria, se reúnem para uma grande “discussão de relacionamento”.

A rodona, como a iniciativa é chamada, incentiva que um indivíduo aponte algo na rotina escolar e pense coletivamente em alguma solução. Do mesmo jeito que um professor pode propor uma atividade, um aluno pode tecer críticas. Ou, ainda, uma funcionária da limpeza pode apontar um ato de vandalismo e propor soluções com o grupo. “Esse cuidado com o outro não é só entre criança e professor”, afirma Semler. “É com todo mundo.”

Foi esse tipo de comportamento que levou Jeanne de Alencar a matricular o filho, Antonio, de 11 anos, na Lumiar. De acordo com a mãe, a escola desenvolve o protagonismo na criança, algo em que Antonio não teve oportunidade de progredir em uma escola tradicional. E migrar de uma para a outra foi uma mudança da água para o vinho.

No atual colégio, onde completa seis anos de estudos, Antonio se acostumou à rotina sem grade horária, com o desenvolvimento de longos projetos interdisciplinares e discussões construtivas. “Houve um choque de rotinas e regras”, diz Jeanne, frisando que a Lumiar possui regras, sim, mas não como em uma escola tradicional. “Mas ele se encontrou lá e nós [OS PAIS]também, vendo a evolução dele.”

Normas

Embora particulares como a Lumiar tenham algum tipo de autonomia frente à rede pública para implementar o novo currículo e ir além do que é proposto, adiantando-se a tendências pedagógicas, a diretora executiva do Cenpec, Mônica Gardelli, explica que ainda assim elas devem estar atentas às regras da BNCC na sua respectiva região. Caso contrário, poderão enfrentar problemas ao desrespeitar as diretrizes curriculares vigentes.

“A base é uma oportunidade ímpar de tentar dar um salto na qualidade da educação”, comenta Mônica. O documento é uma chance de discutir a identidade do País e o que se espera de uma sociedade mais justa e igualitária. Mas, na sua visão, faltou dar a devida ênfase a questões de diversidade, como gênero, raça, sexualidade e desigualdade socioeconômica.

“As pessoas podem ter uma interpretação ampla e podem fazer o contrário do que pede a base”, afirma a especialista. Entre os pontos positivos, ela destaca o detalhamento que o documento oferece para que as escolas montem os currículos e monitorem o desempenho dos alunos.

Justamente graças a esses pormenores que o Colégio Dante Alighieri, na zona sul de São Paulo, repensa o seu projeto político-pedagógico para 2019. A coordenadora-geral de Pedagogia do colégio, Sandra Tonidandel, conta que, assim que a base foi aprovada, o corpo docente se reuniu, leu atentamente as novidades e fez os devidos ajustes no currículo escolar. 

“A BNCC impactou diretamente o dia a dia da nossa escola”, afirma a coordenadora. Com o documento em mãos, os professores têm os detalhes do conteúdo curricular nacional e conseguem calibrar o que está sendo aprendido pelos alunos. Chamadas de avaliações formativas e processuais, os recursos para medir desempenho são feitos com bastante frequência no período letivo para acompanhar os estudos, havendo a realização de testes, argumentações, apresentações de pitch e outros formatos possíveis.

De acordo com Sandra, o Dante Alighieri não avalia somente por meio de uma prova no fim do bimestre, mas sim “o processo de aprendizado”. Se o aluno não aprender, é dado um retorno sobre o desempenho e pode ser até repensada a maneira como a matéria costuma ser dada. Na BNCC, esses objetivos de aprendizagem foram documentados detalhadamente por idade, série e disciplina.

No Colégio Franciscano Pio XII, na zona sul em São Paulo, a diretora adjunta, Fátima Miranda, caracteriza essas minúcias sancionadas na BNCC como uma “ressonância magnética”. Depois da análise, a conclusão foi simples: “A escola tem trabalhado muito além do que a base propõe”. O maior exemplo é como o trabalho voluntário tem uma presença forte no colégio e reúne alunos, familiares, ex-alunos e comunidade para cuidar de projetos beneficentes. “Somos uma escola católica franciscana e o trabalho voluntário se encaixa perfeitamente no DNA da instituição”, afirma Fátima.

