Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Entre o receio da doença e o apoio aos alunos. Volta não tem consenso entre professores

Estadão ouviu dois professores com opiniões distintas sobre a retomada das aulas em São Paulo. Reabertura em outubro foi confirmada pela Prefeitura nesta quinta-feira

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 05h00

Não faz muito tempo, o professor Rodrigo Caccere, de 38 anos, assistiu a uma live com gráficos sobre o comportamento do coronavírus e o processo de retomada na França. Diante do exemplo do país europeu, imediatamente lhe veio à cabeça a comparação com o Brasil. “As escolas francesas só reabriram quando a curva foi lá para baixo. Mas, aqui, a gente decide voltar às aulas mesmo diante de uma variação pequena de casos, com o número praticamente estável, e sem um cenário claro de declínio de mortes.”

Contrário à volta das classes presenciais neste momento, Caccere dá aula de Biologia a turmas do ensino médio na rede privada de São Paulo. A justificativa para discordar do retorno tem, sobretudo, como base questões de saúde. “Eu acredito que pode colocar em risco professores e alunos”, diz.

“É óbvio que esse período todo com as escolas fechadas, em termos físicos, não é o ideal: o melhor é sempre ter ensino presencial. Mas o que me preocupa no Brasil é a falta de um projeto sério de contenção da pandemia”, argumenta Caccere. “A decisão é complexa e deve ser tomada como um projeto de sociedade - e não da forma como tenho visto, por força do lobby ou de interesses financeiros.”

Em contrapartida, pondera, o ensino remoto também mudou a rotina do professor e impôs uma carga horária maior. Trabalhando de casa, Caccere precisa se desdobrar entre gravar e editar conteúdos, fazer encontros online com as turmas, propor exercícios complementares e atender individualmente dúvidas dos estudantes. “A aula, como algo que acontece dentro de uma esfera coletiva do presencial, mudou. A abordagem acaba mais individualizada”, afirma. “Muitos alunos têm resistência de abrir a câmera ou mesmo de colocar foto no perfil do e-mail, inevitavelmente isso ainda trouxe um certo distanciamento.”

Esses percalços, entretanto, não vão ser resolvidos com a autorização para ter os alunos de novo na escola. Pelas regras de São Paulo, só retornarão aqueles estudantes que tiverem aval dos pais. Para os professores, isso pode significar ainda mais trabalho. “Isso é outro problema que precisa ser resolvido”, avalia Caccere. “Como as escolas vão lidar com quem vai e com quem não vai?”

‘Penso na vulnerabilidade das famílias’, diz professora da rede municipal

Professora do ensino infantil da rede municipal de São Paulo, Márcia Bragança, de 44 anos, ficou assustada com o resultado da pesquisa feita recentemente com as famílias dos seus 30 alunos. Segundo conta, cerca de 60% dos pais perderam o emprego durante a pandemia. Hoje, 1/3 também quer o retorno das aulas. O motivo: garantir que os filhos tenham acesso adequado à comida na escola, porque em casa já começa a faltar.

“Eu, como professora, era contrária a esse retorno até pouco tempo, mas penso na vulnerabilidade social que essas famílias estão enfrentando”, afirma Márcia, que dá aula para crianças de 5 anos. “Também temos pais que moram em outras cidades, começaram a trabalhar e não tem com quem deixar os meninos e meninas. Eles estão soterrados em casa. Na escola, o professor saberia lidar melhor com a situação.”

Segundo conta, com o início da pandemia, a primeira ação da unidade onde trabalha foi mapear a realidade das famílias para organizar as atividades à distância. No WhatsApp, foi criado um grupo com os professores e os pais, pelo qual há o compartilhamento de vídeos de aulas, atividades, contação de histórias e brincadeiras. Também ficou acertado que, às quintas-feiras, seria realizada uma videochamada com a turma.

“Muitas famílias só tem um celular que é usado por todos da casa. Então, fazemos o encontro às 18h30, quando a criança pode ter acesso ao aparelho”, relata a professora. “Com o tempo, a participação foi caindo. O acesso à internet, que é um bem caro, ficou limitado e o plano de dados dos pais, muitas vezes, não comporta as chamadas. São poucas famílias que conseguem dar retorno.”

Na visão de Márcia, melhor seria se as escolas tivessem sido reabertas aos poucos, antes dos setores de comércio e de serviços. Embora ainda veja risco por causa da pandemia, ela avalia que não dá mais para postergar o retorno. “Se o protocolo de segurança for seguido à risca, acredito que pode ser seguro”, diz. “E as crianças são muito parceiras. No começo, vai ser um pouco difícil mas elas acabam internalizando que é preciso ter cuidado com higiene, se não tiver, pode virar um motivo para ela se afastar da escola novamente.”

Tudo o que sabemos sobre:
professorescolaeducação

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.