Cristina Quicler/ AFP
Cristina Quicler/ AFP

‘Escola de bairro é sonho de pedagoga, não de especialista em crise’

Segundo coordenador no Insper, retomada será crítica sobretudo nas instituições menores e retorno das crianças dependerá de informações claras sobre cuidados

Entrevista com

Tadeu da Ponte, coordenador de processos seletivos no Insper e professor na área de métodos quantitativos

Luciana Alvarez, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 05h00

Colégios de bairro, que oferecem sobretudo a educação infantil, cumprem função fundamental de desenvolvimento cognitivo e social, destaca Tadeu da Ponte, coordenador de processos seletivos no Insper e professor na área de métodos quantitativos. “Uma escola de bairro de educação infantil é o sonho de uma pedagoga, não de uma empresária especialista em gestão de crise”, explica o matemático sobre as dificuldades acumuladas no setor. 

Pensando na educação do Brasil como um todo, as escolas pequenas, de bairro, têm um papel de pouca importância?

Não, embora seja percebido dessa forma. As próprias famílias olham para as escolas de bairro, e para a educação infantil no geral, como um lugar para deixar a criança durante um tempo em que o pai e a mãe têm de trabalhar. Mas temos uma enorme assimetria entre a percepção dos pais, da sociedade como um todo, e o que a evidência científica em educação nos revela. Os estímulos que a criança recebe na primeira infância são cruciais para o desenvolvimento cognitivo e emocional. A criança receber estímulos adequados na primeira infância traz impactos até o ensino médio, até a vida profissional. O segundo ponto é o contato dessa criança com outras, que cria também estímulos para ela se desenvolver e aprender. Por mais que as escolas de bairro, pequeninas, não tenham o prestígio ou porte da grandes, elas fazem um trabalho fundamental para o desenvolvimento infantil. 

Muitas instituições faliram na pandemia. Isso é, então, um problema para o País?

Exato. Lembro que em abril me perguntaram sobre a importância de adiar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Claro que é importante respeitar o tempo do estudante que está agora no último ano do ensino médio, mas me preocupa muito mais o Enem de daqui a 15 ou 16 anos. Aquilo que a gente pode perder com o fechamento de escolas e diminuição da disponibilidade de vagas na primeira infância vai ter um efeito bem mais sério. O aluno que vai prestar Enem neste ano não consegue dar aquela corrida final. Mas os do ensino infantil estão no início da trajetória deles, então é uma perda menos recuperável. No Plano Nacional de Educação, uma das metas é universalizar as creches. Ainda antes da pandemia, na área pública, essa era uma enorme batalha dos governos municipais, que são os responsáveis. A gente retrocede com o fechamento dessas escolas. 

E há outro tipo de prejuízo? 

Sim: as situações de abuso, agressões, violência física. Eu comparei os estímulos limitados que a criança tem ficando em casa com os estímulos dentro de uma estratégia pedagógica de uma escola, mais o contato com outras crianças, porque minha área de trabalho é análise de dados em avaliações. Os abusos são questões importantes, mas fatores difíceis de mensurar. De qualquer forma, a escola é um ambiente seguro, com regulação entre pares. É muito raro acontecer abusos na escola, muito mais do que nas casas. Esse tem de ser um ponto de atenção. 

É possível prever um cenário para os próximos anos? As escolas pequenas vão reaparecer?

É difícil prever. Uma escola de bairro de educação infantil é o sonho de uma pedagoga. Em geral, essa pessoa não é uma empresária que lida bem com as finanças, gestão, crise. É alguém que gostava de educar crianças, começou com um pequeno grupo, cresceu, tinha uma escolinha de 40 ou 50 alunos. Trabalhava num regime de caixa: arrecadava as mensalidades, pagava as despesas. Imagina o trauma dessa pessoa viver uma situação em que vê sua receita indo embora até o momento de fechar. Não sei com que velocidade, pensando num agregado de mercado, essas pessoas voltariam a arriscar. O vínculo entre as famílias e a escola é bastante forte. Possivelmente essa famílias, na retomada, exerçam algum tipo de influência, pedindo pelo retorno. Mas não sei o quanto o trauma vai ser relevante. 