Desenvolvimento

Ainda que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e outras provas sejam importantes para o estudante, segundo Fátima, o Colégio Pio XII precisa estar articulada às competências da base e de uma formação humanizada. E essa estratégia conta com o respaldo dos pais. Silvia Liguori, mãe de Luiza, aluna do 1.º ano do ensino médio, e Pedro, do 8.º ano do fundamental, conta que se importa, sim, com vestibulares. “Mas não é minha preocupação principal”, diz. Muito mais do que isso, ela quer uma formação focada em valores e acolhimento.

Camila Pontes também espera uma formação humanizada do Santa Maria, colégio em que suas duas filhas, Laura, de 3 anos, e Luísa, de 7, estudam. Lá, a pequena acaba de começar o Jardim I, na educação infantil, e a mais velha cursa o 1.º ano do fundamental. As duas meninas experimentam a revolução na educação infantil, proposta pela BNCC, que enumera campos de experiência a serem desenvolvidos nessa etapa e promove o protagonismo infantil.

No novo currículo do Santa Maria, são os pequenos que decidem o que querem estudar, no lugar do conteúdo que era antigamente imposto sobre eles. E essa escolha pode surgir do mundo à volta deles, não necessariamente dos livros. Por exemplo, bastou uma volta no bosque do Santa Maria para que a última turma do Jardim I decidisse que gostaria de entender mais sobre formigas. E os insetos saíram da curiosidade lúdica e se tornaram o tema do primeiro semestre de 2018, com diversos conteúdos interdisciplinares preparados pela professora.

“Antes tínhamos propostas didáticas pensadas pelas professoras, levando em consideração a faixa etária dos alunos”, diz a orientadora pedagógica de educação infantil no colégio, Karine Ramos. Sob o modelo antigo, na maior parte das vezes, as professoras costumavam usar sequências didáticas, como as histórias infantis de Cachinhos Dourados, para preparar o material de aula. Agora, as sequências são utilizadas após a manifestação dos alunos.

Coletividade

E isso traz benefícios. “Quando você começa a escutar essa criança revelar os interesses dela, você a traz para um lugar de protagonismo”, explica Karine. Camila aponta que, nessa fase, é normal que as crianças desenvolvam um senso de individualidade. Pensando nisso, o Santa Maria fez a sequência didática dos “carinhos quentes”. Por meio de palpites que os pequenos sugerem, o objetivo da atividade é ensinar a gentileza e o afeto ao colega. “E a Laura trouxe esse comportamento para casa”, conta Camila.

“Os pais elogiam muito esse processo, até porque eles conseguem acompanhar o aprendizado”, afirma Karine, que trabalha há 20 anos com pedagogia e documenta em relatórios o progresso dos alunos ao longo do processo educativo. E eles têm um acompanhamento mais próximo do que os pequenos têm feito. “É um projeto coparticipativo”, afirma Karine. E Camila não tem o que apontar para ser melhorado no ensino da filha: “Eu estou bem satisfeita”.

Aprendizagem criativa antes das normas

Colégio Mary Ward aposta no lúdico para mostrar o conteúdo aos alunos

Para ajudar no ensino da Matemática, que tal uma sala feita especialmente para pensar em soluções matemáticas criativas, com os alunos reunidos em círculo? É o que oferece a Mathemoteca do Colégio Mary Ward, na zona leste de São Paulo. O espaço junta logística com ludicidade e pode ser usado por todos os alunos do 1.º ao 5.º anos do ensino fundamental. Para cada turma, a professora propõe um problema compatível com a faixa etária, e depois os estudantes procuram uma solução. O pulo do gato está na pluralidade: há muitas formas de resolver o jogo, embora a questão seja a mesma para todos. 

“Não temos mais um processo de aprendizado mecânico”, afirma o diretor pedagógico do Mary Ward, César Marconi, que fez uma parceria com o Grupo Mathema para levar a sala ao colégio.

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Para a gente, a BNCC não é um bicho de sete cabeças. O colégio já estava de olho nesse movimento de mudança
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César Marconi, diretor pedagógico do Mary Ward

Outra colaboração realizada com o grupo é o Projeto Ciranda, em que o objetivo da proposta pedagógica é simples: deixar a criança ser criança. Por exemplo, a escola desconstrói a ideia de que a criança de 3 a 5 anos deva escrever com letra cursiva. E o plano ainda contempla a participação dos pais, que têm como lição de casa narrar histórias de livros infantis para desenvolver a oralidade dos filhos.

