Entrevista: 'É preciso viver fora, conhecer culturas'

Para economista do BID, vizinhos latinos têm mais garra do que brasileiros

Sérgio Pompeu,

25 Agosto 2009 | 06h10

Especialista em financiamento de projetos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Renato Mazzola, de 33 anos, tem vivido dias atribulados em Washington. Está na fase final de uma complexa operação financeira, iniciada há 2 anos, para a concessão de um empréstimo de R$ 2,5 bilhões para o Rodoanel.Ele lamenta a falta de disposição de colegas brasileiros de se aventurarem no exterior. "A melhor maneira de atrair capital para o Brasil, fazer uma globalização real, é saindo para conhecer outras culturas, aprender como se faz negócio fora."   Como um jovem brasileiro que fez carreira no exterior vê esse novo papel do Brasil no contexto da globalização? Temos pessoas preparadas para liderar esse processo de internacionalização? Talvez soe meio arrogante, mas a melhor forma de a gente fazer o Brasil crescer e se integrar no mundo é vir para fora e conhecer a cultura, a maneira de pensar, negociar, das pessoas de outro país. Tem uma rodovia – eu não posso dizer qual – que nós vamos financiar no ano que. Ela não iria sair, iam levar os recursos para outro lugar. Briguei e mostrei a importância do projeto. Até nesse sentido, o fato de ter mais brasileiros fora, fazendo propaganda do Brasil, é um meio de atrair recursos.   Qual é sua formação? Sou economista graduado pela PUC de São Paulo, tenho MBA em Mercado de Capitais pela USP e, sete anos atrás, com bolsa da Fundação Estudar, fiz mestrado em Relações Internacionais na Fletcher, a mais tradicional da área nos Estados Unidos (fundada em 1933, a Fletcher é ligada às Universidades Tufts e Harvard).   Como é a experiência de lidar com gente de tantas nacionalidades na estruturação de um projeto? Numa operação como a do Rodoanel, entraram os governos do Japão, da França, banco francês, português, sócio no Brasil e o BID. A capacidade de negociar com gente de várias culturas ao mesmo tempo é algo que eu vejo que falta no Brasil, mesmo em profissionais de ponta. E ter pessoas com essas características é necessário se você realmente quer internacionalizar o País. Aqui sou meio um conselheiro das empresas brasileiras nas negociações. Explico que não adianta ligar para um japonês querendo marcar reunião para amanhã. Não funciona. Já com o americano funciona. Não adianta você só recusar alguma coisa para um japonês. Tem de dar uma explicação bem longa. Para o americano, um e-mail de uma linha basta. O cara que não saiu do Brasil não tem essa sensibilidade.   Você acha que as pessoas no Brasil percebem essa necessidade? Noto que elas olham como uma coisa estranha alguém que vem para o exterior, quer ficar e aprender aqui fora. E o engraçado é que, mesmo daqui, tudo que eu faço tem relação com o Brasil. Fiz o projeto de financiamento do Porto de Itapoá, da Linha 4 do metrô de São Paulo, do Rodoanel. Sinto que ainda tem uma carência grande no Brasil de pessoas que conheçam outras línguas e culturas. De 15 amigos que estudaram comigo no Colégio Porto Seguro, só um veio para fora.   Por que isso acontece? Quando vim para o BID, tinha tido uma proposta de outro banco de investimento, o UBS. A moça do UBS disse que, quando brasileiro vai trabalhar lá, chega com a malinha de mão e mais nada. Quando chega um argentino, colombiano, mexicano, o cara muda com a mulher, cachorro, sogra. Vem para ficar bastante tempo, conhecer a cultura. Na Fletcher, fiz aulas na Harvard Business School. Meus colegas brasileiros, todos, queriam voltar. Diziam: "Lá eu tenho empregada, motorista, condições de ter um carro assim, ter isso, aquilo." E tem outra coisa, o tamanho do mercado. No Brasil, o sujeito consegue se dar bem conhecendo só o mercado local, que é grande, bem desenvolvido em termos financeiros, tem um monte de produtos. Na Venezuela, Argentina, no Peru, Uruguai, o sujeito não sobrevive só com o mercado local. De qualquer forma, é uma deficiência grande. Tive muitos amigos chineses na Fletcher. O governo mandou eles para cá, para estudar, ficar um tempo. Porque aí, na volta, você leva inovação tecnológica, novas ideias, nova visão. No Brasil, o governo tem poucas políticas de incentivo, tem poucas instituições que oferecem bolsas.   De onde veio a ideia de tentar uma carreira internacional? Quando saí do Brasil pela primeira vez, em 96, já queria trabalhar numa área mais internacional, principalmente na América Latina, meu foco de interesse. Resolvi fazer estágio na American Airlines, para ter o benefício de ganhar a passagem de graça. Fiquei um ano na American, tranquei matrícula no 2.º ano da PUC e fui fazer curso de inglês no Wisconsin. De lá fui para o Equador, porque o custo de vida era muito baixo, o país estava em hiperinflação. Ao todo, fiquei 1 ano e 7 meses fora. Na volta, concluí a graduação e fiz MBA, já trabalhando no JP Morgan, onde fiquei 5 anos. Depois fiz o mestrado na Fletcher. Por causa de aulas com o Domingo Cavallo (ex-ministro da Fazenda argentino), um dos meus orientadores, decidi estudar a democratização na América Latina. Era a época do primeiro referendo do governo Hugo Chávez. Tranquei a matrícula e fiquei seis meses morando em Caracas.   Como é a rotina no BID, de pegar a expertise do mercado financeiro para trabalhar com setor público? Tem de ser uma formação bem ampla para discutir project finance, que é uma coisa que tem muito pouco no Brasil. Financiamento de porto, metrô são coisas que não dá para você fazer com base no balanço das empresas. Tem de ser financiamento específico para o projeto. E são poucas instituições que conseguem fazer isso. As multilaterais conseguem. Minha área, apesar de estar num organismo multilateral, é privada. Cuido de financiamento para empresas. Mas, por ser infraestrutura, passa pelo setor público. Aliás, tenho salário de setor público. O que "paga" as contas é que é um trabalho muito interessante e o BID abre portas. Nos últimos meses, tive convites de quatro instituições.

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