WERTHER SANTANA/ESTADãO
WERTHER SANTANA/ESTADãO

Escola modelo em Santo André aposta em integração com pais e comunidade

Mesmo com estrutura simples, local conseguiu virar exemplo de evolução no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)

Felipe Resk e Marília Noleto (especial para O Estado), O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 03h00

Encravada em um bairro residencial de Santo André, no ABC Paulista, a Escola Municipal Ayrton Senna da Silva aposta no engajamento com a comunidade, interação com os pais e atividades fora da sala de aula para melhorar o desempenho dos estudantes. Mesmo com estrutura simples – de salas com quadros de giz à falta de um espaço específico para biblioteca – a escola conseguiu virar exemplo de evolução no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Voltada para educação infantil e fundamental I (1.º ao 5.º ano), a Ayrton Senna conseguiu quadruplicar sua avaliação em 10 anos. Em 2007, o Ideb para os primeiros anos do fundamental era de apenas 1,5. O índice saltou para 6,1 na última avaliação, em 2017 – uma das escolas com maior trajetória de aumento no País, segundo o Ministério da Educação (MEC). A média brasileira para essa etapa escolar, que reúne crianças de 6 a 11 anos, é de 5,8. 

Ao todo, 210 estudantes estão matriculados nas 10 turmas da Ayrton Senna, no bairro da Vila Cecília Maria. Salas do infantil chegam a ter 30 alunas, mas nas séries posteriores o número cai pela metade. “Os professores têm relação muito próxima com os alunos”, destaca a doméstica Viviany de Castro, de 43 anos, mãe de Annanda Lima, de 11. No 5.º ano, a menina estuda à tarde com outros 13 colegas. “Com menos gente, é mais fácil de aprender”, diz a mãe. Entre as atividades, Annanda destaca o laboratório de informática: “A gente faz pesquisas sobre outros planetas, é bem legal”.

Mãe de Isabelly Luani, de 11 anos, a vendedora Andressa Queiroz, de 28, conta que os alunos são tratados com cuidado. “Minha filha tem diabete, precisa tomar insulina e toda hora eles ligam para informar como está a situação dela. Até reunião com nutricionista da escola já tive." Recentemente, os pais também passaram a receber o cardápio por Whatsapp. “Eu e meus irmãos estudamos nessa escola. Sempre foi boa, mas com os anos, vem sempre melhorando.”

“A integração entre o corpo de professores da escola e os pais é bem bacana”, diz a designer de sobrancelhas Jéssica Moreira, de 31 anos, mãe de Ricco, de 6. Segundo afirma, o dever de casa é sempre informado aos pais pela professora em um grupo de Whatsapp, para que possam acompanhar as atividades. “Meu filho evoluiu muito desde que entrou aqui neste ano. Ele conta 1 a 100 sem problema e consegue até contar de 50 a 1, retroativo.”

Jéssica participa do Conselho da escola, que se reúne uma vez por mês para discutir melhorias. Há, ainda, o “Conselho Mirim”, formado por dois alunos eleitos de cada turma. O grupo leva as demandas dos estudantes à diretoria e também encabeça ações participativas, como, por exemplo, a zeladoria nas dependências do colégio ou o combate a focos do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue.

Bom resultado

“O que interfere para o bom resultado é, principalmente, o envolvimento dos professores e a parceria com a comunidade”, avalia a diretora Ana Luiza Lorenzini. Ela assumiu a Ayrton Senna em 2013 e, segundo conta, o primeiro desafio foi “cativar os munícipes”. “Sem a participação de todos, a gente fica patinando”, diz.

Para a diretora, uma das vantagens da escola é o espaço à disposição, que pode ser “ocupado” por todos. A quadra, por exemplo, é aberta à comunidade nos fins de semana. Em eventos, como festas juninas, os pais são chamados para atuar diretamente, podendo até montar barracas próprias.

Além da proximidade, a diretora destaca o que chama de “práticas diferenciadas” – atividades fora da sala de aula com o objetivo de tornar o aprendizado mais prazeroso para as crianças. “Outro dia, a professora de Matemática levou os alunos no pátio que os estudantes aprendessem a medir”, conta. “No meu entendimento, esse tipo de atividade tem mais resultado.”

Apesar de não contar com uma biblioteca propriamente dita, estantes de livros foram instaladas no corredor do primeiro andar. “Nós temos atividades diárias de leitura”, relata Ana Luiza. Aos fins de semana, os estudantes têm de levar uma das obras para ler em casa. “Cada sala também tem uma caixa de revistas e gibis.” 

​Bons exemplos na educação pública em Goiás

Autonomia dos professores para o desenvolvimento de projetos e o investimento em atividades extracurriculares que promovam a interdisciplinaridade. Em meio às lições de bons exemplos na rede pública de ensino no Estado de Goiás, esta tem sido a equação de sucesso do Colégio Estadual Jardim América, localizada no bairro homônimo na região Sul de Goiânia.  A unidade atende a um total de 1300 alunos do 7º ao 9º ano do Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino de Jovens e Adultos (EJA) nos períodos matutino, vespertino e noturno. A média de 40 alunos por turma. A escola se destaca pelo bom desempenho dos estudantes no Enem e ProUni, além do Ideb, cujos dados de 2017 foram divulgados nesta segunda-feira , 3. 

