Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - O Brasil teve no ano passado uma expansão de apenas 3% nas matrículas do ensino superior, segundo mostram dados do Censo da Educação Superior 2017 divulgados nesta quinta-feira, 20. O crescimento só foi possível por causa do aumento de alunos no ensino a distância, de 17,6% - o maior desde 2008. Já na modalidade presencial houve queda de 0,4% de estudantes, puxada pela redução na rede privada. 

Ao anunciar os números, o ministro da Educação, Rossieli Soares, admitiu que é preciso “acelerar o ritmo e mudar a direção” do que tem sido feito para a expansão das matrículas nessa etapa. Ele disse estar preocupado com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) que mostram que o País tem 8,9 milhões de jovens (39% da população dessa faixa etária) que concluíram o ensino médio, mas não ingressaram no superior. “É a etapa da vida em que ele deveria ter a oportunidade de buscar conhecimento, formação profissional, mas está ficando de fora”, disse. 

O aumento do total de matrículas em 2017 foi maior do que o registrado em 2016, quando o País teve o pior cenário de ampliação (de 0,2%) do ensino superior desde 1992. Apesar da recuperação no número de matrículas, o aumento ainda está longe do que o País vinha vivendo nos últimos anos. De 1992 a 2015, a média de crescimento de alunos no ensino superior foi de 7,5% ao ano. A dificuldade de voltar ao mesmo ritmo deixa o País ainda mais distante de atingir a meta do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê elevar a taxa líquida de matrículas nessa etapa para 33% da população de 18 a 24 anos - apenas 18,1% dos jovens estão no ensino superior.

O ministro disse também considerar um avanço o aumento na modalidade a distância, que já representa 21,2% do total de matrículas no País. A expansão deve ser mantida nos próximos anos, pois o MEC mudou no ano passado a regulamentação para a abertura de novos polos que ofertam cursos nessa modalidade, impulsionando em mais de 130%. “Independentemente da modalidade, o que importa é a qualidade. O curso ser presencial não quer dizer que tenha qualidade. O ponto principal para nós é incluir mais alunos.”

Faculdades

Para as entidades que representam as instituições de ensino superior, o aumento das matrículas no EAD não se reflete no aumento do ingresso de jovens de 18 a 24 anos nessa etapa, uma vez que os cursos dessa modalidade atraem pessoas mais velhas. Para eles, a inclusão da faixa etária mais nova ainda depende da ampliação de vagas no ensino presencial, estagnado desde a redução de programas como o Financiamento Estudantil (Fies) e Programa Universidade para Todos (Prouni). “Se não há condições para o jovem ingressar no presencial, não vamos conseguir alcançar a meta”, diz Rodrigo Capelato, diretor do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp). 

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Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2018 | 03h15

SÃO PAULO - Quando terminou o ensino médio em 2015, Camilly Fiusa sonhava em cursar Veterinária. Sem dinheiro, ela adiou a entrada no curso, com a esperança de que a situação melhoraria em pouco tempo. No início de 2018, já com 19 anos e sem ver perspectiva de conseguir fazer a graduação que queria, decidiu entrar em um curso EAD (ensino a distância) para estudar Gestão Ambiental. 

“Eu queria ser veterinária, mas é um curso muito caro e muito difícil de ingressar em uma faculdade pública. Achei melhor manter o pé no chão e fazer o que está dentro da minha realidade”, conta ela. No ano passado, Camilly chegou a ingressar em uma faculdade particular para cursar Ciências Biológicas, mas desistiu por causa da duração. Preferiu o curso tecnólogo EAD, que só tem dois anos e custo de R$ 170 por mês, pois conseguiu um desconto de 56% pela empresa Quero Bolsa.

Rodrigo Capelato, diretor do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), diz que as pesquisas com alunos do EAD mostram que jovens como Camilly são exceção na modalidade. “A média de idade é de 30 anos, enquanto no presencial fica em 22 anos. Em geral, quem estuda a distância é aquele adulto que já tem família e trabalha, e vê no EAD a possibilidade de ascender na carreira. Para o jovem, só é o caminho quando não vê opção - e isso é muito cruel”, diz. 