Para o diretor, é preciso refletir sobre o conteúdo e deixar que os pequenos se percebam no contexto. “Isso faz da criança o protagonista”, afirma. Não à toa, protagonismo é uma das palavras-chave para entender a nova BNCC. 

Nos últimos anos, o Mary Ward antecipou-se à base e fez mudanças na matriz curricular a fim de se modernizar. A principal novidade é a divisão de conteúdos e disciplinas antes amarrados em um único ano, agora apresentados ao longo de uma etapa. Um exemplo citado vem das aulas de Química (disciplina que, junto com Biologia e Física, se dividiu entre o ensino médio e o 9.º ano do fundamental), em que um típico cardápio de café da manhã foi usado para mostrar que componentes químicos integram a refeição. Os alunos, então, vão nomeando os elementos. “Trata-se de um pensamento científico, crítico e criativo”, diz Marconi.

Apesar da ênfase científica e acadêmica na matriz curricular da escola, entre as novidades propostas pela BNCC está o ensino religioso. Mas isso não é novo no Colégio Mary Ward, cujo nome faz homenagem a uma freira expulsa da Inglaterra no século 16. Lá, a disciplina já existia e segue na grade. Segundo o diretor pedagógico, a matéria amplia o escopo abordado pela base e é uma oportunidade para discutir com os jovens temas importantes da atualidade, como drogas e aborto.

“Para a gente, a base não é um bicho de sete cabeças”, comenta. “O colégio já estava de olho nesse movimento em termos de mudança.” O Mary Ward usa o documento do jeito que foi pensado pelos educadores do governo: como um guia para montar o cardápio acadêmico que uma escola oferece. Mas, sob os olhos do diretor, nada ali é tão inovador assim. Para ele, a base é um “resgate social” do que a escola já vinha trabalhando. “A BNCC é exatamente o que você exige de um aluno do século 21.”

10 competências definidas na BNCC para a educação básica

A Base Nacional Comum Curricular estabelece dez competências gerais para guiar a educação básica. O documento enumera um conjunto de habilidades e práticas que o aluno deverá aprender para o exercício da cidadania, como por exemplo conhecer as tecnologias digitais, saber argumentar e cuidar da saúde física e emocional. Para a diretora executiva do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Mônica Gardelli, é preciso levar em consideração a realidade da escola antes de se aplicar essas competências. Tendo isso no horizonte, poderão ser criadas metodologias conforme as exigências da BNCC.

Conhecimento

Trata-se de explicar a vida a partir de informações sobre o mundo físico, social, cultural e digital. Mônica afirma que o conhecimento não deve ser encarado como um bem adquirido, “mas como um repertório que permite que o aluno interfira na realidade”.

Pensamento científico, crítico e criativo

Prevê que a curiosidade intelectual, seja estimulada por meio da metodologia das ciências, usando o teste de hipóteses, a formulação de problemas e a criação de soluções para exercitar a investigação, a criticidade e a imaginação.

Repertório cultural

Esta competência valoriza as manifestações artísticas e culturais do Brasil e do mundo, bem como convida o aluno a fazer parte. “É fundamental para a interpretação do mundo”, afirma Gardelli. “Ver o mundo a partir desse repertório cultural é como ganhar óculos.”

Comunicação 

Devem ser usadas as linguagens verbal, corporal, visual, sonora e digital, para permitir que o estudante saiba se expressar e interpretar códigos. Em Língua Portuguesa, exemplifica a especialista, é possível trabalhar isso com os diferentes gêneros de discurso, incluindo os de meios digitais.

Cultura digital

O objetivo é fazer com que o aluno se comunique, acesse e dissemine informações com protagonismo, reflexão e ética. Para Mônica, tem como função garantir e promover a apropriação dos recursos digitais, e ainda a reflexão sobre eles. Ou seja, esta competência não deve exigir que somente se faça uso de plataformas, mas sim que também se discuta o mundo digital.

Trabalho e projeto de vida

O que se espera é que o aluno pense o mundo do trabalho e dos sonhos de maneira autônoma e responsável. “É o que dá sentido à nossa existência”, diz a especialista. E sugere que a competência seja trabalhada transdisciplinarmente, assim “todos os professores podem colaborar com o objetivo do aluno”.

