WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Entre acertos e desafios, universidades da capital aderem ao vestibular online

Modalidade exige que candidatos mudem a forma de se preparar e consigam lidar com eventuais problemas de conexão e tecnologia; especialistas alertam para risco de fraude, apesar do uso de instrumentos como biometria e do trabalho dos fiscais digitais

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2020 | 18h12

Realidade em diversas instituições de ensino, em função do crescimento dos cursos a distância, as provas online estão se tornando mais comuns nos principais vestibulares de São Paulo. Neste ano, universidades como Mackenzie, PUC, Insper, FGV e ESPM trocaram as avaliações presenciais pelas virtuais. Um modelo que requer mudanças na preparação dos vestibulandos e mais cuidados na hora de fazer a prova. Além de verificar se estão com o conteúdo em dia, os candidatos precisam checar o sinal da internet. E manter os olhos na tela do computador – a leitura da retina é uma das técnicas de monitoramento para não deixar ninguém colar, um dos grandes desafio do modelo. 

As instituições decidiram cancelar provas presenciais durante a pandemia. “Mesmo com todos os protocolos rigorosamente prontos, preferimos a prova online”, diz o professor Milton Pignatari, coordenador do Vestibular do Mackenzie. 

Na ESPM, a necessidade de isolamento social acelerou uma mudança que já vinha sendo planejada, conta o vice-presidente acadêmico Alexandre Gracioso. Desde o meio do ano, a faculdade seleciona os alunos com uma entrevista de 30 minutos e uma redação online. “Esse modelo de seleção, com entrevista, é usado por renomadas instituições do exterior”, diz Gracioso.

A plataforma de avaliações Prova Fácil, que atende mais de 500 faculdades, registrou alta de 500% no número de vestibulares online entre 2019 e 2020. “Atendemos, inclusive, inúmeras escolas de Medicina”, diz o CEO Adriano Guimarães. 

A prova online, porém, não é unanimidade. “O problema é como garantir a lisura num País onde as fraudes são comuns”, diz Leandro Tessler, professor do Instituto de Física da Unicamp e ex-coordenador do vestibular da instituição. Alerta semelhante é feito pela vice-presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), Elisabeth Guedes. “Não temos softwares para dar segurança à prova online. É um grande desafio a curto prazo.” 

Cada instituição dá uma resposta ao problema. Em muitos casos, a identificação do aluno é feita por reconhecimento facial. Também é possível monitorar, pela câmera e pelo microfone do computador, o ambiente em que o candidato está fazendo a prova. Sons e imagens são analisados e gravados.

A leitura da retina, por exemplo, é um dos mais de 80 padrões avaliados. Uma experiência pela qual Isabella Marangon, de 18 anos, aluna do cursinho Poliedro, já passou. Ela abaixou a cabeça por alguns minutos, para escrever no rascunho de Matemática da prova da FGV, e logo recebeu um alerta – a comunicação entre aluno e os fiscais é feita via chat. “Eu tinha de corrigir a postura e olhar para o computador”, conta. 

O Estadão acompanhou neste domingo, 20, o simulado do Insper para o vestibular online de 5 de janeiro. Seis salas de aula, as mesmas usadas antes no presencial, acolhiam apenas os fiscais, cada um deles monitorando 50 alunos a partir do seu notebook. Silêncio, clima de prova mesmo. Só os teclados zuniam. A comunicação entre fiscais e vestibulandos é feita por chat.

Na central de monitoramento, um painel apresentava as “carinhas” dos alunos com comportamentos fora do padrão. Muitos apareciam com a caneta nas mãos, o que é proibido. O sistema também dedura celulares, fones e rascunho. “A decisão de suspender uma prova passa por vários níveis: tecnologia, fiscais, supervisão e direção. É como o VAR do futebol”, brinca Guilherme Martins, diretor da Graduação do Insper. Os alunos contam com um serviço de Help Desk durante a prova. “Criamos uma grande estrutura. Tudo vem evoluindo bem desde o meio do ano”, diz Tadeu da Ponte, coordenador de processos seletivos do Insper. 

