WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Com apoio, Pina hoje cursa engenharia no Insper WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Escola de programação vai pagar para aluno estudar e garantir emprego

Startup de impacto social Alpha EdTech tem foco em jovens em situação de vulnerabilidade, para ajudar a reduzir déficit de profissionais em tecnologia; inscrições abrem na sexta, 6

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 05h00

Nascido e criado em São José dos Campos  (SP), Roger Pina, de 20 anos, é um dos poucos entre os seus amigos de infância que conseguiu ingressar em uma graduação. Filho de um professor de educação física e uma empregada doméstica, atualmente ele mora na capital paulista, onde cursa o 6º semestre de engenharia de computação no Insper. Mas, até poucos anos, ele nem imaginava que essa viria a ser a sua realidade.

Inspirado em histórias de jovens como Roger, o Instituto Alpha Lumen, com o apoio da Fundação Brava, da Fundação Behring e de André Street, cofundador da fintech Stone, criou uma nova escola de programação no Brasil que irá remunerar o aluno para estudar. Com metodologia própria, a Alpha EdTech, como foi batizada, ainda garantirá emprego ao estudante ao final dos três semestres de curso.

As inscrições para o processo seletivo da turma piloto começam na próxima sexta-feira, 6, quando ocorrerá o lançamento oficial da escola em evento pela internet. Serão 48 vagas disponíveis para todo o País. Para participar é necessário apenas ter concluído o ensino médio e não há limite de idade. As aulas serão online e começarão em janeiro.

“De onde venho, muitos conhecidos precisaram largar a escola ou nem iniciaram a graduação para poder trabalhar. Os poucos que hoje vejo em universidades são os que conseguiram aproveitar oportunidades”, conta Roger, que viu sua vida mudar após cursar o ensino médio no Projeto Escola do Alpha Lumen, onde teve o primeiro contato com programação. 

“Passei no processo seletivo e, com o apoio do instituto, fui apadrinhado pelo André Street, da Stone, que investiu nos meus estudos”, conta. Roger foi aprovado no vestibular do Insper como bolsista, o que permitiu sua mudança para a capital paulista. Hoje, também faz parte do corpo técnico da Alpha EdTech, ajudando a formular as aulas e a ementa do programa. 

Além de capacitar e promover a inclusão de jovens em situação de vulnerabilidade no mercado de trabalho, a startup social nasce com a proposta de ajudar a reduzir o déficit de mais de 300 mil profissionais digitais no Brasil estimado para 2024. É o que informa o estudo desenvolvido pelo Centre for Public Impact (CPI) em parceria com a Fundação Brava e o BrazilLAB.

Não por acaso, houve um boom de escolas de programação no Brasil nos últimos anos. Entre as mais conhecidas estão a École 42, cujo ensino é gratuito, a Trybe e a Kenzie Academy, que são baseadas no modelo americano de financiamento estudantil ISA (Income Share Agreement), no qual o pagamento do curso ocorre após o aluno estar empregado. 

Porém, ainda de acordo com o estudo, intitulado ‘Como o Brasil pode ampliar o ecossistema de profissionais digitais?’, os custos financeiros das formações e capacitações são vistos como os maiores obstáculos para as pessoas prepararem sua carreira.

“Quem está em situação de vulnerabilidade precisa de soluções rápidas que tragam transformação e oportunidade. Antes de tudo, necessitam sobreviver e por isso não têm condição de ficar de quatro a cinco anos na faculdade”, ressalta Nuricel Villalonga, CEO e fundadora do Alpha Lumen, instituto que atua na geração de impacto social, por meio de projetos voltados à educação e ao apoio a talentos.

“O modelo que desenvolvemos permite que ele se dedique integralmente aos estudos, o que vai agilizar o processo de formação”, completa Nuricel.

