Filipe Araujo/AE
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Engenharia de vida

Considerada uma das profissões do futuro, biotecnologia ganhou curso superior no Brasil há apenas 11 anos; País se destaca em pesquisas em agricultura e energia

Carlos Lordelo, do Estadão.edu,

28 Abril 2012 | 23h22

A biotecnologia está na fronteira do conhecimento humano faz tempo. Nossos ancestrais não sabiam, mas 12 mil anos atrás, quando inventaram a agricultura, usaram procedimentos biotecnológicos rudimentares para selecionar plantas e tipos de solo. A concepção moderna, porém, veio na esteira das descobertas da biologia molecular e da genética. Ponto para Mendel e suas ervilhas, que abriram o caminho para uma das profissões do futuro.

 

Antes de seguir com esta história, vamos ao conceito de biotecnologia definido na Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, que ocorreu no Rio há 20 anos: “É a aplicação tecnológica de sistemas biológicos, organismos vivos ou derivados para criar ou modificar produtos ou processos.”

 

Ou seja, do desenvolvimento de antibióticos à produção de bebidas, do uso de células-tronco para reconstruir tecidos à aplicação de enzimas para degradar substâncias poluentes, o homem tem hoje um arsenal de ferramentas microscópicas capaz de revolucionar o modo como vivemos.

 

“Usar a biologia para atender às nossas necessidades é o caminho para a sustentabilidade humana”, resume o expert em computação, genética e biologia sintética Andrew Hessel, professor da Singularity University. Para ele, é preciso superar processos “velhos e crus” que existem desde a Revolução Industrial, a exemplo de reações químicas com o uso de reagentes tóxicos. “Esses processos foram bastante úteis, deram escala, funcionaram de forma confiável, mas no fim das contas são bastante tóxicos. A vida faz muitas dessas mesmas reações, mas de forma graciosa.”

 

Para quem quer fazer carreira em laboratórios, o País tem se destacado principalmente na área de fontes de energia. O desafio atual dos cientistas é obter o chamado etanol de segunda geração, a partir da hidrólise (quebra) da parede celular da cana. Para isso, estudam modificações genéticas visando a aumentar a qualidade das fibras.

 

“Só um terço da energia da cana está na sacarose que obtemos ao espremer o caule. Um terço está na biomassa e um terço na palha, que é descartada”, diz Marcos Buckeridge, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol. “Mais que aumentar o rendimento, a ideia é aproveitar melhor toda a planta, diminuindo os custos de produção.”

 

Chefe de vários projetos de transgenia animal e vegetal na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o pesquisador Elibio Rech acha que o Brasil deve explorar ainda mais a condição de grande exportador agropecuário para introduzir tecnologia no campo e preservar a biodiversidade. “Conhecendo melhor nossas plantas e animais, vamos poder produzir novas moléculas e produtos, agregando valor à floresta.”

 

Além de aplicações na agricultura, na indústria e no meio ambiente, o ex-presidente do CNPq Esper Cavalheiro destaca ainda a relevância da pesquisa brasileira voltada à saúde. “O Instituto Butantã e a Fiocruz são grandes produtores de vacinas. E temos outros centros importantes pensando na cura de doenças degenerativas, como Parkinson e Alzheimer, e do câncer, caso do Inca.”

 

O pesquisador do Inca Martin Bonamino, doutor em Química Biológica pela Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estuda câncer desde a graduação. Hoje ele avalia genes que poderiam educar o sistema imunológico para reconhecer tumores. Também desenvolve vetores virais para transformação de células adultas em células-tronco pluripotentes. “Na área da saúde, tem muito espaço para pesquisa e dinheiro sendo injetado pelo governo”, diz.

 

Por falar em recursos públicos, Martin recomenda aos estudantes e futuros universitários que aproveitem a oportunidade de conseguir uma bolsa no exterior pelo Ciência sem Fronteiras. “Passar um tempo fora do País é fundamental”, afirma. “Quando fiz estágio no exterior, durante o doutorado, trouxe novos conhecimentos para meu laboratório.”

 

Formação

 

Hoje consultor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, Esper Cavalheiro vê com entusiasmo a criação de cursos superiores para formar pessoal especializado. Para o cientista, é fundamental que as universidades estimulem o aluno a desenvolver o espírito criativo e empreendedor. “Talvez tenhamos surpresas muito boas pela frente.”

 

A primeira graduação começou a funcionar há 11 anos, na Universidade Presidente Antônio Carlos, de Barbacena (MG). Segundo o MEC, em 2010 havia 22 bacharelados e 6 graduações tecnológicas.

 

A UFSCar, por exemplo, oferece dois cursos, em Araras e em São Carlos. O primeiro enfatiza as áreas ambiental e agrícola. O outro é voltado para biologia molecular. Sua primeira turma cola grau no fim do ano. Sairá com uma formação multidisciplinar sólida, acredita o vice-coordenador do curso em São Carlos, Anderson Ferreira da Cunha. Segundo ele, os alunos frequentaram diferentes laboratórios e assistiram a aulas em vários departamentos, como Física, Química e Computação.

 

“A formação em biologia molecular abre um mundo de possibilidades”, diz. “Eles trabalham basicamente com a manipulação de DNA, o que lhes permite atuar da indústria farmacêutica à de ração animal.”

 

No último ano do curso da UFSCar, Vanessa Munhoz, de 24 anos, prepara-se para escrever a monografia e o TCC. Depois ainda precisa fazer seis meses de estágio obrigatório. Ela vai para uma usina de álcool acompanhar a produção de levedura, resíduo da transformação da cana em etanol que pesquisou na iniciação científica.

 

“A levedura é vendida para uma fábrica intermediária que faz o tratamento enzimático da substância e depois a revende para a produção de ração animal. Quanto mais RNA tiver a levedura, melhor o alimento para bois, porcos e frangos. É como se eles precisassem comer menos para engordar mais”, explica Vanessa. Simples, mas complexo. / COLABOROU SERGIO POMPEU

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