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Era uma vez...

Ouvir e contar histórias é o primeiro passo para dar à criança vontade de ler

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2020 | 05h00

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a olhar!”

Desde que conheci essa história de Eduardo Galeano, nunca mais me esqueci dela. E um dos motivos é que, entre tantas possibilidades que oferece, ela mostra, principalmente, que são as histórias que nos ajudam a olhar o mundo, a ver e entender melhor a vida como ela é. Para crianças, é uma oportunidade incrível a de ouvir histórias, tanto em casa quanto na escola, e aprender com elas. Você, certamente, já teve a chance de contar histórias para seu filho ou alunos. Temos esse costume principalmente quando são pequenos. Mas, aos poucos, vamos perdendo a paciência e deixando de lado essa atividade, que é tão prazerosa para a crianças e para os pais também!

Antes de a criança ter aprendido a ler nossas letras e saber o significado de muitas palavras, ela consegue absorver a narrativa da história que ouve. E essas histórias falam diretamente ao coração: ela lê imagens no livro, a postura dos pais, a sonoridade de sua voz e emoções que eles imprimem à história. Ela se identifica, positiva ou negativamente com personagens, e vive intensamente muitas das experiências que eles transmitem. Como alguém já disse, ler é viajar sem sair do lugar, viagem essa que não é apenas para conhecer lugares, mas também – e principalmente – para se conhecer e aos outros.

Se você tiver a oportunidade de observar uma criança – ou um grupo delas – ouvindo alguém contar uma história, você vai ver, nas expressões faciais dela e na linguagem corporal, o universo de emoções que a assaltam. 

Não é preciso ter um objetivo para contar uma história para a criança por um motivo simples: ela sempre vai superar qualquer objetivo que tenhamos colocado porque irá muito além deles. Há pais e professores que escolhem temas que acreditam ser importantes para a criança naquele momento. Pois saiba que ela é capaz de encontrar tela, nas palavras ou narrativas, para pintar nelas o que precisa no momento. Desse modo, não precisamos ler histórias sobre morte ou evitá-las, por exemplo, quando a criança passa por uma perda familiar ou de um animal de estimação.

A leitura de histórias para crianças é tão importante que astronautas na Estação Espacial Internacional encontram um tempo para ler livros para as crianças (veja em storytimefromspace.com). Imagine o valor dado pela criança à leitura ao saber que astronautas dedicam tempo para ler para ela.

Precisamos valorizar o ato de contar histórias aos mais novos e, aos poucos, estimular também que eles nos contem as suas. Podem ser histórias inventadas, sobre o dia que passou ou mesmo aquelas que vivem apenas dentro de cada um de nós. O que importa é que aprendam a tecer narrativas. Ouvir e contar histórias é o primeiro passo para dar à criança e ao jovem a vontade de ler. Nós, brasileiros, lemos pouco – em média, 2,43 livros por ano. Esse fato empobrece a leitura que fazemos do mundo!

Se a criança pequena adora ouvir histórias, certamente tem potencial para gostar de ler. Mas não sabemos como colocar esse prazer em ato; ao contrário, muitas vezes desestimulamos a leitura. O modo como muitas escolas tratam o livro e a leitura com seus alunos é um exemplo. Vamos, como astronautas, buscar encantar os mais novos pela leitura. É possível! E nem precisamos estar na estação espacial. Basta iniciarmos a narrativa com uma frase mágica que, na infância, é: “Era uma vez...”. 

É PSICÓLOGA

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