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Escola sempre faz falta

Existe muito que é tirado da criança quando se fala de ensino domiciliar

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 05h00

A escola fez - e ainda faz - muita falta para crianças e adolescentes neste um ano de pandemia sem escola. Tem função social insubstituível, principalmente para crianças e adolescentes. E justamente agora - pasmem, caros leitores - está em discussão para aprovação o ensino domiciliar

O que as crianças e adolescentes perdem ao não frequentar uma escola? Vamos levantar alguns pontos - não todos - que o ensino domiciliar subtrai da vida dos mais novos. Primeiramente, vamos pensar na família. Os pais e parentes próximos têm muitas expectativas para filhos, netos, sobrinhos. Queremos tudo de bom para eles, não é? Natural. As diferenças entre as famílias são apenas a intensidade e a maneira como se passa isso aos filhos. 

Só que tudo isso joga sobre os ombros dos mais novos um peso que não é fácil de suportar, não. As cobranças e as pressões, sejam elas explícitas ou não, afetam a vida emocional dos filhos; isso sem considerar a cobrança de amor que eles sofrem. Vamos lembrar: a frase “Eu te amo”, pronunciada com tanta frequência pelos pais aos filhos na atualidade, na verdade cobra uma resposta, não é não?

Sair um pouco do convívio com esse ambiente impregnado por todos os tipos de afetos faz um bem danado à saúde mental dos mais novos. É quase um parênteses nos vínculos já estabelecidos e abertura para outros vínculos, com adultos que têm outros estilos de cobrar. Uma pequena pausa que ajuda crianças e adolescentes a respirar novos ares e retornar ao ambiente familiar mais energizados. O ensino domiciliar retira isso.

Consideremos, agora, o ambiente físico e social da escola: as regras, normas e rituais próprios de toda instituição escolar colaboram para que a criança entre com mais facilidade no clima do esforço necessário para aprender. Aprender é difícil! Carlos Heitor Cony, em seu livro Quase memória: quase romance, conta como um pai, que teve de se tornar professor de seu filho em casa, criou um ambiente quase escolar para transformar filho em aluno e pai em professor. Horários rigorosos, vestimentas apropriadas, regras específicas, quadro-negro, giz e apagador, entre outras coisas, tornavam um local da casa muito parecido com o escolar. Vale a pena ler.

E por falar em colegas, a convivência com seus pares desconhecidos anteriormente, portanto sem vínculos afetivos, o aprendizado duro do respeito às diferenças e a troca de experiências de vida entre os alunos simplesmente desaparecem no ensino domiciliar. Vivemos na pele as dificuldades sociais que enfrentamos: o ambiente social tem sido hostil, nada colaborativo, a competição está presente em quase todas as relações, o cancelamento é sempre uma ameaça e já sabemos o quanto isso é prejudicial à vida pessoal de cada um de nós.

Conviver respeitosamente com pessoas com quem não se tem vínculos pessoais não é fácil, e isso se aprende na escola. Sim: a socialização básica, chamada primária, é na família que ocorre. Mas a secundária é só na escola. O que dizer, então, do aprendizado colaborativo? As ciências da educação já apontaram que, quando um aluno aprende e/ou ensina a outros alunos, o conhecimento resultante é bem sólido. Afinal, o conhecimento é um produto social! 

Debates de temas importantes, com base no conhecimento, trazem opiniões e interpretações diferentes, o que colabora, e muito, com o pensamento crítico. No ensino domiciliar, não há essa possibilidade. Da mesma maneira, trabalhar em conjunto com colegas, aprendizado que será crucial na vida profissional adulta, também não aparece. Em resumo: temos muitos motivos importantes para defender a escola e a vida escolar! 

É PSICÓLOGA, CONSULTORA EDUCACIONAL E AUTORA DO LIVRO EDUCAÇÃO SEM BLÁ-BLÁ-BLA

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