Entrevista: Web no centro da USP

Diretor da FAU propõe usar a internet para mudança estrutural e política na universidade

Entrevista com

Elida Oliveira, Especial para O Estado de S. Paulo

01 Julho 2009 | 11h28

Integrante do movimento estudantil de 1961 a 67, Sylvio Sawaya – diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e membro do Conselho Universitário da USP – mantém a inquietação dos tempos em que enfrentou a ditadura. Se ainda há revoluções a serem feitas, ele propõe a digital: a USP 2.0. É de Sawaya a ideia de repensar a universidade e a estrutura acadêmica por meio da internet, com o uso de ferramentas colaborativas, que ele expõe abaixo:    Como surgiu a ideia de fazer o sistema online? Quando fui presidente do DCE em 1963 organizamos com o reitor à época Antônio Barros Ulhoa Cintra o I Fórum Universitário da USP. Ele era o presidente, eu era o vice e o FHC (Fernando Henrique Cardoso) era o secretário. Ficou a sensação de que era possível fazer um fórum de debates. Naquela época havia clima para discussão. No ano seguinte, veio a ditadura e tudo se perdeu. Em 2007 (após a ocupação da reitoria) surgiu a comissão de negociação para dar fim à greve, e uma das determinações era fazer um congresso na USP em 2008. Imaginei que seria como em 63, com a participação do reitor. Mas não aconteceu. Foi delegado ao DCE a organização do fórum e, de uma certa maneira, ele delegou ao Sintusp e à Adusp. Além da articulação ter sido precária, houve desentendimento entre as partes. A universidade havia se preparado e todos tiraram uma semana para participarem do evento -- clínicas foram fechadas, aulas foram suspensas. O evento foi cancelado. Ficamos frustrados. Aí pensei: A USP não tem uma representação que promova a coleta de opiniões.    A internet viria para ajudar nisso. Com o uso de softwares plebiscitários e certificados lançaremos a pergunta e o sujeito responde. A ideia era abrir para estudantes, funcionários, professores e sociedade para fazer uma coleta de opiniões. (Isso porque) a estrutura de representatividade na USP é formada por comissões e deliberações. Essa estrutura não permeia a opinião da USP porque os assuntos vão sendo encaminhados verticalmente e perde-se a história de cada um. A informática dá essa chance de abrir para todo mundo (opinar) sobre uma questão e permite uma leitura por setores (a certificação do sistema filtraria os dados, permitindo leituras cruzadas e separadas por faixa etária e unidades de ensino, por exemplo). Hoje você tem muito vivo o que pensa cada unidade: o Direito, a Poli, a Arquitetura, mas não se sabe o que é a USP como um todo.   A adoção deste sistema é para já? Não, este é um programa de começo de gestão. Ficará para a próxima. A USP precisa de uma ótima gestão com respeitabilidade, capacidade de diálogo e ousadia para implementar um sistema deste.   Se em 1963 se fez um debate entre todos os setores da universidade e agora a crise institucional da USP mostra que isso não é mais possível, o que se perdeu? Aqueles foram os anos mais produtivos do Brasil. Discutia-se sobre várias reformas e nós pensávamos em um projeto para o Brasil. Hoje o País está interdependente de um mundo globalizado. O projeto não se coloca como naquela época. Agora temos que saber quem somos para nos colocarmos no mundo. Se antes precisávamos construir, hoje precisamos saber quem somos. Isso quer dizer que não se discute a universidade em si, mas a universidade no mundo. (Nos debates atuais) ninguém faz isso.   Onde se faz? Em outras universidades estrangeiras há planos estratégicos que são revistos de cinco em cinco anos. Há atualidade de se pensar. Em Carnegie Mellow (Estados Unidos) há um plano sucinto que traz em um dos pontos a sustentabilidade da universidade -- e explica como fazer isso. Fizemos uma coletânea de diversas universidades americanas para ver como era o plano deles. Ao invés de campanhas, fazemos estudo. Em uma possível proposta para a Universidade de São Paulo, já temos 17 pontos anotadas e 8 projetos específicos. Em cima disso, trabalhamos uma estratégia. (Além da Carnegie Mellow, o grupo formado por dez pessoas, entre professores e alunos, também estudou a Purdue University, MIT, Stanford University e Stanford University of Medicine, Berkeley e UC Berkeley, e Illinois. Todas possuem plano de gestão que colocam a universidade como ponto central na construção de uma sociedade e detalham metas e estratégias para chegar aos objetivos traçados. As instituições que disponibilizam tais planos na internet podem ser acessadas aqui).   