Argumentação

A intenção é promover com fatos, dados e informações confiáveis a argumentação, que deve contemplar a formulação de ideias, defesa de pontos de vista e o respeito a direitos humanos, consciência socioambiental e consumo responsável. Nesta competência, alerta a diretora-executiva do Cenpec, outras habilidades precisam ser bem trabalhadas com os alunos, como repertório cultural, comunicação e pensamento científico, crítico e criativo.

Autoconhecimento e autocuidado

A escola deve engajar o estudante a cuidar do próprio bem-estar e da sua saúde física e mental, assim como a reconhecer o estado emocional do outro. “Tem bastante a ver com a capacidade que temos de se enxergar no mundo em que vivemos”, explica a especialista.

Empatia e cooperação

Exercitam-se o diálogo e a resolução de conflitos, acolhendo a diversidade. Para Mônica, trata-se de um ponto complexo, já que não aborda a questão da ética. “Para desenvolver empatia, é preciso que você a tenha.” Sugere, então, investir na formação dos professores.

Responsabilidade e cidadania

Aqui o objetivo é levar o aluno a pensar coletivamente com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. “Nos espaços escolares, isso não é grande novidade”, diz a especialista. Muito mais do que a responsabilidade consigo mesmo, esta competência deve abordar a relação com o outro. “Não é apenas entregar as coisas no horário”, justifica.

 

 

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Alex Gomes e Ocimara Balmant, especiais para o Estado

18 Setembro 2018 | 07h00

SÃO PAULO - O que fazer para oferecer um ensino que faça sentido à geração Z e, ao mesmo tempo, prepare esses jovens para os novos desafios do mercado de trabalho? A receita não é fácil. Nem está pronta. Enquanto continuam as discussões da Base Nacional Comum Curricular para a última etapa da educação básica, as escolas já começam a se preparar para cumprir o que prevê a lei que instituiu o ensino médio flexibilizado. Quando entrar em vigor, o aluno terá 60% da carga horária destinada à parte comum e, nos 40% restantes, os estudantes poderão escolher conteúdos organizados em cinco itinerários formativos.

“Estamos fazendo uma mudança com o trem andando”, compara Silvio Freire, diretor do ensino médio do Colégio Santa Maria. Como a cada dez anos a escola revê seu Projeto Político Pedagógico (PPP), tem aproveitado este momento para refazer o documento a partir do que prevê a base nova. “Como a BNCC define que a escola tem de se estruturar em competências e habilidades, tivemos de reformular todos os planos de curso, repensar cada uma das disciplinas.”

Atualmente, a instituição já tem um núcleo comum no ensino médio, com disciplinas básicas como Matemática, Português, Física e Biologia, e um núcleo diversificado, com as optativas. Com a BNCC, a escola se prepara para enquadrar esse conteúdo opcional nos chamados itinerários formativos.

Para que elas ocupem 40% da carga horária e não haja prejuízo no aprendizado das disciplinas tradicionais, provavelmente os alunos terão aulas no contraturno quatro vezes por semana, em vez de duas.

“Já temos aula de mídias digitais, direito internacional, astrofísica e outros assuntos, que representam uma parcela pequena. Agora poderemos ampliar o cardápio. Também aumentaremos muito as aulas práticas, o que fará o aluno se interessar muito mais”, resume Freire.

Por outro lado, ressalva o pedagogo, a BNCC amplia as opções, mas não prevê um ensino personalizado, como às vezes a propaganda do governo dá a impressão de que será, acredita. “Os pais veem a propaganda na televisão e vêm com a expectativa de que o filho será atendido em sua especificidade. Mas isso não é possível. Tenho cinco itinerários e 540 alunos. Não dá para ser um currículo para cada um.”

Para ajustar as expectativas, todo o processo de adaptação da escola está sendo comunicado aos pais. Recentemente, aqueles com filhos no ensino médio e nos anos finais do fundamental foram convidados para uma apresentação. A administradora de empresas Carla Lopes, mãe de Amanda, que cursa o 9.º ano do ensino fundamental, gostou do que ouviu. “Acho que a mudança é bem-vinda e vai motivar os alunos a se tornarem mais proativos, por estarem em um curso mais alinhado com seus interesses. Só é preciso cuidado para não focar muito na prática, porque os conteúdos voltados para a parte comportamental, como Artes, Educação Física e Filosofia, são fundamentais.”