O que chama a atenção é a diversidade de atividades extracurriculares com o objetivo de captar o interesse dos estudantes e tornar o ambiente escolar mais agradável. Uma destas iniciativas, conforme aponta a coordenadora pedagógica Sandra Maria de Oliveira, é o "CEJA Imagem e Ação", voltado para a área de Fotografia. "O projeto foi coordenado simultaneamente pelos professores de Física, História e Geografia. Os alunos foram instruídos a construírem um equipamento similar ao fotográfico para entender o processo de captura de imagens. Além disso, promoveram uma exposição fotográfica e ao final participaram de uma viagem à cidade de Goiás", detalha. 

A visita ao município histórico, localizado a 129 km da capital, também foi feita durante um projeto de Língua Portuguesa que tem como proposta a valorização da Cultura Regional. Entre outras atividades, os alunos participantes puderam conhecer o Museu Casa de Cora Coralina. A etapa mais recente foi realizada no último mês de maio. A estudante Sara Christine de Souza Portes, de 18 anos, aluna do terceiro ano do Ensino Médio, participa com entusiasmo destes eventos e também elogia a qualidade do espaço da escola. "As salas são ambientadas. Temos uma específica para cada matéria. Ao final das aulas, todo se encontram nos corredores e isso é muito bom para a interação com os colegas. O clima na escola é excelente". 

Futura bióloga, Sara se prepara para fazer o Enem neste ano e afirma que conta com aulas de reforço noturnas durante a semana e aos sábados no projeto "Goiás Enem". Questionada sobre sua opinião sobre a escola de maneira geral, é categórica: "é a melhor escola que estudei na vida". 

A diretora Rosirene Dias Rosa destaca a oferta de atividades de grupo de dança, esportes (futsal e vôlei) e ainda projetos envolvendo a Banda Marcial, que utiliza a Música como estímulo para recuperação do bom desempenho escolar, e a inclusão de alunos com Síndrome de Down e Autismo. À frente da administração da escola pelo sexto mandato, a diretora ressalta a importância da gestão com autonomia para os professores. "Quando é dada autonomia para que o educador desenvolva um trabalho nos qual ele acredita que haverá um melhor desempenho, surgem bons projetos e o resultado será sempre positivo no final", reflete. 

Formosa

"Ser professor é sinônimo de garra, persistência e muito, mas muito, foco. Persistência para continuar acreditando na educação apesar de quaisquer circunstâncias". Essas palavras foram utilizadas pela equipe do Colégio Estadual Professor Sergio Fayad Generoso em homenagem ao Dia dos Professores do ano passado postada no perfil do Facebook da unidade, localizado no município de Formosa, a 80 quilômetros de Brasília e a 282 quilômetros de Goiânia. Segundo o diretor Hander Abadia de Sousa, é com essa filosofia que a escola vem conquistando bons índices de desempenho.

A unidade chegou a ficar entre as 40 melhores do Brasil em um levantamento realizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2017 com escolas para estudantes de baixo poder aquisitivo e foi a 13ª escola com melhor desempenho do Estado no Enem 2017. Hander ressalta o trabalho em equipe e o comprometimento dos professores em fazer diferença e garantir a esses alunos condições de disputar vagas nas faculdades com aqueles de melhor poder aquisitivo de igual para igual. "Recebemos um modelo de trabalho para escola integral pré-existente que adaptamos à nossa realidade. ". Um exemplo que ele cita é o Projeto de Vida, no qual os alunos são estimulados a detectar e propor solução para problemas que impactam o cotidiano na Escola.

No ano passado, os estudantes propuseram a construção de uma praça na frente da entrada principal da unidade, com o intuito de melhorar a segurança dos alunos e facilitar o trânsito de pedestres, que tinham que disputar espaço com o tráfego intenso de caminhões. "A direção mediou a conversa entre os participantes e a Prefeitura, que comprou a ideia". A construção da praça já está em andamento. "Queremos formar esses meninos como cidadão". Há também um projeto para a formação de líderes entre jovens. "O aluno é nosso foco, nossa base para melhorarmos cada dia mais. Não é porque essa escola se destaca hoje que não há mais trabalho a ser feito. Temos que fazer muito mais", finaliza.

Ideb 2017

As boas práticas se refletem em números. Nesta segunda-feira, 3, o Ministério da Educação divulgou os dados de 2017 do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Segundo relatório da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (Seduce-GO), a rede pública goiana é líder nacional no Ensino Médio e no Ensino Fundamental II. No Ensino Fundamental I, ficou na 2ª colocação.

No Ensino Médio, a nota alcançada por Goiás foi 4,3, superando a projeção do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que era 4,2. Já no Ensino Fundamental II, a média foi 5,2, ou seja, 0,4 a mais que o estipulado (4,8). No Ensino Fundamental I, Goiás apresenta crescimento de um ponto: o Inep apresentou meta de 5,6, mas a rede estadual goiana fez 6,6.

O secretário de Educação, Cultura e Esporte, Flávio Peixoto, atribui o bom resultado ao empenho dos professores e alunos, mas estendeu também elogios ao governo. "É um momento histórico, e representa muito mais do que números. Há oito anos, estamos com a rede consolidada, na vanguarda da Educação. Esse resultado comprova que temos uma estrutura muito eficiente. Estrutura que foi montada nos dois últimos governos do Marconi e Zé Eliton, que dá ao Estado de Goiás uma tranquilidade com relação ao seu futuro", destaca.

Outras iniciativas implantadas que se destacam são o Estudo de Matemática Compartilhado, que trabalha as habilidades dos alunos de forma estratégica; o Circuito de Gestão para Resultados, que em parceria com o Instituto Unibanco promove formações de professores e acompanha o planejamento das escolas para reforçar o aprendizado dos alunos; e ainda a Caravana Aprender+, focada na capacitação dos professores e no estímulo do comprometimento dos alunos para melhor aproveitamento do material pedagógico.

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