Martins destaca três pilares para garantir a qualidade e a segurança. "A tecnologia garante a segurança e a usabilidade para a instituição e para os candidatos. A governança e o suporte fazem o candidato sentir que eventuais falhas, como queda de energia ou internet, serão tratadas por pessoas, não por um algoritmo. Por fim, o desenho do processo seletivo. Implementamos novas etapas para autentificar o resultados da 1a fase dos candidatos. Optamos por interações entre professores e candidatos com questões customizadas baseadas na prova do candidato. Além de aferir o resultado, esta fase traz acolhimento", revela. 

Essa nova forma de aplicar um teste custa caro. O Insper crê que uma prova online custe 50% a mais do que o modelo presencial. A mesma avaliação foi feita pela FGV. “As provas online envolvem mais profissionais para elaborar as questões, além de professores e tutores para avaliar o processo”, afirma o pró-reitor da FGV, Antonio Freitas, sem revelar valores.

Adriano Guimarães, da Prova Fácil, têm uma visão diferente. Para ele, o modelo permite economizar em itens como papel, logística para distribuição de provas e equipe para correção. A redução possível seria de até 35% nos custos, segundo ele. 

Elisabeth Guedes, da Anup, avalia que o crescimento dos vestibulares online aponta a necessidade de alternativas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “O Enem não será esvaziado pelos vestibulares online, mas pela percepção de que não podemos depender apenas dele como forma de ingresso.” 

Outro ponto é que, segundo especialistas, usar os vestibulares online para acesso ao Programa Universidade para Todos (Prouni) e ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) seria inviável, por imposições legais. E a entrada teria de ser mesmo realizada pelo Enem.

Falhas da tecnologia

Mesmo que sejam neutralizadas as tentativas de fraude, a tecnologia pode falhar. Esse é mais um motivo de dor de cabeça. Os problemas mais comuns são lentidão da prova ou dificuldade de acesso. O Mackenzie calcula que, entre 15 mil candidatos, 2% a 3% possam ter tido problemas com acesso. “Cada caso está sendo analisado. Proporcionalmente ao número de candidatos, o porcentual de problemas foi bem baixo”, avalia Pignatari.

Marcelo Farinha, de 17 anos, esperou 35 minutos para acessar a prova online da PUC no dia 6. Eram 3 mil pessoas na fila da sala virtual. “Fiquei abalado”, lamenta o estudante do Poliedro. Candidato a uma vaga em Economia, ele afirma que teve o desempenho prejudicado. “Tinha medo de ser desclassificado. Estava focado quando entrei no aplicativo. Após os 35 minutos, estava nervoso.”

A PUC reconhece o problema. “De fato, houve lentidão de acesso no início do teste. Todos os candidatos foram informados de que não seriam prejudicados”, informa a universidade, em nota. “Houve, igualmente, muitos casos de candidatos que, a despeito das orientações de instalação prévia do browser seguro e realização do simulado, não o haviam feito.”

No caso de Luiza Silva Leite, o problema foi a abordagem do fiscal do Mackenzie. Por três vezes, ele disse que havia uma pessoa no quarto onde ela estava. E ameaçou cancelar o exame. Luiza teve uma crise de ansiedade e não passou. Após a reclamação, a universidade informou que o sistema notou um homem de camisa azul no local. Para ela, era a imagem de um travesseiro. Mas Luiza deu a volta por cima. Quatro dias depois, fez outra prova online, na Faculdade Damásio. Foi aprovada em Direito com desconto de 40% no curso. 

Se por um lado as falhas podem ocorrer, por outro a prova online contribui com o distanciamento social, além de ser mais acessível. No vestibular do meio do ano do Insper, por exemplo, uma candidata hospitalizada fez as provas.

Aluna do Bandeirantes, Mariana Ahmar destacou outro ponto positivo: ficar longe do estresse de uma sala cheia de concorrentes. “Me senti tranquila por não ter ido ao local da prova”, conta Mariana, que fez o vestibular do Instituto Mauá de Engenharia no dia 6. 

