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Escola melhor, pós-covid

O coronavírus traz lições em várias áreas. A educação não pode deixar de aprendê-las

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

Estamos no meio do furacão, ainda com escolas fechadas e com a incerteza do que pode acontecer quando reabrirem, mas mesmo assim educadores dizem que é possível já pensar em alguns bons aprendizados que a pandemia deve deixar para a educação. Eles visualizam uma escola melhor pós-covid no Brasil, partindo do princípio de que podemos reconstruir um mundo melhor depois das crises. Pode ser difícil, mas convém acreditar.

Um dos mais óbvios legados do coronavírus é a tecnologia. Professores costumavam ter medo dela. E medo, principalmente, de que ela os substituísse. Mas, ao contrário, a pandemia tem mostrado o grande valor de um professor e como é difícil ensinar. Mas também que o computador, o celular e a internet podem ser aliados e ajudar na aprendizagem e no aumento do interesse dos alunos.

Mais importante que a tecnologia, no entanto, é a mudança que tem acontecido na relação entre famílias e escolas. Em nota técnica sobre o assunto, o Todos pela Educação chama o movimento de “aproximação forçada”, mas que pode “dar início a uma cultura de diálogo e parceria contínua”.

Pesquisas no mundo todo já mostraram melhora na aprendizagem das crianças quando os pais se interessam pelos seus estudos, perguntam sobre as lições, frequentam a escola. Professores também constantemente reclamam da distância dos pais, que passaram a delegar toda a educação à escola.

Com a pandemia, mesmo as famílias mais desinteressadas ou mais ocupadas estão tendo decompartilhar o momento de ensino remoto em casa. Mães ouvem vez ou outra a aula dada pela professora pelo Zoom, ajudam em atividades mais complicadas, pais folheiam os materiais usados pelos filhos. Veem - ou se lembram - como é complicado ensinar e aprender. 

Mas essa relação nova surgiu no susto. Cabe agora às escolas continuarem a estimular os responsáveis a frequentar os compromissos escolares e, principalmente, a manter alto interesse e participação na vida escolar dos estudantes, diz o Todos pela Educação.

Muito se fala também na valorização das chamadas habilidades socioemocionais. Elas fazem parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é a diretriz sobre o que deve ser aprendido nas escolas, mas raramente consegue competir com o conteúdo de Português ou Matemática. Não há tempo ou mesmo técnica para ensinar os estudantes a terem empatia, foco, resiliência, tolerância ao estresse. Mas, depois de meses enfrentando uma pandemia, com desemprego dos pais e adoecimento de pessoas queridas, adolescentes e crianças voltarão com necessidades além das matérias perdidas.

O Instituto Ayrton Senna, que estuda as habilidades socioemocionais, divulgou um guia orientando os professores sobre o assunto no retorno às aulas presenciais. Diz o documento que para o restabelecimento da sensação de segurança é importante, por exemplo, que seja aberto espaço para discussão sobre a veracidade de informações sobre a pandemia. “Se esses assuntos forem evitados, pode-se acabar gerando um crescimento da sensação de insegurança.”

O acolhimento dos alunos deverá ser feito também de maneira interdisciplinar. Psicólogos e assistentes sociais precisam trabalhar com professores na volta às escolas - e aí está mais uma experiência que deveria ser continuada após a pandemia. Hoje é raro encontrar uma escola com psicólogos, apesar de lei que exige o profissional nas redes públicas. 

Para algo realmente mudar para melhor depois da grande desgraça que o País tem vivido, escolas particulares públicas não podem pensar apenas em medidas emergenciais. Há lições que o coronavírus traz em todas as áreas, e a educação - logo ela - não pode deixar de aprendê-las.

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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