Ajuda de custo e primeiro emprego

Quem ingressar na Alpha EdTech receberá, desde o primeiro semestre, um auxílio mensal no valor de R$ 1 mil. De acordo com Letícia Piccolotto, presidente da Fundação Brava, foi necessário um investimento inicial no valor de R$ 500 mil, viabilizados pelos fundadores, para a estruturação da escola, que é uma organização sem fins lucrativos.

“No estudo, mapeamos mais de 30 experiências internacionais em 14 países e a Alpha EdTech foi uma das soluções encontradas, de curto prazo, que pode ser priorizada rapidamente com investimento considerado baixo. Isso porque, além de formar profissionais, a escola promove uma interação entre os setores público e privado e a academia, para a articulação de uma agenda nacional, algo que já acontece mundo afora”, afirma Letícia, que também é CEO e fundadora do BrazilLab, o primeiro hub de inovação GovTech do Brasil. 

Para Roger, a iniciativa abre oportunidades para aqueles que querem crescer e não têm condições. “Foi o que aconteceu comigo. Fico feliz de também poder fazer pelos outros”, diz ele, que sonha em comprar uma casa para a família e trabalhar em grandes empresas de tecnologia, como Microsoft e Google. 

Sonhos estes que, na opinião do ‘padrinho’, André Street, têm tudo para serem alcançados. “O Roger é um garoto fantástico, bem formado emocionalmente e academicamente, um exemplo.”

Para que a formação do aluno esteja de acordo com as habilidades requisitadas no mercado, a metodologia da Alpha EdTech será feita por trilhas, que abrangem desde as áreas de desenvolvimento técnico em programação até soft skills ou competências comportamentais. A grade ainda conta com projetos práticos em empresas parceiras e horários de estudo livre.

“Vamos selecionar pessoas que têm potencial ou grande determinação e fazer um trabalho socioemocional, ampliando o mindset (mentalidade), as soft skills e prestando assistência social para que ele vá em pé de igualdade com qualquer outro profissional no mercado. É uma gama de suportes que é pouco comum nas demais escolas de programação”, destaca Nuricel.

Para a trilha de soft skills, os conteúdos serão divididos em blocos de desenvolvimento pessoal e carreira. O primeiro tratará de temas como projeto de vida, inteligência emocional, ferramentas para a produtividade, inovação, empreendedorismo e novas competências. Depois, o foco recai sobre as demandas do mercado e processos seletivos. 

Essas habilidades, para além da técnica, já são prioridades na escolha de candidatos por parte dos recrutadores em empresas de tecnologia, como a Stone - fintech de serviços financeiros e de pagamentos.

“É muito importante associar o processo de aprendizado à vida empresarial. Queremos conhecer os anseios das pessoas. O que mais nos interessa é a vontade de se desenvolver”, afirma André Street, cofundador da Stone. 

Segundo ele, a área de tecnologia vai empregar a grande maioria dos jovens nas próximas décadas. “O investimento agora é exatamente direcionar a formação para as habilidades das profissões do futuro. Tornar a área de tecnologia mais acessível vai facilitar às empresas e aos governos conseguirem esses profissionais”.

 

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Empresas ajudam a pagar alunos de olho em mais profissionais no mercado

O candidato à Alpha EdTech passará por minicursos preparatórios e participará de avaliações diagnósticas e de perfil. Nos primeiros seis meses, haverá somente aulas online

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 05h00

No processo seletivo, o candidato à Alpha EdTech passará por minicursos preparatórios e participará de avaliações diagnósticas e de perfil. Após aprovado, o aluno terá uma grade curricular extensa, com aulas de segunda a sábado, o que vai requerer ao menos 8h de dedicação diárias, ao longo de três semestres. 

Nos primeiros seis meses, haverá somente aulas online. A partir do segundo ciclo, o estudante passa a atuar em empresas parceiras, as quais vão prestar informações sobre a sua evolução e o que precisa ser aprimorado na qualificação. As atividades do programa são variadas e incluem resolução de desafios, desenvolvimento de projetos, participação em competições, aulas de inglês, webinars com empresários e entrevistas semanais. 

