Wilton Junior/Estadão
Professores usam quadro negro digital na Escola Chinesa Internacional, no Rio Wilton Junior/Estadão

Ensino chinês chega ao Brasil com mandarim, inglês e até 10 horas de aulas

Rio foi a cidade escolhida para receber a primeira Escola Internacional Chinesa, criada com financiamento de empresários e apoio do governo chinês. Com investimento de R$ 3 milhões em tecnologia, colégio tem 60% dos alunos brasileiros

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 05h00
Atualizado 31 de maio de 2021 | 14h24

RIO - Um dos maiores produtores mundiais de vacinas, principal parceiro comercial do Brasil e líder em Ciências e Educação, a China chegou à rede educacional brasileira. Foi aberta no Rio a primeira Escola Chinesa Internacional, criada com o financiamento de empresários chineses que vivem no País e com apoio do governo chinês. O objetivo, segundo o site da escola recém-inaugurada, é proporcionar ensino de referência internacional. O modelo será o da educação básica chinesa, em ambiente trilíngue: mandarim, português e inglês.

A escola já investiu R$ 3 milhões em tecnologia. Tem tablets e quadros-negros digitais e um robô que conversa em mandarim com os alunos, corrigindo sua pronúncia. O plano é abrir, ainda este ano, uma filial em São Paulo – onde a comunidade chinesa é muito maior.

Os chineses sentiam falta de uma escola que garantisse a educação integral de seus filhos no País, com ensino de mandarim e acesso a universidades chinesas. A China é o maior parceiro comercial do Brasil há mais de dez anos. Cerca de 300 mil chineses vivem no País.

Dezenas de empresas chinesas têm filiais no Brasil, sobretudo no Rio e em São Paulo. Além do mandarim, a escola mantém o currículo chinês, que é muito mais avançado em Matemática do que o brasileiro, por exemplo. Também preza os ensinamentos do filósofo Confúcio (551 A.C./479 A.C.), entre outros aspectos da cultura e tradição chinesas. Os alunos aprendem ópera e até culinária da China. A ginástica laboral – uma tradição nas escolas e empresas chinesas – também está presente.

“Muitos de nós, chineses, viemos para o Brasil já adultos; crescemos e estudamos na China”, afirma o empresário Zheng Xiamao, um dos investidores da escola. “Mas nossos filhos nasceram aqui, e percebemos que eles perderam um pouco da identidade, das raízes chinesas. Às vezes não tínhamos nem tempo de ensinar o mandarim.”

Chineses que vivem no Brasil contam que precisaram mandar os filhos de volta à China, ainda pequenos, para garantir que aprendessem a língua e tivessem garantido o acesso às universidades chinesas. Com o currículo brasileiro, é praticamente impossível ingressar no ensino superior no país asiático.

“No Brasil e em outros lugares do mundo existem escolas alemãs, britânicas, americanas. Por que não chinesa?”, questionou Xiamao. “Elaboramos então esse projeto de termos uma escola 100% chinesa.”

Alunos também têm atividades que promovem cultura brasileira

Mas a cultura brasileira também está presente. Os alunos têm aula de jongo, por exemplo, onde aprendem a dança brasileira de origem africana, típica de comunidades negras. Em uma aula acompanhada pelo Estadão, crianças chinesas tentavam aprender a dançar e a tocar os tambores típicos do ritmo ao lado de brasileirinhos levemente mais cadenciados. As aulas de História e Geografia, claro, também seguem o currículo nacional – uma exigência do Ministério da Educação.

A China, atualmente, lidera o ranking mundial de educação, o Pisa, nas três categorias: Leitura, Ciência e Matemática. Está à frente de todos os países escandinavos, tradicionalmente muito bem colocados. O aluno formado nessa escola terá acesso não só a universidades da China como também a instituições dos Estados Unidos e da Europa.

 

Dos cerca de 50 alunos já matriculados, 60% são brasileiros, 30% são chineses e 10%, de outras nacionalidades – há alunos americanos e italianos, por exemplo. “A maioria dos nossos alunos é brasileira”, atesta a diretora da escola, Yuan Aiping, que vive há 23 anos no Brasil. “E fico muito feliz de ver como os brasileiros abraçaram a ideia e reconheceram a nossa educação como de alto nível. A troca cultural certamente será imensa. Queremos um aluno globalizado.”

Entre os brasileiros que já matricularam seus filhos na escola estão os deputados federais Clarissa Garotinho e Pedro Paulo Carvalho, que atualmente é secretário de Fazenda e Planejamento da prefeitura do Rio.

“A comunidade chinesa trazia as famílias, mas, depois de alguns poucos anos, tinham de mandar os filhos de volta se quisessem que eles cursassem uma universidade chinesa; são sistemas educacionais muito diferentes”, conta o cônsul da China no Rio de Janeiro, Li Yang. “Mas se estendermos a educação chinesa a outros países, essas crianças podem ter a mesma educação que teriam na China e quando voltarem não terão problemas.”

A primeira dificuldade, claro, é a língua. Mas, mesmo sendo um sistema trilíngue (e o mandarim é escrito em ideogramas), a experiência da escola mostra que as crianças absorvem conhecimento muito rápido.

Entre os menores, na pré-escola, não há propriamente aula de idioma. Mas eles são assistidos por três professoras nativas: uma chinesa, uma brasileira e uma americana. Cada uma delas só se dirige às crianças em sua língua natal. Funciona: as crianças passam de uma língua para outra com grande naturalidade. “Os pequenos se adaptaram muito rápido, muito mais rápido do que imaginávamos”, conta a coordenadora pedagógica Josilene Germania.

