Daniel Teixeira/ Estadão
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Neste segundo ano da pandemia, escola é vida 'normal'

A mensagem do atual momento é diferente da que a criança vinha assimilando há 12 meses

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2021 | 05h00

Cada vez menos famílias têm resistido a permitir que seus filhos voltem para a escola. E mais: elas têm cobrado os colégios particulares para que crianças e adolescentes passem mais dias no presencial. O que era uma minoria no ano passado, com pais envergonhados de dizer no grupo de WhatsApp que queriam a volta das crianças, hoje se inverteu. Não que a pandemia tenha ficado mais branda, mas quase um ano fora da escola acabou trazendo novas informações, derrubando medos, convicções e também esgotando as famílias. 

Na semana passada, após o Estadão revelar que escolas particulares já estavam recebendo 70% de seus alunos por dia, pais pressionaram outros colégios para que fizessem o mesmo. Isso apesar dos conflitos entre regras municipais e estaduais; a Prefeitura pede que continuem com 35%, enquanto o Estado permite o aumento. 

Como nem Estado nem Prefeitura parecem interessados em brigar e punir escolas particulares (ou demonstrar mais discordâncias entre as duas gestões tucanas), a confusão deve permanecer. Mesmo contentes em ver seus filhos de volta, pais e poder público precisam fiscalizar se isso está sendo feito com responsabilidade e com o cumprimento dos protocolos de distanciamento e higiene. 

Nos Estados Unidos, o novo presidente Joe Biden, que colocou a abertura das escolas como meta para os primeiros 100 dias de seu governo, destinou US $ 130 bilhões para que isso seja possível. É o equivalente a US $ 2.600 por estudante americano – em reais, quase três vezes mais que o valor mínimo por aluno/ano do Fundeb, o fundo que financia a educação pública brasileira. Não que a briga lá esteja fácil, mas, depois do investimento de Biden, até alguns sindicatos de professores mudaram de opinião e passaram a defender a volta presencial. 

Na rede particular paulista, contribui para isso a maioria esmagadora de colegas das crianças ou adolescentes que voltaram. Eles ouvem seus amigos dizerem que vão à escola e, pior, os veem na escola efetivamente. A aula ao vivo – para quem está no presencial e no remoto ao mesmo tempo – se tornou comum em 2021.

Pais também foram bombardeados durante meses com notícias, posts, vídeos que dizem o quanto é prejudicial estar fora da escola, com impactos educacionais e emocionais. 

O jornal The New York Times falou sobre “a infância sem outras crianças”. Cientistas definiram na reportagem que as interações são como “as sementes do cérebro”. Isso porque as redes neuronais são formadas a partir das trocas, seja de uma bola ou de uma frase. Algo mais preocupante ainda é que as crianças não só deixaram de interagir com outras, mas receberam a mensagem dos pais de que pessoas podem ser perigosas. Não chegue perto, ponha máscara, não encoste. 

A reportagem lembra também o quanto o isolamento tem causado de danos aos pais, que podem interferir no relacionamento com os filhos. Ficar mais tempo em casa fez a família ficar mais próxima, para o bem ou para o mal. Depois de quase um ano de pandemia, que nos deixou ansiosos, com medo de perder ou de morrer, em instabilidade financeira, trabalhando com crianças a tiracolo, um pouco de “normalidade” pode ajudar a termos uma relação mais saudável com nossos filhos. Uma amiga disse outro dia que acha que não é mais “a mãe legal” que era. 

A escola é esse gostinho de vida normal para as famílias. Mesmo que continuem não visitando parentes, frequentando restaurantes, pulando carnaval. A mensagem que a escola passa é muito diferente da que a criança vinha assimilando há 12 meses. É a de que precisamos estar perto uns dos outros para aprender, crescer, sobreviver.

*É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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