Seria um plano de governo para a gestão da próxima reitoria? É, com certeza, um plano de gestão. Vem da idéia que a USP passa por uma transformação importante, na qual é essencial conversar mais e se conhecer melhor. Em 1963 aprendemos a tocar grandes assembleias. Sabíamos conduzir um assunto. Distribuíamos perguntas em seções, havia uma lista de oradores, foi uma pena isto ter sido truncado (pela ditadura). Mas não penso nisso para uma gestão minha, abriria para outros candidatos. Eu teria impedimentos para me candidatar a reitor porque teria que me aposentar um ano antes de terminar o mandato. (Pelo estatuto da universidade, aos 70 anos há a aposentadoria compulsória. Sawaya tem 66 anos.)    As propostas para esta possível nova reitoria seriam colocadas em votação no sistema de consulta antes de serem implantadas? Sim, para saber a opinião de todos e quebrar com a estrutura de representação senatorial do Conselho Universitário, com dois membros por setor da universidade, nem todos representativos. A maioria dos membros são professores titulares, com idade acima de 50 anos. Se houvesse representação proporcional entre doutores e livre docentes, por exemplo, a variedade etária já seria maior. Também deveríamos cumprir na USP as determinações da LDB (Lei de Diretrizes e Bases, que pede que haja 70% de docentes e 30% de alunos e funcionários. Na USP esta proporcionalidade não é respeitada). Poderia haver representação proporcional ao número de alunos de cada unidade. Daria muita gente, mas se fosse dividido por câmeras, com reuniões gerais de três em três meses, daria para trabalhar.   Eu ainda acho que a USP também poderia ser dividida em quatro grandes regionais, cada uma com seu vice-reitor. Seriam em Piracicaba, Ribeirão Preto, São Paulo e no Vale do Parnaíba. No centro da cidade haveria a reitoria central. Mas para isso acontecer, teria que haver muita clareza para reestruturar e atualizar o estatuto da USP, o que levaria um ano.   O que interessa não são os tópicos perguntados, mas a relação que se estabelece entre eles e a estratégia que se traça. No fundo, o objetivo é criar uma base para as estratégias se deliberarem. Este é o momento que dá para isso acontecer. O clima fervilhante mostra que há alguma coisa que não conseguimos entender. O debate tem que ser conflitante. Já imaginou a riqueza de ideias que há na USP?   O que seria mais importante mudar na USP? Na graduação é importante que o aluno possa percorrer a USP toda, se matricular em diferentes disciplinas e, ao completar todos os créditos, graduar-se no curso. Hoje isso é possível, mas há restrições. Na pós-graduação, que já tem característica interdisciplinar, deveria haver uma 'pós da USP', que tratasse de questões de interesse da universidade. Na pesquisa, deveríamos favorecer a interculturalidade e a troca. Hoje, falta apoio para isso acontecer. Deveria ser possível fazer pesquisa de tudo, mas investir em algumas áreas para a USP se destacar e ser vanguarda. Na área de cultura, a universidade deveria ir mais até a sociedade, captar o que ela precisa e trocar. Não é uma beemência, é um vai e volta importante.   Algumas destas ideias coincidem com a pauta dos estudantes, como o investimento em pesquisa e extensão. Se eles querem isso e outros setores da universidade também, por que não acontece? Hoje cada um fala uma linguagem. Podemos trabalhar e criar uma dinâmica conjunta. A ideia é agregar força e opinião. Não é o momento de sectarizar. Na USP falta hoje um espaço de convivência, o próprio câmpus do Butantã é um obstáculo para a cidade, que cresceu em volta. Há quem critique os muros da universidade, outros o apóiam. A Cidade Universitária dá a ideia de um lugar edílico, mas na verdade ele é pouco articulado.   O senhor aderiu à greve? Não. Há maneiras de se negociar e a greve é um instrumento desgastado. Contando o tempo que se para todo ano, perde-se pelo menos dois meses letivos em oito que temos. É 25%. Fazer política é uma coisa, agora, usar esta forma, é outra. Há quem confunda que o movimento seja de esquerda apenas pelo modo como é feito, não pelo objetivo.     O que o senhor pensa da mobilização dos alunos pela internet? Enquanto estudávamos isso (o sistema de consulta de opinião online) surgiu a campanha na EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades, a USP Leste). O problema da radicalização na USP é que ela fez surgir os extremos. Se deixarmos o barco correr do jeito que está, não teremos controle. Achamos que se houver consulta pública de opinião, poderemos contornar os problemas. Isso é interessantérrimo, ultra-atual e moderno. Se houver um instrumento da universidade que tenha leitura de segmentos e gráficos, teremos um instrumental rico, que nos obrigará a pensar concretamente quem somos.   