A Matemática também é um grande obstáculo. Segundo Yang, a Matemática ensinada no 2.º ano de educação básica na China equivale ao que é ensinado no 5.º ou no 6.º ano em outros países. “Mas a nossa escola é aberta também para as crianças locais, não apenas às chinesas”, lembra o cônsul. “Assim, elas poderão ter acesso a uma educação de alta qualidade, trilíngue, além de conhecer a cultura chinesa.”

Os alunos passam de oito a dez horas na escola, o que pode parecer um pouco excessivo para alguns brasileiros. A mensalidade também varia de R$ 4 mil a R$ 8 mil dependendo da idade da criança e do número de horas que ela fica no colégio.

‘Queríamos um colégio para formar um cidadão global’

Vicente, filho da deputada federal Clarissa Garotinho (PROS-RJ), completou 5 anos na semana passada. Na hora do bolo, ele não se contentou em cantar parabéns apenas em português. “Ele fez questão de cantar também em mandarim”, conta a mãe, orgulhosa.

O neto dos ex-governadores do Rio Anthony e Rosinha Garotinho é aluno da Escola Chinesa Internacional desde o início do período letivo deste ano. É um dos brasileiros mais avançados em mandarim. Ele já se apresenta na língua asiática, dizendo seu nome e idade com a entonação correta, para deleite dos professores chineses.

“Queríamos um colégio internacional, para formar um cidadão global”, conta Clarissa. “Aí vimos que a China é o primeiro lugar do mundo no ranking de educação e toda a parte de tecnologia e matemática também é muito forte. No caso do Brasil, as relações comerciais são cada vez mais próximas; enfim, achamos que seria um ganho cultural muito grande.”

As mesmas razões nortearam a decisão do atual secretário de Fazenda e Planejamento do Rio, Pedro Paulo, na hora de matricular os dois filhos, Matteo, de 8 anos, e Lucca, de 6, na escola chinesa. “O colégio tem tudo o que a gente estava buscando”, diz o secretário. “Ninguém tem dúvidas de que o ensino chinês é o melhor do mundo. Tem a questão da tecnologia, do contato com outras culturas, do ensino do inglês e do mandarim, que é a segunda língua mais falada do mundo e rapidamente será a primeira.”

Sem falar na matemática. Matteo já é considerado uma promessa na matéria e é ensinado pessoalmente por um professor chinês. “Sempre percebi essa aptidão dos meninos pelo cálculo”, conta Paulo. “Por fim, a escola tem convênio com nove universidades chinesas, fora as americanas, formação que dará a eles grande vantagem.”

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No século XIX, Rio foi a primeira cidade do País a receber imigrantes chineses

No século XIX, quando cidade fluminense era também capital do País, cerca de 300 chineses foram trazidos de Macau pelo governo real português, a fim de iniciar o plantio de chá

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 05h00

RIO - O Rio de Janeiro, que acaba de receber a primeira Escola Chinesa Internacional, foi também a primeira cidade brasileira a receber imigrantes chineses, ainda no século XIX. Entre 1812 e 1819, cerca de 300 deles foram trazidos de Macau pelo governo real português, a fim de iniciar o plantio de chá, que não foi bem-sucedido. O pintor alemão Johann Moritz Rugendas registrou a plantação chinesa de chá no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

“Em 1809, um ano depois da chegada da família real portuguesa ao Brasil, o ouvidor geral de Macau, então colônia portuguesa na China, enviou dinheiro (em ouro) e presentes para a coroa portuguesa exilada no Rio; entre eles, sementes de chá, especiarias e árvores de fruta”, conta o professor Shu Changsheng, do departamento de línguas orientais da USP.

“No mesmo navio vieram também três chineses que iniciaram a plantação de chá no Jardim Botânico. Entre 1812 e 1814 cerca de 300 chineses chegaram ao Rio para trabalhar no cultivo de chá no Jardim Botânico e na Fazenda Real de Santa Cruz”, completa.

Uma estrada foi aberta ligando o Jardim Botânico ao Alto da Boa Vista por mão de obra chinesa. Em homenagem a esses trabalhadores, o prefeito Pereira Passos mandou construir em 1903 a Vista Chinesa, no Parque Nacional da Tijuca, um mirante que oferece uma das mais bonitas vistas da cidade.

A partir de 1870, com o fim do tráfico negreiro, os chineses começaram a ser trazidos para o Brasil para substituir o trabalho dos negros escravizados. Além de trabalhar nas fazendas, eles também trabalhavam nas obras de construção de estradas e ferrovias.

“Tradicionalmente, do século XIX até 1949, a maioria dos chineses veio ao Brasil sozinha, deixando as famílias na China e sonhando em ficar rico para voltar ao país natal”, conta Changsheng. “A maioria não enriqueceu. Esses chineses ficaram por aqui e se casaram com mulheres brasileiras.”

A partir de 1950 os imigrantes chineses começaram a trazer as famílias para o Brasil, onde os filhos também acabaram se casando com brasileiros.

“A grande mudança na população chinesa no Brasil começou nos anos 1980, quando começaram a chegar os migrantes da China continental”, diz o professor. “Eles trabalhavam no comércio, nas lanchonetes e restaurantes. Desde 1998 muitos se dedicam ao comércio popular.”

Somente nos últimos anos as grandes empresas chinesas de tecnologia começaram a chegar ao País, trazendo executivos e profissionais altamente qualificados. Atualmente, a grande maioria da população chinesa no País mora em São Paulo.

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