O que acontece quando a demanda pela educação infantil em escolas particulares voltar?

Podemos estabelecer alguns cenários. Nas escolas maiores, houve redução ou fechamento desse segmento, mas as instituições continuaram operando os ensinos fundamental e médio. As instituições maiores talvez tenham mais agilidade para absorver essa demanda. Em um bairro em que havia dez escolas pequenas e uma grande, todas dividindo a demanda pela educação infantil, talvez sobrem cinco pequenas e a grande absorva o restante. Uma coisa é certa: onde houver a demanda, ela vai puxar a oferta. Embora não seja tão automática a volta dessa capacidade instalada, de alguma forma a oferta vai voltar. Há dois fatores complexos no meio. Há muitas educadoras mais velhas, no grupo de risco, particularmente na educação infantil. Em um cenário de transição, não sei o quanto os donos de escola contarão com sua disponibilidade de equipes. Outra questão: os protocolos de saúde são bem complicados para a educação infantil. Você tem de manter o ambiente muito higienizado, manter um controle grande se alguma criança está apresentando sintoma, estabelecer novos acordos com as famílias. Além da barreira da decisão de negócios, tem barreiras de operação. 

Para as escolas que sobreviveram até agora, o que devem fazer para se manter no mercado?

Um grupo de famílias precisa da escola logo. Quem está precisando da escola agora é quem está trabalhando. Quem está trabalhando é quem tem menos perda de renda. Por mais que a solução doméstica encontrada depois de tanto tempo de pandemia já não seja tão provisória, não quer dizer que seja uma solução confortável. As escolas que estão operando devem ser adaptáveis, rápidas para identificar a melhor maneira de atender o que as famílias precisam. Se for dois dias na semana, que sejam dois dias bem planejados. Precisam ainda mostrar para as famílias o cuidado que vão adotar com a saúde. 

Por que essa comunicação é importante?

Nas pesquisas, tem um grupo que quer que as crianças voltem com certeza, outro que não quer de jeito nenhum. Mas o maior grupo de pais diz “depende”. Depende de como for o cuidado, o protocolo. Eles mostram uma insegurança. Uma vez o serviço podendo ser efetivamente prestado, o quanto melhor as escolas conseguirem lidar com esse depende, com essas condicionantes, elas vão ter certamente um desempenho melhor. A sobrevivência da escola pequena está relacionada a questões sistêmicas. É necessário a retomada da economia para geração de demanda pela escola, a permissão para voltar a operar e uma agilidade da escola em atender as famílias no novo modelo. 

Uma concentração das vagas particulares em turmas de grandes grupos é ruim? 

Existem prós e contras na consolidação do mercado de educação básica. Consolidação é ter menos mantenedores sendo donos de mais unidades, atendendo a uma fatia maior da demanda. Um ponto positivo é que, numa rede, você tem em geral uma inteligência pedagógica com mais recursos. Há uma área que faz o planejamento de currículo, outra a formação dos coordenadores e professores. Uma escola individual não consegue ter uma equipe de pedagogos só pensando no currículo. Tem de fazer isso enquanto dá aula e socorre o menino que quebrou o dente. Uma desvantagem de uma consolidação de mercado em educação básica é aquilo que a teoria econômica aponta como ruim em qualquer tipo de monopólio ou oligopólio: o controle sobre os preços. A mensalidade pode ficar mais cara para as famílias e as condições de remuneração e trabalho para os professores ficarem piores. Se tem um grande contratante que emprega quase todo mundo numa região, ele paga o quanto ele quer. Mas estamos muito longe de ter um oligopólio. 

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PARA ENTENDER - A situação das pequenas escolas

A Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) diz temer que até 80% dos colégios de educação infantil sejam forçados a fechar as portas em definitivo como consequência da pandemia. A União pelas Escolas Particulares de Pequeno e Médio Porte, uma organização sem fins lucrativos criada durante a pandemia, estima que no Brasil entre 30% e 50% dos estabelecimentos de pequeno e médio porte (de todas as etapas de ensino) estejam em risco de falência.

No Estado de São Paulo, há 10 mil escolas particulares, com 2,4 milhões de alunos. De acordo com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), 80% desses empreendimentos são de pequeno porte.

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