Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Ensinando o professor a dar aulas sobre o cotidiano

Trabalho com competências socioemocionais, previsto na base curricular, exige formação e atualização profissional

Ocimara Balmant , especial para o Estado

11 de dezembro de 2019 | 05h00

Os resultados do Brasil na edição 2018 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), divulgados na semana passada, mostram que 68% dos estudantes brasileiros de 15 anos não sabem o básico de Matemática, 50,1% apresentaram baixo desempenho em Leitura e 55,3% têm baixo desempenho em Ciência. Na série histórica (desde o ano 2000), o Brasil aparece estagnado há dez anos. 

Isso é resultado, afirmam os especialistas, da falta de políticas públicas consistentes que tenham como prioridade não o aluno, mas o professor. E o desafio cresce no próximo ano, com a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a necessidade de trabalhar as competências socioemocionais. 

“Valorizar o professor é condição central para o sistema educacional promover e sustentar um salto de qualidade”, afirma Olavo Nogueira Filho, diretor de políticas educacionais do Todos Pela Educação. “A despeito de diferentes espectros políticos, culturais e sociais, o que o Pisa nos mostra é que os países com melhores resultados traçaram um caminho similar: bons salários e formação inicial e continuada bastante rigorosa.”

A questão da formação docente é tão importante que uma resolução aprovada recentemente pelo Conselho Nacional de Educação já traz diretrizes importantes, como a que define um perfil de egresso para cursos de licenciatura e Pedagogia, em termos de conhecimentos e competências. Mas e os milhares de docentes que já estão em sala de aula? O desafio é atualizá-los para que consigam trabalhar o conteúdo de forma que faça sentido e seja apreendido pelos alunos e, ao mesmo tempo, atuar no desenvolvimento de competências como resiliência, assertividade e empatia.

“A maioria dos docentes foi formada para passar conteúdo. Isso não funciona mais. Hoje, o conteúdo está no Google, para todo mundo achar em segundos. A atuação dos professores precisa ser outra: tem de estar nos relacionamentos e no que a gente faz com esse conteúdo que está no Google”, afirma a educadora Áurea Araújo Bartoli.

Convivência

Licenciada em Química e Pedagogia e com 23 anos de magistério, a educadora assumiu há três anos cargos de gestão e, depois disso, passou a estudar e a atuar para transformar esse modelo que já não faz mais sentido. Áurea implementou na escola em que é diretora um grupo de formação de professores e um programa de convivência ética que abrange 2 mil alunos matriculados do 6.º ao 9.º ano do ensino fundamental.

“Não adianta apenas eu dizer ao professor que ele precisa trabalhar conceitos como empatia, resolução de conflitos, respeito próprio. Ele precisa saber o porquê disso e fazer a reflexão sobre a prática. Se não, pode achar, por exemplo, que é só uma regra fazer trabalho em grupo e não individual. Se isso acontece, não vai conseguir aproveitar o potencial pedagógico do momento.”

Para estruturar o programa que implementa, Áurea também buscou formação. Ela termina neste ano o curso de pós-graduação As Relações Interpessoais na Escola: das Competências Socioemocionais à Personalidade Ética, oferecido pelo Instituto Vera Cruz. Com cinco semestres de duração, o objetivo do curso é formar especialistas aptos a identificar e a intervir em problemas de convivência. Além disso, eles se tornam capazes de favorecer o desenvolvimento socioafetivo da criança e do adolescente.

Na grade, há disciplinas como Desenvolvimento Moral e Afetivo e outras que abordam os problemas de convivência na escola. No tópico Manifestações Violentas, por exemplo, são tratados temas como diferenciação entre violência e agressividade, o fenômeno “bullying” e as sutilezas desse tipo de violência na escola, além de estudos sobre os sentimentos de vergonha e humilhação e as consequências disso para o desenvolvimento da autonomia moral. 

A partir desse repertório, a parte propositiva fica por conta de disciplinas como a que trabalha as Práticas para Convivência Ética, como assembleia escolar, teatro, jogos de representação, e para a expressão dos sentimentos, narrativas morais, entrevistas pessoais e sessão de debates.

“Ao formular um curso de pós-graduação, a gente faz esse movimento de tentar identificar as demandas, contemplar as pesquisas atuais e, ao mesmo tempo, olhar para as políticas públicas vigentes”, explica Andrea Luize, coordenadora do Instituto Vera Cruz.

Por causa da BNCC, por exemplo, o instituto também atualizou a proposta da pós em Educação Infantil - os iniciantes em 2020 já terão acesso a nova formatação. Já o curso de Didática em Matemática procura responder à Base e a uma demanda muito considerável dos docentes: a dificuldade de ensinar Matemática.

Conteúdo com sentido

Imagine uma criança que cresceu sem aprender totalmente Matemática, até porque a professora tinha dificuldade em ensinar e fazia parecer aquilo tudo muito chato. Depois do ensino médio, este agora jovem decidiu prestar um curso de Humanas, até para fugir das Exatas. 

Essa pessoa se forma em Pedagogia e consegue um emprego como docente dos anos iniciais. Alguns dias em sala de aula e vem o desafio: cabe a ela ensinar os primeiros conceitos matemáticos àquelas crianças de uma forma diferente daquela que aprendeu, exatamente para não repetir o círculo vicioso.