‘Posso dizer que o processo é seguro’

Depoimento de Márcia Fortuna, fiscal de provas online da HR Excellence Group

"Comecei a trabalhar como fiscal durante a pandemia, com o aumento da procura por empresas especializadas em provas online. Posso dizer que os processos são muito seguros. Com os recursos da tecnologia e os fiscais treinados, nenhum olhar passa sem ser monitorado. É preciso verificar se não há elementos que possam burlar as regras, como a presença de outras pessoas no ambiente ou o uso de calculadoras. A inteligência artificial sinaliza infrações graves. Caso de candidatos que saem da sala, usam celulares ou navegam em outras abas durante a prova. Desviar o olhar da tela é uma infração média. Uma vez, um senhor estava lendo a prova em voz alta para outra pessoa. Pedi para ele parar. Ele ficou indignado e disse que só conseguiria fazer daquele jeito. Insisti. Depois de ficar bravo, ele parou. Mas também há momentos que quebram o clima tenso. Alguns candidatos se esquecem de que estão sendo monitorados e aparecem sem camisa, se espreguiçando ou fazendo caretas."

Para evitar desigualdade, estaduais têm prova presencial

As principais universidades estaduais – USP, Unesp e Unicamp – mantiveram os vestibulares presenciais. A justificativa é oferecer oportunidades iguais aos candidatos. Existe preocupação com o desequilíbrio no acesso das populações carentes às ferramentas necessárias para uma prova online.

“A alternativa seria um exame digital. O primeiro desafio é de ordem técnica: como desenvolver um sistema seguro e sem risco de fraude. O segundo e mais importante: o exame online seria desigual quanto à operacionalização da prova. Haveria imensos prejuízos aos estudantes de escola pública”, explica o professor José Alves de Freitas Neto, diretor do vestibular da Unicamp. 

A Fuvest corrobora essa posição. “O vestibular conta com cerca de 130 mil candidatos. Para poder oferecer oportunidades iguais a todos em termos de infraestrutura, optou-se pelo formato presencial.”

Para garantir o distanciamento, as universidades aumentaram os locais de prova. No ano passado, a Fuvest usou 88 endereços na primeira fase; neste ano, serão 148. A ocupação máxima das salas será de 40%. A Unicamp mais do que dobrou o número de locais, que passou de 1.502 para 3.381. Nesses endereços, a ocupação será de 30% da capacidade. Já a Unesp decidiu dividir a prova em dois dias.

Mesmo com essas medidas, os alunos temem aglomerações na entrada e na saída. Isabella Marangon, de 18 anos, aluna do cursinho Poliedro, se lembra dos vestibulares presenciais recentes para Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa e para o Hospital Albert Einstein. “Na entrada, não havia fiscalização e o pessoal ficava junto”, conta Isabella.

Candidato de Administração, Kauê Ferreira Ostolin também tem receio de contaminação. “Dificilmente, as pessoas vão perder a chance de fazer a prova depois de um ano de estudo. Elas vão fazer a prova de qualquer jeito.” 

Essa é a mesma visão do professor Leandro Tessler, do Instituto de Física da Unicamp e ex-coordenador do vestibular. “Tive contato com candidatos que vinham fazer as provas mesmo doentes. Temo que candidatos, mesmo sabendo estar contaminados, compareçam às provas.”

Para não correr riscos, Escolas Técnicas (Etecs) e Faculdades de Tecnologia (Fatecs) estaduais estão selecionando candidatos pelo histórico escolar. Não há prova presencial ou online. Para cerca de 60 mil vagas, as notas analisadas são de Português e Matemática. Tudo é feito automaticamente, na hora da inscrição. “A grande dificuldade foi a unificação dos sistemas de avaliação. Numa instituição, a média é cinco. A outra usa letras. O desafio era convergir para não prejudicar ninguém”, explica o professor. Almério Melquíades de Araújo, coordenador do Ensino Médio e Técnico do Centro Paula Souza. "Mas isso foi feito". O passo seguinte, para o segundo semestre de 2021, é tornar a avaliação mais abrangente, incluindo disciplinas além de Português e Matemática na avaliação do histórico escolar. 

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