De um lado há a mobilização pela internet e, de outro, a posição contrária à Univesp. Qual a sua opinião a respeito deste tema? Temos que ter cuidado para não ficarmos presos no tempo. A Universidade de Danúbio, na Áustria, tem 30% de aulas presenciais em cursos normais. A grande questão não é optar por um ou outro (aulas presenciais ou cursos a distância). É uma forma antiga de se pensar a educação, com o professor te provendo. Antes o professor tinha o monopólio do conhecimento e te informava; hoje, o acesso à informação é enorme. A educação tem que criar ambientes de informação e socialização para ser organizada. A crítica inicial dos alunos contra os cursos a distância era uma postura claramente elitista, uma reserva de mercado para que outros não tivessem o diploma USP como eles. Ao contrário do que os alunos pensam, a comunicação em tempo real pela internet promove encontro e debates, e tudo fica registrado.   O senhor acha que um intrumento de consulta de opinião institucionalizado pela USP será aceito pelos estudantes? Eu sempre achei que sim, mas por conta dos acontecimentos da semana passada (do dia 19 de junho, em que alunos antigreve foram reprimidos pelos grevistas após organizarem encontros pela internet), já tenho as minhas dúvidas. Mas o instrumento será isento. O que sair de opinião, saiu. Não terá como interferir.   Está me parecendo que há uma USP em efervescência intelectual, que anseia pela modernidade e troca de opiniões, e outra burocratizada, fechada em representações verticais que não condizem com a comunidade uspiana. É isso mesmo? Vamos com calma. Poderíamos dizer que há a forma atual de representação, que é a mesma de 20 anos atrás, quando foram feitas as reformas na USP. E tem a USP real, com projetos, articulações, trocas de ideias. Há um cotidiano na USP de pessoas muito capacitadas, que são encantadoras e dedicadas. Se você vai em uma reunião de conselho, todos estão com as expressões fechadas. Se você pergunta para um deles o que ele faz, a expressão já muda. Ele vai dizer o que pesquisa, o que desenvolve, como isso pode ajudar as pessoas. Eu já propus, inclusive, fazer documentários com as pessoas e os espaços da USP. Imagine a riqueza de histórias, o cotidiano que é diferente da estrutura ritualizada. Eu gosto sempre de citar uma frase de Adolfo Melphi (ex-reitor), que dizia que 'a USP é uma federação de unidades'. E é mesmo. A estrutura do campus possibilita que haja diferentes microclimas dentro de um mesmo espaço. O cotidiano das unidades é muito maior do que o cotidiano burocratizado.   Como você acha que o sistema de coleta de opiniões poderia contribuir para mudar um pouco esta realidade? Espero que isso funcione de maneira não manipulada. O importante será sabermos qual é a opinião da USP, independente de qual seja. Eu sou membro do Conselho Universitário há seis anos, diretor da FAU há dois anos e meio. Meu pai (Paulo Sawaya, biológo) foi um dos fundadores da USP e eu nasci neste ambiente. O que estou querendo dizer é que a universidade era assunto de casa. E eu vivi a dualidade ao ser profissional da USP e ter escritório de arquitetura fora. A USP está encalacrada dentro deste espaço. Todo mês de maio a reitoria é tomada. Isso não pode ser assim. Hoje o mundo é outra coisa. Desde a greve de 2007 eu vi claramente que há uma estrutura de representação e outra de opinião. Ter uma opinião forte, feita, é muito melhor do que colocar pessoas no conselho para trabalharem uma informação e se convencerem de uma proposta. Aí pensamos que a internet ajudaria. Trabalhar em tempo real a informação. Uma estrutura forte de opinião pautará a representação e cria também a imagem da complexidade belíssima que é a USP. Esta instituição tem um valor muito grande e não pode se perder.   Ainda há, dentro de você, uma inquietação de quem participou do movimento estudantil? Total. Quem esteve na política estudantil de 61 a 67 nunca mais esquece a escola que tivemos, a cultura política que vivenciamos. Eu estou, inclusive, na lista do Livro Negro da USP (reeditado em 2004 com o nome O Controle Ideológico na USP (1964 - 1978), pela Adusp). A tradição oral de turma a turma, debatendo temas, foi interrompida com a Ditadura, sobretudo nos anos 70. Em 80 a juventude já vem marcada pelo individualismo e em 90 os jovens são aturdidos pela mundialização, quando ficou difícil até se situar. Depois de 2000 tenho percebido que é muito importante para o jovem se situar. A faculdade é um tempo de troca, mas é também quando você precisa encontrar o seu nicho.

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