Sem alterar o DNA

Na maioria das escolas privadas, as adaptações têm sido feitas de forma a manter o DNA da escola. O Colégio Equipe, por exemplo, já trabalha com áreas do conhecimento e a partir delas é que deve definir os itinerários. “Já fazíamos um ensino médio com grandes diretrizes, focando no que achamos importante e indo além do conteúdo exigido pela Fuvest e Enem”, afirma Luciana Fevorini, diretora da instituição. 

De vocação humanista, o colégio já trabalha seis formações temáticas que poderão integrar os futuros itinerários: história e cinema; astronomia; juventude e identidade, São Paulo: centro e periferia; filosofia e religião; e arte contemporânea. Todas nascem de discussão curricular ou interesses dos alunos, como o treinamento esportivo ou a formação de um coletivo feminista.

Sem amarras de um currículo estanque, o Projeto Político Pedagógico da escola prevê que o aluno tenha contato com muitos conteúdos e possibilidades antes de decidir no que quer se aprofundar. “Queremos que ele teste pra saber o que quer e o que não quer, o que gosta e o que não gosta. O que temo e não podemos deixar acontecer nesse caminho proposto pela BNCC é que sejam escolhas de especializar e não integrar conhecimentos”, afirma Luciana. Com duas turmas de ensino médio, ela estima que a escola vai oferecer dois ou três percursos e prevê um intercâmbio de alunos. “Imagino que vá ocorrer migração de estudantes entre as escolas, para cursarem itinerários formativos diferentes.”

Flexibilidade

Na Escola Lourenço Castanho, que tem nove salas do ensino médio, os componentes eletivos já estão agrupados dentro dos itinerários propostos pela BNCC. “Nossa estrutura já está condizente com o que a reforma propõe. Talvez a gente tenha de ampliar a obrigatoriedade, mas os cursos são separados por área, nas quatro grandes áreas da base. Só para a formação técnica é que teremos de fazer alguma parceria”, explica Alexandre Abbatepaulo, diretor-geral da instituição.

Os conteúdos de astronomia, clube de química e construção de materiais para o ensino de Física vão ao encontro dos itinerários de Matemática e Ciências da Natureza. Em sintonia com Ciências Humanas, a escola oferece preparação para fóruns e debates, já a área de Linguagens é contemplada com atividades de produção musical e teatro.

Tudo isso hoje é feito de forma flexível, um ponto que, de acordo com Abbatepaulo, deveria ser contemplado na BNCC. “O aluno vai amadurecendo sua escolha, suas afinidades. Se ele ficar preso a um itinerário desde a primeira série, cria uma amarra perigosa. Ele precisa poder circular e passar por outros itinerários.”

Como esse ponto ainda não está definido - a BNCC está em discussão no Conselho Nacional de Educação -, a escola tem promovido encontro de profissionais com seus estudantes dos anos finais do ensino fundamental. A design de joias Marcela Haddad, mãe de Isabela, aluna do 9.º ano, fez questão que a filha participasse. “Ela está mais voltada para Humanas, com um certo interesse em moda.” Apesar de considerar positivos muitos aspectos da reforma, ela se preocupa com a definição do itinerário formativo, decisão que considera precoce. “É escolha séria para as crianças de 14 anos. Elas não têm a opinião 100% formada e acho que a escola tem mesmo de ajudar nessa questão.”

Se não houver flexibilidade, alerta o pedagogo Silvio Bock, corre-se o risco de antecipar ainda mais a escolha profissional, que já considera precoce no Brasil. Isso poderia, segundo o especialista, levar a uma multidão de alunos que escolheram um itinerário, decidiram prestar vestibular para outra área e chegariam ao exame sem o repertório necessário. “Questiono o ensino enciclopédico que os vestibulares exigem, mas não temos notícia de que isso vai mudar. Então, não podemos deixar os alunos à própria sorte.”

Ensino público

Um olhar para a rede pública, que concentra a maioria das matrículas do médio, mostra que o caminho para a implementação do ensino flexibilizado esbarra em questões complexas. Dados do Censo Escolar de 2016 mostram que 53% municípios do País possuem somente uma escola com ensino médio regular ou educação profissionalizante. São 2.967 cidades nessa situação, o que evidencia o desafio da implementação dos itinerários formativos propostos. 

“Por isso, o modelo de flexibilização precisa ser muito bem pensado e as secretarias de Educação muito bem instrumentalizadas para entender como flexibilizar o currículo e criar as possibilidades dos jovens construírem os seus percursos formativos em um município que só tem uma escola de ensino médio”, destaca Cláudia Santa Rosa, secretária de Educação e da Cultura do Rio Grande do Norte. 