Para Solon Caldas, diretor da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), o crescimento das matrículas no ensino a distância apenas posterga o problema de expansão do ensino superior. “É muito bom que pessoas mais velhas tenham a oportunidade de conseguir estudar e ter um diploma. Mas não se consegue captar o jovem, que ainda tem o desejo de fazer uma graduação presencial. Vamos perpetuando o problema de termos gerações com baixa escolaridade”, diz. Em 2007, a modalidade a distância representava 7% das matrículas de graduação. No ano passado, passou a atender 1,7 milhão de alunos - o que representa 21,2% dos graduandos do País. Nos cursos de licenciatura, a modalidade já tem 46,8% do total de alunos. 

Público

Em constante aumento na rede privada, a modalidade a distância também teve neste ano um salto nas instituições públicas de ensino. O número de matrículas cresceu 35% e o de ingressantes, 255%. 

“Estamos recuperando o tamanho que essa modalidade tinha há alguns anos, mas foi reduzida por causa da queda orçamentária. Neste último ano, conseguimos retomar a oferta por um incentivo da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Por isso, esse aumento tão expressivo”, diz Reinaldo Centoducatte, presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). 

Ele também ressalta que a maior parte das vagas não é preenchida por jovens que acabaram de sair do ensino médio, mas por professores e gestores que atuam em escolas do ensino básico. “A maior parte da oferta é para a formação de professores, com as licenciaturas”, diz. Em 2016, o EAD nas públicas teve apenas 24,5 mil ingressantes (menor número dos últimos dez anos). No ano passado, o número de ingressantes subiu para 86,9 mil. 

Governo planeja criar Sisu de vagas remanescentes

Com uma alta taxa de alunos que abandonam as graduações, o Ministério da Educação quer criar o já chamado Sistema de Seleção Unificada (Sisu) Transferência para preencher as vagas que sobram desses cursos. Só no ano passado, a rede pública tinha 164 mil vagas remanescentes disponíveis - 99 mil só nas universidades federais - e 70% delas continuaram ociosas. 

“Essas vagas ociosas representam um verdadeiro desperdício de dinheiro público, que vem sendo acumulado há anos. Temos um potencial de ampliar, sem custo, o número de alunos na rede pública, porque as universidades já têm os professores e a infraestrutura para preencher essas vagas na totalidade”, disse o ministro Rossieli Soares.

O sistema único, segundo ele, facilitará ao aluno encontrar as vagas que sobram, já que hoje cada instituição tem suas regras e seu processo seletivo. O sistema ainda vai ser discutido e a adesão será voluntária. 

Em 2015, o ministro Aloizio Mercadante anunciou o lançamento do mesmo sistema - na época, as vagas remanescentes somavam 150 mil. Ele chegou a anunciar que mudaria a forma de pagamento para as universidades, fazendo a transferência pelo número de matrículas efetuadas e não mais pelo de vagas. Com o impeachment, o programa nunca saiu do papel. 

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Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2018 | 03h30

O grande problema do ensino superior brasileiro está no ensino básico. O Brasil tem um dos índices mais baixos do mundo de formados em universidades e faculdades - 16% entre os cidadãos de 25 a 34 anos e 11% entre os que têm de 55 a 64 anos. Em países ricos são, em média, 43% e 26%, respectivamente. Mas eles não chegam não porque faltem vagas - há milhares sobrando, até nas disputadas instituições federais. 

Os jovens não cursam ensino superior porque mal passam pelo ensino médio, o antigo colegial. Na mesma faixa etária, de 25 a 64 anos, mais de metade não termina a escola. Entre os mais novos, as taxas de abandono são altíssimas, principalmente entre negros e pobres.

Mas há ainda os que, bravamente, conseguem ir até o fim. As avaliações recentes mostram que mais da metade termina os 12 anos de escolaridade sem conseguir entender a informação principal de uma reportagem. E as dificuldades não são apenas no ensino público: só 10% dos alunos de escolas privadas têm notas que entram no rol de avançadas do Ministério da Educação.

Mesmo com esse cenário, o Brasil continua investindo três vezes mais no ensino superior do que no básico. Com um ensino médio ruim, que não ajuda o adolescente a ver um futuro no conhecimento, nunca teremos mais alunos no ensino superior - e mais bem qualificados. E isso não diz respeito só ao destino de cada um. Não adianta apenas lamentar pelos que não conseguem se formar. É algo crucial para o futuro e o desenvolvimento da nação. 

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