E é esse exemplo que representa o currículo da maior parte dos docentes que buscam uma atualização em Matemática no País. “Existe uma aversão histórica para as áreas das Ciências e da Matemática e no curso de Pedagogia não há uma formação que supere essa antipatia”, explica Margareth Polido Pires, coordenadora da Segunda Licenciatura em Matemática do Instituto Singularidades.

O curso é voltado para professores já licenciados em diferentes áreas com o objetivo tanto de suprir as lacunas de conhecimentos matemáticos como de oferecer aportes didático-pedagógicos. A ideia é que o licenciado saia dali sabendo mais de Matemática e, ao mesmo tempo, apto a criar aprendizado de forma instigante. É um caminho para que, por fim, o Pisa não mostre novamente que mais de dois terços dos jovens brasileiros não sabem aplicar conceitos simples, como calcular a quantidade de ingredientes necessários em uma receita que será duplicada.

“Isso acontece exatamente porque não é a partir desses exemplos práticos que a disciplina é ensinada”, afirma Lara Gonzalez Gil, pedagoga há 12 anos e aluna do curso do Singularidades. Ela conta que, assim que começou a lecionar, percebeu que as crianças, desde muito pequenas, já têm medo da Matemática. “Quero ajudar a desmistificar isso.”

Recentemente, em um módulo sobre Etnomatemática, Lara estudou exatamente sobre a importância de o professor enfatizar os conceitos matemáticos informais.

“É importante olhar para o território educativo do estudante. Ele vai aprender melhor se o estudo de gráfico não vier isolado, mas estiver atrelado a retas e curvas que mostram empregabilidade. Aprender porcentagem pode ser mais fácil se o professor mostrar como calcular os porcentuais de impostos que pagamos.”

É um raciocínio que vale tanto para Matemática como para o ensino de outras disciplinas que também têm desafiado professores Brasil afora. No UniSagrado, a Especialização em Alfabetização, Letramento e Numeramento visa a ajudar os pedagogos e licenciados a refletirem sobre uma abordagem mais empática e casada ao dia a dia dos alunos, em vez de se valerem de apenas uma ou outra concepção teórica.

“A alfabetização é sempre um nó, com muita polêmica sobre os métodos de ensino enquanto as crianças nem sempre saem com as competências desejáveis”, afirma Ketilin Mayra Pedro, coordenadora do curso e do Centro de Ciências Humanas da instituição.

No caso da linguagem, é uma defasagem que causa impactos em toda a jornada escolar e pelo restante da vida. Se metade dos jovens brasileiros não consegue identificar a ideia principal de um texto, como aprender História e Geografia?

“Exatamente por isso, nossa ideia não é só atender professores dos anos iniciais, mas também ajudar os docentes dessas disciplinas. Eles precisam de estratégias de letramento para não ignorar esse déficit dos alunos e, ao mesmo tempo, conseguir fazê-los avançar no aprendizado desses conteúdos que exigem, no mínimo, que se saiba interpretar um texto”, completa Ketilin.

Digital

Outro desafio, que vai perpassar o século 21, é o uso da tecnologia. E a BNCC também contempla isso ao definir que o estudante deve ser capaz de fazer um uso qualificado e ético das diversas ferramentas existentes e de compreender o pensamento computacional e os impactos da tecnologia na vida das pessoas e da sociedade.

Ao contrário do que muitas escolas têm feito, isso não significa tratar a tecnologia como suporte e fazer a simples substituição da apostila pelo tablet. O que a BNCC aponta é para o uso da tecnologia integrada ao currículo. Isso não é simples. E exige formação do professor.

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) oferece o curso Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação na Educação, que mescla teorias interacionistas de educação e abordagens tecnológicas contemporâneas para ajudar o professor a integrar as tecnologias em suas práticas pedagógicas.

“É preciso avançar em tudo. Desde a infraestrutura das escolas - algumas ainda nem têm conexão de internet - até o uso da tecnologia como suporte na formação inicial do professor, que ainda é incipiente”, afirma Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, professora da PUC-SP e pesquisadora de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) em sala de aula. “O cenário é muito novo. Nós não temos ainda essa situação ideal. Mas é um processo que tem de ser construído. E logo.”

O que são competências socioemocionais?

Tudo começou por volta dos anos 1930, quando pesquisadores se debruçaram sobre quais seriam as palavras usadas para descrever os traços da personalidade humana. A partir dos anos 1980, foram definidos cinco eixos: abertura ao novo (curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico), consciência ou autogestão (determinação, organização, foco, persistência e responsabilidade), extroversão ou engajamento com os outros (iniciativa social, assertividade e entusiasmo), amabilidade (empatia, respeito e confiança) e estabilidade ou resiliência emocional (autoconfiança, tolerância ao estresse e à frustração).

Diversas pesquisas revelaram que alunos que têm essas então denominadas competências socioemocionais de forma mais desenvolvida apresentam maior facilidade de aprender os conteúdos acadêmicos. Estudantes mais responsáveis, focados e organizados aprendem em um ano letivo cerca de um terço a mais de Matemática do que os colegas que apresentam esses parâmetros menos desenvolvidos. Em Língua Portuguesa, os efeitos são semelhantes, e alunos mais abertos e protagonistas têm seu aprendizado impulsionado em 30%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.