Além da questão dos itinerários, acrescenta a especialista, outras engrenagens do sistema devem estar afinadas: é preciso preparar os docentes na formação inicial e na formação continuada a partir desse novo parâmetro, garantir que os materiais didáticos estejam alinhados e, por fim, ajustar as avaliações nacionais para que fiquem coerentes com as novas diretrizes.

Para acertar as arestas, a educadora defende que as redes adotem a sugestão do MEC de implementar pilotos em 2019. “É uma reforma que muda tudo. Ao diversificar e ampliar o conteúdo, aumenta o número de professores, cresce o tempo dentro da escola, muda questões até do transporte escolar”, afirma Cláudia. “São alterações complexas, mas que vão valer a pena quando percebermos que a reforma pode combater a evasão escolar e instigar a injeção de recursos para laboratórios e equipamentos. É preciso fazer que o jovem sinta que vale a pena estar na escola.”

Base do médio: qual é a proposta e em que fase ela está

A lei que altera o ensino médio foi sancionada em fevereiro de 2017, e as redes terão dois anos para implementar o modelo após a aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para essa etapa da educação. A BNCC define o conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver. A partir dela, as redes de ensino e instituições públicas e privadas passarão a ter uma referência nacional comum e obrigatória para a elaboração dos seus currículos e propostas pedagógicas. Em outras palavras, a BNCC dá o rumo e indica aonde chegar, mas os currículos é que definem os caminhos. Além dos itinerários, a BNCC também prevê que a carga horária passe de quatro para cinco horas diárias. A meta é ter 25% dos alunos do ensino médio matriculados em tempo integral até 2024 - hoje são 6%. O texto da BNCC do ensino médio está em discussão no Conselho Nacional de Educação.

Profissionalizante é o maior desafio da reforma

Muitas escolas não devem ter esse itinerário ou farão parcerias para oferecer essa opção

Dentre os cinco itinerários propostos na reforma do ensino médio, a educação profissional tem sido o maior desafio das escolas - tanto que muitas delas não devem oferecer essa opção ou o farão por meio de alguma parceria. 

É uma oferta pequena frente a uma procura que deve ser grande. De acordo com os dados do Censo da Educação Básica, dos alunos que terminam o ensino médio no Brasil, apenas 20% seguem para o curso superior, o restante segue direto para o mercado de trabalho e, atualmente, a maioria deles faz essa transição sem ter recebido formação profissionalizante: apenas 9% das matrículas são em cursos técnicos.

O Liceu de Artes e Ofícios é um dos colégios que já oferece essa formação técnica. “Já temos a proposta do itinerário formativo técnico consolidada. Foram anos de aprimoramento e debates. Quando de fato a mudança vier, provavelmente já estaremos prontos”, afirma Emerson Paes Barreto, coordenador pedagógico da instituição. Do total de 539 estudantes do ensino médio, 304 estão matriculados em cursos técnicos como Eletrônica, Automação Industrial, Edificações, Desenho de Construção Civil e Multimídia.

É gente que tem mercado de trabalho garantido. Uma pesquisa de egressos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) aponta que, a cada dez estudantes formados pela instituição, sete conseguem vaga no mercado de trabalho no primeiro ano de formado. O estudo Mapa do Trabalho Industrial 2017-2020, também produzido pelo Senai, mostra que o Brasil terá de qualificar 13 milhões de trabalhadores até 2020 para atender à demanda da indústria.

Capacitar o aluno do ensino médio para o mercado de trabalho é a política educacional de países desenvolvidos e de alguns com situação econômica similar ao Brasil, caso do México. Lá, 40% dos estudantes fazem ensino técnico. Na Europa, o índice passa dos 50% e chega a mais de 70% em países como Áustria e Finlândia. 

Como se dividem as 3.000 horas de aulas

60% comum (1.800 horas)

É o conteúdo obrigatório previsto pela BNCC:

Linguagens

Matemáticas

Ciências da Natureza

Ciências Humanas

40% flexível (1.200 horas)

Aqui o aluno pode escolher entre os cinco itinerários propostos:

Linguagens

Matemáticas

Ciências da Natureza

Ciências Humanas

Educação Profissional

 

 

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