De acordo com Nuricel Villalonga, CEO e fundadora do Instituto Alpha Lumen, a vantagem de o curso ser digital é a possibilidade de dar oportunidades a todos, sem limites geográficos. “Quando chegar a hora da prática, a pessoa poderá, por exemplo, trabalhar remotamente. Essa lógica de ensino, que antes da pandemia era vista como algo ineficaz, não deixa mais dúvida. Tanto empresas quanto instituições, agora, entendem que é uma solução possível.”

Ao final da capacitação, no terceiro semestre, o aluno se tornará um profissional sênior e estará integralmente dedicado à prática. “Ele termina com certificado de programador, portfólio e um emprego na empresa que o acompanhou. Esperamos que se torne embaixador do projeto e orientador de novas turmas”, acrescenta Nuricel.

Em 2021, a Alpha EdTech prevê abrir vagas para pessoas que não estão em situação de vulnerabilidade social, porém, mediante contribuição. O valor dependerá de uma avaliação socioeconômica do candidato. Na experiência da fundadora do Alpha Lumen, essa interação entre públicos contribui para a formação de todos. 

Para trazer uma visão mais próxima do que o mercado de trabalho necessita, a Alpha EdTech conta com apoio de empresas, ONGs e profissionais voluntários. Muitos deles foram ex-alunos do Instituto Alpha Lumen. É o caso de Rebecca Calazans de Brito, de 26 anos, que se formou em engenharia de computação pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e, hoje, trabalha na Microsoft

“A tecnologia é um campo importante e está em crescimento, o que é uma oportunidade para muitos, como foi para mim. Porém, ainda é elitizado. A maior parte das pessoas não tem conhecimento nem acesso aos cursos”, destaca Rebecca, que está de home office na casa dos pais, em Parauapebas, no Pará. Quando a pandemia acabar, ela será transferida para Vancouver, no Canadá

Entre as empresas que estão apoiando a Alpha EdTech, além da Stone, ainda há a Hash, Brex, Vitta e Farfetch, as quais ajudarão a construir as trilhas formativas, acompanharão de perto a capacitação dos alunos e poderão contratá-los ao fim do processo.  

“Nossa maior dificuldade hoje é encontrar profissionais. Por isso, a proposta é fazer uma formação mais acelerada e bem qualificada para que o aluno possa, tão logo, estar empregado. É importante tornar esse conhecimento acessível, visto que essa é uma demanda global”, explica Tacio Medeiros, sócio e cofundador da startup de saúde Vitta.

João Miranda, fundador e CEO da Hash, ainda destaca a necessidade de tornar o setor mais acessível e diverso. “O mercado de tecnologia é um dos que mais crescem, mas quem não teve uma boa base de ensino dificilmente tem conhecimento sobre esse conteúdo e não consegue se desenvolver”, observa.

Essa foi a realidade de Samuel Porto, de 22 anos, até ele receber uma bolsa para cursar o ensino médio no Instituto Alpha Lumen. Atualmente, ele está no 6º período de engenharia de computação no Insper, onde recebe auxílio mensal, e também integra o corpo técnico da Alpha EdTech. “Tive o meu primeiro computador quando entrei para a faculdade”, conta.

Filho de uma faxineira e de um operário industrial, ele estudou boa parte da vida em escolas públicas. “Certa vez, uma diretora disse à minha mãe que eu iria virar traficante e não daria em nada na vida. São coisas que a gente engole seco e usa como motivação”, lembra ele, que ajudou a fundar o coletivo Raposas Negras no Insper

Nem todos os seus amigos, no entanto, tiveram as mesmas oportunidades e, por isso, tomaram rumos diferentes. “Alguns nem estão aqui para contar a história”, lamenta Samuel, que já fez estágio em grandes empresas, como Vórtex e BTG Pactual, mas acredita que seguirá a carreira acadêmica. “Acho muito nobre a profissão de educar. Por causa disso, consegui aprender. O Alpha me ajudou a desenvolver como pessoa e como profissional. Tenho um mundo ainda para conquistar.”

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